Rádio Germinal

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segunda-feira, 4 de março de 2019

O Capital Recreativo - A Apropriação Capitalista do Lazer, livro de Mateus Orio


ORIO, Mateus. Capital Recreativo: A Apropriação Capitalista do Lazer. Curitiba: CRV, 2019.

Mateur Orio apresenta nessa obra uma análise profunda da apropriação do lazer pelo capital. Para tanto, traz o conceito de capital recreativo, um setor do capital que explora de forma capitalista, o lazer. Assim, o lazer se torna fonte de lucro e é cada vez mais mercantilizado. Através de uma análise rigorosa do capitalismo e dos regimes de acumulação, bem como do lazer e seu significado. Orio mostra como o lazer é envolvido na dinâmica capitalista, tanto da produção de mercadorias (envolvendo capital e trabalho produtivo) e consumação de mercancias (envolvendo capital e trabalho improdutivo), e acaba sendo apropriado pelo capital e servindo ao seu processo de reprodução.


Detalhes do produto

Editora: EDITORA CRV
ISBN:978-85-444-3068-2
DOI: 10.24824/978854443068.2
Ano de edição: 2019
Distribuidora: EDITORA CRV
Número de páginas: 228
Formato do Livro: 16x23 cm
Número da edição:1


domingo, 3 de março de 2019

Partidos Políticos, Intelectuais e Conselhos Operários - livro de Erisvaldo Souza



SOUZA, Erisvaldo. Partidos Políticos, Intelectuais e Conselhos Operários. Pará de Minas, Virtualbooks, 2018.


Nesta obra, o autor realiza uma investigação sobre os partidos políticos, os intelectuais e os conselhos operários, a partir de uma perspectiva crítico-revolucionária, mostrando os limites desta organização social que atua no interior do Estado como forma de organização burocrática. Posteriormente mostra a ação dos intelectuais no sentido de produzir saber para legitimar ou romper com o modelo de sociedade vigente, pois na sua perspectiva é preciso ir além da política das instituições sociais. Os conselhos operários são a forma de organização dos trabalhadores a partir de sua ação direta para intervir e transformar a realidade na sua totalidade. É uma forma de democracia direta, tendo por base a organização e a luta autônoma da classe trabalhadora em oposição ao modelo da sociedade capitalista que é a democracia representativa. 
ISBN: 9788543413952 
Ano: 
2018 
Edição: 

Número de páginas: 
80 
Acabamento: 
Brochura 
Formato:
 14x20 cm


Autor 

ERISVALDO PEREIRA DE SOUZA 
Entre em contato:
erisvaldosouza@yahoo.com.br

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

A era da facilidade

     A era da facilidade

Não é preciso pensar nem estudar, só propor clichês para cimentar consensos.


Gostaria de escrever um livro que, desde o título, condensasse, numa palavra só, quem somos e em que mundo vivemos —tipo Era da Turbulência, da Incerteza, dos Extremos etc.

A crítica mais banal do espírito de nossos tempos diz que estaríamos na ("escandalosa") era dos prazeres imediatos. Será que eu concordaria?

Certamente não, mas essa crítica é um bom exemplo, pois ela nunca é acompanhada de fatos que a justifiquem. Ela apenas pede que a gente comungue numa indignação comum.

No caso, os fatos dizem que nossa cultura é declaradamente contra os prazeres há 18 ou 17 séculos. Primeiro, os prazeres mandavam você para o inferno. Depois, os prazeres foram ruins para a saúde. Com o prazer, você perde a vida eterna ou, se não acreditar naquela, perde anos desta tua vida na Terra.

Mas os fatos não interessam. O que importa é a expectativa de que a afirmação (por exemplo, que nossa época seria hedonista) corresponda ao que muitos querem ouvir (no caso, para se indignar).
Ilustração
Mariza Dias Costa
Essa procura de um consenso talvez seja o estilo que define nossa era.

Consequência, estamos na era da facilidade: não é preciso pensar nem estudar, devemos apenas propor clichês, que possam cimentar consensos.

