Rádio Germinal

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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

A era da facilidade

     A era da facilidade

Não é preciso pensar nem estudar, só propor clichês para cimentar consensos.


Gostaria de escrever um livro que, desde o título, condensasse, numa palavra só, quem somos e em que mundo vivemos —tipo Era da Turbulência, da Incerteza, dos Extremos etc.

A crítica mais banal do espírito de nossos tempos diz que estaríamos na ("escandalosa") era dos prazeres imediatos. Será que eu concordaria?

Certamente não, mas essa crítica é um bom exemplo, pois ela nunca é acompanhada de fatos que a justifiquem. Ela apenas pede que a gente comungue numa indignação comum.

No caso, os fatos dizem que nossa cultura é declaradamente contra os prazeres há 18 ou 17 séculos. Primeiro, os prazeres mandavam você para o inferno. Depois, os prazeres foram ruins para a saúde. Com o prazer, você perde a vida eterna ou, se não acreditar naquela, perde anos desta tua vida na Terra.

Mas os fatos não interessam. O que importa é a expectativa de que a afirmação (por exemplo, que nossa época seria hedonista) corresponda ao que muitos querem ouvir (no caso, para se indignar).
Ilustração
Mariza Dias Costa
Essa procura de um consenso talvez seja o estilo que define nossa era.

Consequência, estamos na era da facilidade: não é preciso pensar nem estudar, devemos apenas propor clichês, que possam cimentar consensos.

Os clichês ganham cúmplices ou esbarram em inimigos. Em ambos os casos, eles são confirmados, quer seja pela adesão dos "nossos", quer seja pela recusa pelos outros.

Nada contra a facilidade: não acho que penar e se sacrificar nos ganhem mérito algum. Mas, infelizmente, a facilidade dos clichês empobrece o mundo e deixa só duas posições —"a favor" e "contra". E eu, entre "a favor" e "contra", sempre escolho um terceiro ou um quarto lugar, que não foram sequer mencionados.

Entende-se que o indivíduo da era da facilidade (o Homo Fácil) odeia os intelectuais, em geral. Não tanto porque eles teriam ideias opostas.

Com as ideias opostas o Homo Fácil sabe lidar: é clichê contra clichê —manda prender, quebra a cara, censura, grita mais alto etc. Intolerável para o Homo Fácil é o intelectual que quer discutir e para isso traz ideias diferentes, ou, pior ainda, fatos "novos" —ou seja, fatos que o Homo Fácil não tinha levado em consideração.

O intelectual detestado, em suma, é o chato que gostaria de nos obrigar a pensar e a estudar. Que saco: a gente está tão bem no conforto do nosso clichê coletivo.

Nas mídias sociais, o Homo Fácil se sente em casa: é uma arena de opiniões —pura ideologia, sem espaço nem tempo para fatos, pensamentos, estudo, reflexão ou diálogo.

Um exemplo perfeito de como funciona o Homo Fácil foi oferecido pela ministra Damares, que se atribui um mestrado em "estudos bíblicos" (ou seja um "mestrado" em ideologia) e o confunde com mestrados acadêmicos —que são em disciplinas, não em ideologias.

O Homo Fácil é preguiçoso? É só uma nova espécie, que não quer ler, estudar e pensar? Talvez, mas não só.

Desde os anos 1960, uma espécie de neoplatonismo tomou conta de nossa visão do que significa aprender. Aos poucos, fomos nos afastando dos ensinos de conteúdo e avançando na direção de uma pedagogia pela qual tudo já estaria lá, dentro do indivíduo. Quer aprender sem esforço? Só deixe seu íntimo se expressar.

Começamos assim a encorajar nossos rebentos a ter opiniões e a formulá-las, mesmo sobre tópicos que eles ignoram totalmente.

Uma mãe, ouvindo sua filha defender calorosamente uma opinião sobre assédio moral, que ela (a criança) não sabe o que é: "Ela já tem opiniões, não é maravilhoso?". Eu: "Não é maravilhoso; é idiota".

Talvez a era da facilidade seja filha de uma pedagogia (recente) que não valoriza os conteúdos e preza a opinião antes que formular uma opinião digna seja sequer possível.

Tem alguma esperança de nossa cultura voltar a pensar?

Elizabeth Anderson é uma ilustre professora de filosofia moral (em Ann Arbor, Michigan, EUA). Num recente perfil (na The New Yorker), aprendi que, recentemente, ela mudou os requisitos para seus estudantes de graduação.