Os clichês ganham cúmplices ou esbarram em inimigos. Em ambos os casos, eles são confirmados, quer seja pela adesão dos "nossos", quer seja pela recusa pelos outros.

Nada contra a facilidade: não acho que penar e se sacrificar nos ganhem mérito algum. Mas, infelizmente, a facilidade dos clichês empobrece o mundo e deixa só duas posições —"a favor" e "contra". E eu, entre "a favor" e "contra", sempre escolho um terceiro ou um quarto lugar, que não foram sequer mencionados.

Entende-se que o indivíduo da era da facilidade (o Homo Fácil) odeia os intelectuais, em geral. Não tanto porque eles teriam ideias opostas.

Com as ideias opostas o Homo Fácil sabe lidar: é clichê contra clichê —manda prender, quebra a cara, censura, grita mais alto etc. Intolerável para o Homo Fácil é o intelectual que quer discutir e para isso traz ideias diferentes, ou, pior ainda, fatos "novos" —ou seja, fatos que o Homo Fácil não tinha levado em consideração.

O intelectual detestado, em suma, é o chato que gostaria de nos obrigar a pensar e a estudar. Que saco: a gente está tão bem no conforto do nosso clichê coletivo.

Nas mídias sociais, o Homo Fácil se sente em casa: é uma arena de opiniões —pura ideologia, sem espaço nem tempo para fatos, pensamentos, estudo, reflexão ou diálogo.

Um exemplo perfeito de como funciona o Homo Fácil foi oferecido pela ministra Damares, que se atribui um mestrado em "estudos bíblicos" (ou seja um "mestrado" em ideologia) e o confunde com mestrados acadêmicos —que são em disciplinas, não em ideologias.

O Homo Fácil é preguiçoso? É só uma nova espécie, que não quer ler, estudar e pensar? Talvez, mas não só.

Desde os anos 1960, uma espécie de neoplatonismo tomou conta de nossa visão do que significa aprender. Aos poucos, fomos nos afastando dos ensinos de conteúdo e avançando na direção de uma pedagogia pela qual tudo já estaria lá, dentro do indivíduo. Quer aprender sem esforço? Só deixe seu íntimo se expressar.

Começamos assim a encorajar nossos rebentos a ter opiniões e a formulá-las, mesmo sobre tópicos que eles ignoram totalmente.

Uma mãe, ouvindo sua filha defender calorosamente uma opinião sobre assédio moral, que ela (a criança) não sabe o que é: "Ela já tem opiniões, não é maravilhoso?". Eu: "Não é maravilhoso; é idiota".

Talvez a era da facilidade seja filha de uma pedagogia (recente) que não valoriza os conteúdos e preza a opinião antes que formular uma opinião digna seja sequer possível.

Tem alguma esperança de nossa cultura voltar a pensar?

Elizabeth Anderson é uma ilustre professora de filosofia moral (em Ann Arbor, Michigan, EUA). Num recente perfil (na The New Yorker), aprendi que, recentemente, ela mudou os requisitos para seus estudantes de graduação.

Em vez de pedir ensaios opinativos, nos quais eles defenderiam suas ideias e sua posição, ela pede que cada estudante discuta sua posição com alguém que pensa muito diferente dele, relate esse debate e explique por que e como a discussão mudou, por pouco que seja, o que ele ou ela pensavam antes disso.

Talvez não seja tarde demais para introduzir no currículo um novo tipo de dissertação.

Contardo Calligaris

Psicanalista, autor de “Hello, Brasil!” e criador da série PSI (HBO).     

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Subjetivismo e Movimentos Sociais: Ou quando o feitiço se volta contra o feiticeiro



Subjetivismo e Movimentos Sociais: 
Ou quando o feitiço se volta contra o feiticeiro


Daniel dos Santos Simon de Carvalho

Mestrando em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás, graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF).


O fenômeno do subjetivismo começou a tomar conta dos movimentos sociais na segunda metade do século XX, e suas conseqüências são sentidas até hoje. Por movimentos sociais tomo o conceito de Gohn (2011, p. 335) como “ações sociais coletivas de caráter sociopolítico e cultural que viabilizam formas distintas de a população se organizar e expressar suas demandas”. E por subjetivismo, entendo o que Alonso (2009, p. 61) coloca como uma demanda de movimentos que “em vez de demandar democratização política do Estado, demandaria uma democratização social, a ser construída não nos planos das leis, mas dos costumes”.
A partir da década de 1960, muitos fenômenos que até então eram delegados como questões de “segunda ordem” ou tratados como “problemas menores”, passaram a figurar no debate político. Partindo das questões de quem produz o discurso, muitos movimentos se pautaram na crítica de sua produção. Nos anos 1960, pode-se considerar que três movimentos que emergiram: De negros por direitos civis, pelo direito das mulheres, movimentos críticos ao estilo de vida ocidental (como os hippies) e o ambientalismo. Movimentos anticolonialistas em diversos países da África e da Ásia, também datam a década de 1960 e 1970. A partir da década de 1980 e 1990, as questões que envolvem identidade de gênero e sexualidade também ganham o cenário político. Tornando-se conhecidos como “novos movimentos sociais”, que deslocaram a crítica do mundo do trabalho e da questão de classe, para o corpo e a cultura. Focando-se em contestações em “pós-materialistas”, em contraponto as lutas fabris e sindicais. (Melucci, 1989).
Esses novos grupos, em toda sua efervescência, dirigiam sua critica não só aos seus respectivos antagonistas, mas também a movimentos de cunho classista acusados de centrar suas análises em homens, brancos, heterossexuais e euro-estadunidenses, tratando tal movimento como universal. Por isso, no desenrolar das tramas, muitos discursos hegemônicos foram fragmentados, defendendo a pluralidade, a polifonia e a sobreposição de narrativas.
As críticas intelectuais e políticas desses movimentos passaram a figurar posteriormente aos eventos da década 1960 naquilo que ficou conhecido como “pós-modernidade”, focando em um ataque feroz as metanarrativas (como o marxismo), buscando refugio em argumentos mais subjetivos, que buscavam conservar a multiplicidade a partir da individualidade de respectivos grupos sociais[1].
Na atualidade, a “pós-modernidade” e sua crítica (mesmo que muitas vezes esta apenas culmine em novas narrativas pós-modernas), se deflagram em novos confrontos que vemos cotidianamente. O aspecto subjetivo (ou pós-material) e a defesa das múltiplas narrativas continuam presente no discurso dos novos movimentos sociais. No entanto, é preciso destacar que algumas questões bem objetivas que não são abordadas por esses movimentos. Ainda vivemos sob a égide do capitalismo e suas leis, e as opressões que esses diversos grupos sofrem não serão superadas integralmente, se não passarem também pelas questões de classe. Inclusive, a desconsideração desses aspectos podem minar as próprias lutas dos respectivos movimentos citados.
Tornou-se comum que membros de movimentos sociais façam defesas apaixonadas, recorrendo para argumentos de uma suposta “vivência” (palavra da moda), que dá apenas aos participantes a capacidade e a compreensão daquilo que se passa e se discute em seu interior, e, portanto de sua crítica (ou melhor, da autocrítica neste caso), e da respectiva opressão que se combate. Isso muitas vezes se traduz em frases de efeito como: “somente o negro pode falar sobre o racismo”, “somente a mulher pode falar sobre machismo”, “somente os gays podem falar sobre homofobia”.