Em vez de pedir ensaios opinativos, nos quais eles defenderiam suas ideias e sua posição, ela pede que cada estudante discuta sua posição com alguém que pensa muito diferente dele, relate esse debate e explique por que e como a discussão mudou, por pouco que seja, o que ele ou ela pensavam antes disso.

Talvez não seja tarde demais para introduzir no currículo um novo tipo de dissertação.

Contardo Calligaris

Psicanalista, autor de “Hello, Brasil!” e criador da série PSI (HBO).     

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Subjetivismo e Movimentos Sociais: Ou quando o feitiço se volta contra o feiticeiro



Subjetivismo e Movimentos Sociais: 
Ou quando o feitiço se volta contra o feiticeiro


Daniel dos Santos Simon de Carvalho

Mestrando em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás, graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF).


O fenômeno do subjetivismo começou a tomar conta dos movimentos sociais na segunda metade do século XX, e suas conseqüências são sentidas até hoje. Por movimentos sociais tomo o conceito de Gohn (2011, p. 335) como “ações sociais coletivas de caráter sociopolítico e cultural que viabilizam formas distintas de a população se organizar e expressar suas demandas”. E por subjetivismo, entendo o que Alonso (2009, p. 61) coloca como uma demanda de movimentos que “em vez de demandar democratização política do Estado, demandaria uma democratização social, a ser construída não nos planos das leis, mas dos costumes”.
A partir da década de 1960, muitos fenômenos que até então eram delegados como questões de “segunda ordem” ou tratados como “problemas menores”, passaram a figurar no debate político. Partindo das questões de quem produz o discurso, muitos movimentos se pautaram na crítica de sua produção. Nos anos 1960, pode-se considerar que três movimentos que emergiram: De negros por direitos civis, pelo direito das mulheres, movimentos críticos ao estilo de vida ocidental (como os hippies) e o ambientalismo. Movimentos anticolonialistas em diversos países da África e da Ásia, também datam a década de 1960 e 1970. A partir da década de 1980 e 1990, as questões que envolvem identidade de gênero e sexualidade também ganham o cenário político. Tornando-se conhecidos como “novos movimentos sociais”, que deslocaram a crítica do mundo do trabalho e da questão de classe, para o corpo e a cultura. Focando-se em contestações em “pós-materialistas”, em contraponto as lutas fabris e sindicais. (Melucci, 1989).
Esses novos grupos, em toda sua efervescência, dirigiam sua critica não só aos seus respectivos antagonistas, mas também a movimentos de cunho classista acusados de centrar suas análises em homens, brancos, heterossexuais e euro-estadunidenses, tratando tal movimento como universal. Por isso, no desenrolar das tramas, muitos discursos hegemônicos foram fragmentados, defendendo a pluralidade, a polifonia e a sobreposição de narrativas.
As críticas intelectuais e políticas desses movimentos passaram a figurar posteriormente aos eventos da década 1960 naquilo que ficou conhecido como “pós-modernidade”, focando em um ataque feroz as metanarrativas (como o marxismo), buscando refugio em argumentos mais subjetivos, que buscavam conservar a multiplicidade a partir da individualidade de respectivos grupos sociais[1].
Na atualidade, a “pós-modernidade” e sua crítica (mesmo que muitas vezes esta apenas culmine em novas narrativas pós-modernas), se deflagram em novos confrontos que vemos cotidianamente. O aspecto subjetivo (ou pós-material) e a defesa das múltiplas narrativas continuam presente no discurso dos novos movimentos sociais. No entanto, é preciso destacar que algumas questões bem objetivas que não são abordadas por esses movimentos. Ainda vivemos sob a égide do capitalismo e suas leis, e as opressões que esses diversos grupos sofrem não serão superadas integralmente, se não passarem também pelas questões de classe. Inclusive, a desconsideração desses aspectos podem minar as próprias lutas dos respectivos movimentos citados.
Tornou-se comum que membros de movimentos sociais façam defesas apaixonadas, recorrendo para argumentos de uma suposta “vivência” (palavra da moda), que dá apenas aos participantes a capacidade e a compreensão daquilo que se passa e se discute em seu interior, e, portanto de sua crítica (ou melhor, da autocrítica neste caso), e da respectiva opressão que se combate. Isso muitas vezes se traduz em frases de efeito como: “somente o negro pode falar sobre o racismo”, “somente a mulher pode falar sobre machismo”, “somente os gays podem falar sobre homofobia”.