Primeiro, que por mais que seus membros não queiram que agentes externos dêem “palpites” sobre sua militância, isso não vai deixar de acontecer, justamente porque esses movimentos estão em evidência. Segundo, considero extremamente problemático, quando um movimento se fecha as críticas. Como ele poderá avançar se não se propõe a um debate? E terceiro, apelar para argumentos subjetivistas de vivência é uma forma cômoda de fugir da crítica, porém também desarma aquela outra crítica que se destina ao respectivo “opressor” antagonista.
 Atualmente, o capitalismo vive mais uma crise. E claro, que os ideólogos dominantes estimulam a inversão da realidade, retirando a culpa da crise de seu caráter “sistêmico” e transportando a culpa em outros elementos idealistas, como por exemplo, os imigrantes que vão de países periféricos para os centrais. A questão material se estende para questão simbólica, gerando uma luta cultural, mas o cerne da questão continua na base material. E claro nos momentos de crise, acentuam-se as opiniões diversas. Tanto a esquerda – podendo ser reformista ou revolucionária – como a direita – liberal e conservadora – começam a propor suas pautas.
No Brasil e outros países do mundo, nota-se um avanço do conservadorismo, muito por culpa de uma esquerda inoperante[2]. Tornou-se comum na atualidade a relativização de formas de opressão como o racismo, o machismo e a homofobia. Pode-se dizer que existe uma espécie de lugar comum, que justifica esse relativismo a partir de termos como: “o racismo só acabará quando pararmos de falar dele”[3], “não sou machista e nem feminista, sou humanista”[4] ou “se temos um dia do orgulho LGBTT[5], por que não se pode ter um dia do orgulho heterosexual?” Esses argumentos possuem o mesmo cunho subjetivista (e relativista) que busca a individualização das interpretações, mas neste caso para fins de conservar relações de poder hegemônicas. Existem grupos e páginas em redes sociais com nomes do tipo “orgulho de ser hetero”, “orgulho de ser branco”, aliás, recentemente o atual presidente da câmara dos deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ) propôs um projeto de lei para criação do “dia do orgulho heterossexual”[6] Todos esses argumentos se justificam na mesma premissa da suposta crítica dos movimentos sociais. O homofóbico, o racista, o machista, o xenófobo, podem muito bem – a partir dessa retórica – justificar seus preconceitos, usando subterfúgios de experiências pessoais. E por isso o título do artigo: “Quando o feitiço se volta contra o feiticeiro”. Pois a mesma retórica argumentativa usada pelos novos movimentos sociais, pode voltar contra eles próprios.
No entanto, por trás desses preconceitos existem questões bem materiais e objetivas, mas que, no entanto são camufladas por aspectos simbólicos e subjetivos, jogando os membros da classe trabalhadora uns contra os outros. Como por exemplo, um estadunidense que culpa os imigrantes latinos pelo aumento desemprego em seu país, não levando em conta aspectos muito mais o processo de reestruturação produtiva e as políticas neoliberais.
Opressões existem, e reconheço à legitimidade da luta dos novos movimentos sociais. Não nego a importância das lutas de emancipação de mulheres, negros, gays, lésbicas e etc. e sim esses movimentos tem muito a nos ensinar, no entanto isso não descarta o debate crítico que deve ser travado, de cunho mais material que está para além dos próprios movimentos. É necessária uma intersecção uns com os outros, e principalmente resgatarem as questões de classe. É curioso notar que esse fenômeno tem um aspecto dialético, já que ao mesmo tempo em que serve como defesa dos movimentos sociais, também desarma o ataque contra seus alvos. O caráter predominantemente subjetivista (ou pós-material) desses movimentos mina sua ação, e permite que esse mesmo caráter seja usando por aqueles que se pretende criticar. Ficar limitados a aspectos de auto percepção, ou de “aparência”, em sentido marxista, impede a compreensão da totalidade e por consequência a práxis que levaria a ruptura das relações de dominação.

Referências:

ALONSO, Angela. As Teorias dos Movimentos Sociais: Um Balanço do Debate. Lua Nova, São Paulo, v. 1, n. 76, pp. 49-86, 2009.

GOHN, Maria da Glória. Movimentos Sociais na Contemporaneidade. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 16, n. 47, mai-ago, 2011.

MELUCCI, Alberto. Nomads of Present. Social moviments and individual needs in contemporany society. Filadélfia: Temple University Press, 1989.




[1] O fim da união soviética também reforçou mais ainda as narrativas pós-modernas ao culminar no surgimento de muitos países novos, reforçando mais ainda a fragmentação e a polifonia.
[2]  Os motivos disso são diversos. Se tratando de Brasil, a meu ver, o Partido dos Trabalhadores (PT), conseguiu desmobilizar e cooptar diversos movimentos e sindicatos, lhes retirando autonomia e combatividade. No entanto, este tema é muito complexo para ser abordado neste artigo.
[3] Frase distorcida que foi atribuída ao ator estadunidense Morgan Freeman durante uma entrevista, cujo objetivo é querer dizer que o racismo não acaba, porque as pessoas sempre trazem essa temática a tona.
[4] Frase geralmente proferida por pessoas que buscam deslegitimar o feminismo, tratando-o com uma espécie de “machismo reverso”, apelando para uma vaga noção de “humanismo” que abrangeria uma luta por todos os seres humanos, mas que nada tem a ver, por exemplo, com os estudos humanistas realizados por Karl Marx.
[5] Movimento de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.
[6] Link do site do deputado: http://www.portaleduardocunha.com.br/projeto-de-lei-n%C2%BA-1672-de-2011/11/616.html. Acessado no dia 07 de março de 2015.


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Publicado originalmente em:

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Billy Liar: Sonho e Covardia


BILLY LIAR: SONHO E COVARDIA

Nildo Viana

O filme O Mundo Fabuloso de Billy Liar (John Schlesinger, EUA, 1963) é um filme que aparentemente é despretensioso, mas, no fundo, trata de uma questão fundamental para os seres humanos. Billy Liar é um sonhador. Ele sonha para fugir da cotidianidade capitalista. O filme, no fundo, realiza uma contraposição entre tal cotidianidade e a insatisfação e sonhos que ela gera nos indivíduos. No início do filme, as donas de casa buscam fugir da cotidianidade massacrante na qual não podem desenvolver suas potencialidades através do rádio e da música, que promovem, com o locutor citando seus nomes, um reconhecimento social que faz ficar mais fácil suportar esse mundo vazio e repetitivo promovido pela divisão social do trabalho. Além dessas “satisfações substitutas”, para usar termo psicanalítico, há outra forma de fugir do cotidiano: o sonho acordado. Billy Liar ilustra essa forma de evasão e o universo ficcional do filme gira em torno disso.


Após a cotidianidade das donas de casa, o filme mostra o início do dia de Billy Liar. A dificuldade de acordá-lo para que ele vá para o trabalho, pois ele está sonhando (acordado) que é um líder que luta pela democracia e contra a ditadura. Ele é um membro da classe subalterna, um empregado de escritório, que tenta dar sentido à sua cotidianidade através dos sonhos de grandeza, nos quais ao invés de subordinado é líder. Assim, os sonhos de Billy Liar mostram uma consciência contraditória: recusa a subordinação à qual está submetido, mas aponta para sua superação tornando-se o líder e não mais o “liderado”. As relações familiares também são motivo de insatisfação, pela situação financeira (daí sonhar que sua família se tornou rica) e as cobranças, o que significa negar a família (por causa das cobranças) e querer o melhor para ela (a riqueza), em sua concepção.

O mundo fabuloso de Billy Liar consiste em suas fábulas e revelam sua insatisfação, que, algumas vezes, manifesta o sentimento de ódio, tal como nas cenas em que imagina metralhar outras pessoas (família, namorada, etc.). Assim, um cotidiano marcado pela reprodução do capitalismo, nas cobranças familiares de se tornar um adulto responsável, na cobrança de casamento das namoradas, na cobrança de responsabilidade no emprego, mostra um adulto inadaptado, infeliz, que ainda gostaria de ser um jovem[1] não inserido no mundo adulto do trabalho, dos compromissos familiares, das relações amorosas. Billy Liar acaba enfrentando diversos problemas derivados de sua insatisfação e do modo como trabalha com ela: sonhos e mentiras. Os sonhos aliviam seu sofrimento (derivado de sua não realização como ser humano e seu cotidiano insatisfatório) e as mentiras são a forma como ele busca fugir dos seus problemas, da responsabilidade e das atividades insatisfatórias. Ele foge da sua responsabilidade no trabalho ao não entregar os calendários que o patrão ordenou, foge do compromisso com as duas namoradas problemáticas, etc.