Primeiro, que por mais que seus membros não queiram que agentes externos dêem “palpites” sobre sua militância, isso não vai deixar de acontecer, justamente porque esses movimentos estão em evidência. Segundo, considero extremamente problemático, quando um movimento se fecha as críticas. Como ele poderá avançar se não se propõe a um debate? E terceiro, apelar para argumentos subjetivistas de vivência é uma forma cômoda de fugir da crítica, porém também desarma aquela outra crítica que se destina ao respectivo “opressor” antagonista.
 Atualmente, o capitalismo vive mais uma crise. E claro, que os ideólogos dominantes estimulam a inversão da realidade, retirando a culpa da crise de seu caráter “sistêmico” e transportando a culpa em outros elementos idealistas, como por exemplo, os imigrantes que vão de países periféricos para os centrais. A questão material se estende para questão simbólica, gerando uma luta cultural, mas o cerne da questão continua na base material. E claro nos momentos de crise, acentuam-se as opiniões diversas. Tanto a esquerda – podendo ser reformista ou revolucionária – como a direita – liberal e conservadora – começam a propor suas pautas.
No Brasil e outros países do mundo, nota-se um avanço do conservadorismo, muito por culpa de uma esquerda inoperante[2]. Tornou-se comum na atualidade a relativização de formas de opressão como o racismo, o machismo e a homofobia. Pode-se dizer que existe uma espécie de lugar comum, que justifica esse relativismo a partir de termos como: “o racismo só acabará quando pararmos de falar dele”[3], “não sou machista e nem feminista, sou humanista”[4] ou “se temos um dia do orgulho LGBTT[5], por que não se pode ter um dia do orgulho heterosexual?” Esses argumentos possuem o mesmo cunho subjetivista (e relativista) que busca a individualização das interpretações, mas neste caso para fins de conservar relações de poder hegemônicas. Existem grupos e páginas em redes sociais com nomes do tipo “orgulho de ser hetero”, “orgulho de ser branco”, aliás, recentemente o atual presidente da câmara dos deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ) propôs um projeto de lei para criação do “dia do orgulho heterossexual”[6] Todos esses argumentos se justificam na mesma premissa da suposta crítica dos movimentos sociais. O homofóbico, o racista, o machista, o xenófobo, podem muito bem – a partir dessa retórica – justificar seus preconceitos, usando subterfúgios de experiências pessoais. E por isso o título do artigo: “Quando o feitiço se volta contra o feiticeiro”. Pois a mesma retórica argumentativa usada pelos novos movimentos sociais, pode voltar contra eles próprios.
No entanto, por trás desses preconceitos existem questões bem materiais e objetivas, mas que, no entanto são camufladas por aspectos simbólicos e subjetivos, jogando os membros da classe trabalhadora uns contra os outros. Como por exemplo, um estadunidense que culpa os imigrantes latinos pelo aumento desemprego em seu país, não levando em conta aspectos muito mais o processo de reestruturação produtiva e as políticas neoliberais.
Opressões existem, e reconheço à legitimidade da luta dos novos movimentos sociais. Não nego a importância das lutas de emancipação de mulheres, negros, gays, lésbicas e etc. e sim esses movimentos tem muito a nos ensinar, no entanto isso não descarta o debate crítico que deve ser travado, de cunho mais material que está para além dos próprios movimentos. É necessária uma intersecção uns com os outros, e principalmente resgatarem as questões de classe. É curioso notar que esse fenômeno tem um aspecto dialético, já que ao mesmo tempo em que serve como defesa dos movimentos sociais, também desarma o ataque contra seus alvos. O caráter predominantemente subjetivista (ou pós-material) desses movimentos mina sua ação, e permite que esse mesmo caráter seja usando por aqueles que se pretende criticar. Ficar limitados a aspectos de auto percepção, ou de “aparência”, em sentido marxista, impede a compreensão da totalidade e por consequência a práxis que levaria a ruptura das relações de dominação.

Referências:

ALONSO, Angela. As Teorias dos Movimentos Sociais: Um Balanço do Debate. Lua Nova, São Paulo, v. 1, n. 76, pp. 49-86, 2009.