Billy Liar foge através da evasão[2]. A fuga da realidade é acompanhada por uma pequena esperança de mudança. Assim, os “sonhos acordados” de Billy Liar não geram uma “utopia”, como diria Ernst Bloch, mas geram a ideia de superação de uma determinada realidade social. Ele pensa em se tornar um roteirista e buscava concretizar isso através de um contato com o Danny Boon, um comediante de TV. Assim,  ele é um sonhador e tenta concretizar um sonho realizável, ser roteirista. Isso é compartilhado por Liz, que é diferente das duas namoradas que possui. Liz também é sonhadora, mas sem os defeitos de Billy Liar, e corre atrás dos seus projetos e por isso já mora em Londres e não na pequena cidade do interior em que nasceu. Eles fazem planos e Liz convence Billy Liar a viajar para Londres à meia noite. Ele tem imprevistos, como a morte da avó, mas consegue chegar e encontrar com Liz, mas inventa uma desculpa para descer do trem e acaba não voltando e perdendo a viagem.

Billy Liar acaba revelando que é um grande sonhador, mas tem medo, não luta por concretizar seus sonhos mesmo quando tem a oportunidade. Perde Liz e o sonho. Ele foge da realidade, mas ao mesmo tempo foge da liberdade. A covardia é mais forte do que o sonho. Ele prefere voltar para a segurança do seu lar, apesar de toda insatisfação e se refugiar num mundo de fábulas e fantasias, tal como mostra o seu retorno para casa após perder o trem, ao invés de realizar os seus projetos, os seus sonhos. Billy Liar é uma expressão de milhões de indivíduos que estão insatisfeitos, sonham e projetam, não conseguem e quando possuem oportunidade, se acovardam e retornam para a sua cotidianidade. A fuga da liberdade que se observa até nos indivíduos que se dizem revolucionários, aqueles que teriam sonhos utópicos mais amplos, mas logo cedem ao pragmatismo, à escolha do “menos ruim” e até mesmo à defesa daquilo que condenam. Billy Liar é uma legião, pois eles são muitos. Mas assim como existem milhões de Billy Liar, existem milhares de Liz e por isso a esperança e a luta pela realização dos sonhos e projetos continua.






[1] Sobre juventude e o mito do adulto-padrão, veja: VIANA, Nildo. A Dinâmica da Violência Juvenil. Ar editora, 2014; VIANA, Nildo. Juventude e Sociedade. Ensaios sobre a Condição Juvenil. São Paulo: Giostri, 2015.
[2] Alguns chamariam de “alienação”, mas este termo, no sentido marxista, remete a algo distinto, ao controle e apropriação do trabalho e do seu resultado (VIANA, Nildo. A Alienação como Relação Social. Revista Sapiência: sociedade, saberes e práticas educacionais, v. 01, 2012.). O sentido do conceito de evasão remete ao processo de escapismo, de fuga da realidade, que é um fenômeno psíquico e não uma relação social como no caso da alienação.


RELAÇÕES AFETIVAS E VALORES CAPITALISTAS



RELAÇÕES AFETIVAS E VALORES CAPITALISTAS


Mateus Vieira Orio

Doutorando em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Mestre em Sociologia (UFG), Graduado em ciências sociais (UFG).


A amizade costuma ser caracterizada como uma relação afetuosa entre duas ou mais pessoas, que envolve um conjunto de afinidades, lealdade, altruísmo e práticas cotidianas conjuntas. Porém, na sociedade contemporânea (sociedade capitalista) a amizade (e as relações afetivas em geral) é também permeada por valores inautênticos, cobranças imperiosas, conflitos de lealdade, falsidade e egoísmo.

As relações afetivas se constituem a partir dos locais de convívio das pessoas: família, instituições de ensino, trabalho, etc. E estes locais não estão isolados da totalidade da sociedade. Então, por mais que alguns considerem que “o mundo do lado de fora” não interfere em suas relações familiares; ou que a amizade (entre outras relações) está acima de tudo; ou que os problemas no trabalho não interferem na relação afetiva entre colegas; todos estes ambientes estão imersos em um conjunto de relações sociais que possuem como determinações aspectos globais de sociabilidade.

Desta forma, muito das relações afetivas que são constituídas estão permeadas pelos valores dominantes na sociedade capitalista, como a competição e o individualismo. Isso porque contemporaneamente as pessoas precisam sobreviver a partir de um emprego, de uma atribuição da sociedade capitalista. E por mais que alguém diga não participar da sociedade capitalista, isto é uma ilusão. É possível se opor ao capitalismo, criticá-lo e lutar contra este tipo de sociedade que nos assola, porém não é possível estar fora disso.

Tomemos um exemplo para melhor ilustrar esta argumentação: o consumo. O consumo é apenas um elemento da sociabilidade capitalista, elemento este que não existe sem a sua devida produção. Neste sentido, deixar de beber coca cola ou, em geral, de comprar produtos de grandes companhias capitalistas, não significa romper com o capitalismo, mas apenas com uma ou outra empresa, o que não impossibilita a ruptura com o conjunto de empresas que produzem bens a partir da exploração do trabalho nos moldes capitalistas. Do mesmo modo, viver “de doações” ou viver de forma “rústica”, em contato com a natureza, etc. não constitui ruptura com o modo de produção capitalista, mas simplesmente indica o afastamento individual de um ou outro elemento deste modo de produção que, por sua vez, é social, não individual. Não constitui, portanto, ruptura com o capitalismo, pois o mesmo continua existindo e sendo determinante em inúmeras relações, podendo incluir até mesmo as relações que permitem que um indivíduo viva “de doações” ou que outro deixe de consumir carne Friboi, pois isso só é possível graças à existência de outros indivíduos que possuem condições de fazer doações e de outros produtores de carne, nestes exemplos.

Portanto, viver na sociedade contemporânea implica em viver na sociedade capitalista, que traz consigo uma forma de socialização que inculca determinados valores. Desta forma, na constituição de relações afetivas, no trabalho, por exemplo, o elemento da competição pode ter prevalência em relação a lealdade, altruísmo, etc. E, por isso, muitos indivíduos acabam buscando se relacionar com outros por interesse, ou seja, almejando subir de cargo, obter informações úteis para se sobressair, e também como forma de descobrir fragilidades que possam prejudicar o outro.

Assim também, nas escolas e universidades um “colega” pode se aliar a outro para obter boas notas, melhorar sua relação com o professor ou conseguir contatos e indicações futuras, bem como pode bajular determinados indivíduos para obter sucesso profissional e aceitação. E, desta forma, atitudes egoístas e individualistas passam a mediar relações em que um indivíduo deseja sobrepujar os demais: ser mais prestigiado, ganhar mais presentes ou elogios, ganhar uma vaga de emprego/ estágio, etc. E estes tipos de relação se desenvolvem não só nas relações de trabalho/ estudos, como também nas relações afetivas em geral, como quando uma pessoa deseja ser “mais amiga” de outra ou ser a “melhor amiga”, ou nos relacionamentos amorosos quando uma pessoa “concorre” pelo amor de outra.

Por fim, os valores dominantes na sociedade capitalista são transmitidos no processo pelo qual os indivíduos são formados para conviver em sociedade. Neste processo, com todas as dificuldades e obrigações que impõe, as pessoas acabam sendo levadas a reproduzir determinados tipos de valores, como o egoísmo e o individualismo, que não correspondem à constituição de relações sociais autênticas, fundamentadas no ser humano como valor fundamental, ou seja, relações sociais baseadas na solidariedade e na busca da realização das potencialidades humanas.

O fundamento das relações sociais autênticas existe em todos os seres humanos como potencial. Mas muitas vezes entra em conflito com os valores da sociabilidade capitalista. Por isso, muitos indivíduos se confrontam com situações as quais têm muita dificuldade em definir entre a amizade e o interesse individual. Estas são situações nas quais existe um conflito de valores: um conflito entre os valores humanistas e os valores capitalistas, entre a busca da solidariedade com o outro e a busca do sucesso individual nos moldes capitalistas. O próprio conflito demonstra que os valores capitalistas não “possuem” o indivíduo totalmente, havendo sempre uma margem para a manifestação de valores humanistas, ou seja, de valores autênticos. Mas as fugas de um ou outro elemento isolado da sociedade capitalista não levam a prevalência dos valores autênticos sobre os inautênticos. Pois estes são fruto de um processo social e a ruptura com eles deve ser, portanto, também social.

Nesse sentido, a busca da manifestação de valores autênticos é também uma forma de crítica à sociabilidade capitalista e pode se constituir em um movimento rumo à ruptura com esta sociabilidade. E a consolidação dos valores humanistas perpassa pela ruptura com a sociedade capitalista que á a origem dos valores inautênticos que interferem nas relações afetivas. E assim, buscar uma sociedade alternativa ao capitalismo é caminhar em busca da efetivação de relações afetivas autênticas, baseadas no ser humano como valor fundamental.

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Publicado originalmente em:

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

AS FORMAS DO NEOLIBERALISMO


AS FORMAS DO NEOLIBERALISMO


Por Carlos Henrique Marques

Estado neoliberal é a forma estatal do atual regime de acumulação capitalista e sua função é garantir a reprodução do modo de produção capitalista e realizar as tarefas necessárias para a burguesia no atual momento histórico. O neoliberalismo é um elemento constitutivo do regime de acumulação integral e busca efetivar diversas ações para a formação, consolidação e evitar a desestablização e crise desse regime. E faz isso sob várias formas: políticas econômicas (monetárias, privatizações, apoio a setores do capital, diminuição dos gastos estatais, etc.), política cultural (impondo o paradigma hegemônico, o subjetivismo, e suas ideologias derivadsa - neoliberalismo, pós-estruturalismo, culturalismo, etc.), entre outras. No entanto, muitos pensam que o estado neoliberal é um "modelo" a ser aplicado rigidamente em todos os lugares. Isso não é verdade. O neoliberalismo de Reagan não era exatamente igual ao de Helmutt Kohl na Alemanha e nem no que foi implantado na Argentina nos anos 2000. Bem como foi diferente do que vigorou e continua vigorando no Brasil desde Fernando Collor. Inclusive, o próprio neoliberalismo em nosso país assumiu formas distintas e para isso basta comparar o neoliberalismo de FHC e o do PT (com seu neoliberalismo neopopulista). O Estado Neoliberal não é um modelo. Ele possui alguns elementos básicos e comuns (a ideia do Estado mínimo e forte, determinada política monetária, etc.) e elementos diferenciadores dependendo da época e do país. Por Exemplo, geralmente o neoliberalismo inicia mais privatizante e depois de certa privatização tende a diminuir as privatizações. Em épocas de desestabilização e crise do regime de acumulação integral, tende a adotar as chamadas "políticas de austeridade", assumindo a forma de neoliberalismo discricionário. Mas isso ocorre sob formas distintas em países diferentes, como governos específicos, etc. No entanto, o regime de acumulação integral vem enfrentando dificuldades e vem enfrentando um processo de desestabilização. Isso ocorrendo, o passo seguinte é a crise e a adoção mais generalizada do neoliberalismo discricionário. Essa tende a ser a fase final do neoliberalismo.