GOHN, Maria da Glória. Movimentos Sociais na Contemporaneidade. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 16, n. 47, mai-ago, 2011.

MELUCCI, Alberto. Nomads of Present. Social moviments and individual needs in contemporany society. Filadélfia: Temple University Press, 1989.




[1] O fim da união soviética também reforçou mais ainda as narrativas pós-modernas ao culminar no surgimento de muitos países novos, reforçando mais ainda a fragmentação e a polifonia.
[2]  Os motivos disso são diversos. Se tratando de Brasil, a meu ver, o Partido dos Trabalhadores (PT), conseguiu desmobilizar e cooptar diversos movimentos e sindicatos, lhes retirando autonomia e combatividade. No entanto, este tema é muito complexo para ser abordado neste artigo.
[3] Frase distorcida que foi atribuída ao ator estadunidense Morgan Freeman durante uma entrevista, cujo objetivo é querer dizer que o racismo não acaba, porque as pessoas sempre trazem essa temática a tona.
[4] Frase geralmente proferida por pessoas que buscam deslegitimar o feminismo, tratando-o com uma espécie de “machismo reverso”, apelando para uma vaga noção de “humanismo” que abrangeria uma luta por todos os seres humanos, mas que nada tem a ver, por exemplo, com os estudos humanistas realizados por Karl Marx.
[5] Movimento de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.
[6] Link do site do deputado: http://www.portaleduardocunha.com.br/projeto-de-lei-n%C2%BA-1672-de-2011/11/616.html. Acessado no dia 07 de março de 2015.


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segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Billy Liar: Sonho e Covardia


BILLY LIAR: SONHO E COVARDIA

Nildo Viana

O filme O Mundo Fabuloso de Billy Liar (John Schlesinger, EUA, 1963) é um filme que aparentemente é despretensioso, mas, no fundo, trata de uma questão fundamental para os seres humanos. Billy Liar é um sonhador. Ele sonha para fugir da cotidianidade capitalista. O filme, no fundo, realiza uma contraposição entre tal cotidianidade e a insatisfação e sonhos que ela gera nos indivíduos. No início do filme, as donas de casa buscam fugir da cotidianidade massacrante na qual não podem desenvolver suas potencialidades através do rádio e da música, que promovem, com o locutor citando seus nomes, um reconhecimento social que faz ficar mais fácil suportar esse mundo vazio e repetitivo promovido pela divisão social do trabalho. Além dessas “satisfações substitutas”, para usar termo psicanalítico, há outra forma de fugir do cotidiano: o sonho acordado. Billy Liar ilustra essa forma de evasão e o universo ficcional do filme gira em torno disso.


Após a cotidianidade das donas de casa, o filme mostra o início do dia de Billy Liar. A dificuldade de acordá-lo para que ele vá para o trabalho, pois ele está sonhando (acordado) que é um líder que luta pela democracia e contra a ditadura. Ele é um membro da classe subalterna, um empregado de escritório, que tenta dar sentido à sua cotidianidade através dos sonhos de grandeza, nos quais ao invés de subordinado é líder. Assim, os sonhos de Billy Liar mostram uma consciência contraditória: recusa a subordinação à qual está submetido, mas aponta para sua superação tornando-se o líder e não mais o “liderado”. As relações familiares também são motivo de insatisfação, pela situação financeira (daí sonhar que sua família se tornou rica) e as cobranças, o que significa negar a família (por causa das cobranças) e querer o melhor para ela (a riqueza), em sua concepção.

O mundo fabuloso de Billy Liar consiste em suas fábulas e revelam sua insatisfação, que, algumas vezes, manifesta o sentimento de ódio, tal como nas cenas em que imagina metralhar outras pessoas (família, namorada, etc.). Assim, um cotidiano marcado pela reprodução do capitalismo, nas cobranças familiares de se tornar um adulto responsável, na cobrança de casamento das namoradas, na cobrança de responsabilidade no emprego, mostra um adulto inadaptado, infeliz, que ainda gostaria de ser um jovem[1] não inserido no mundo adulto do trabalho, dos compromissos familiares, das relações amorosas. Billy Liar acaba enfrentando diversos problemas derivados de sua insatisfação e do modo como trabalha com ela: sonhos e mentiras. Os sonhos aliviam seu sofrimento (derivado de sua não realização como ser humano e seu cotidiano insatisfatório) e as mentiras são a forma como ele busca fugir dos seus problemas, da responsabilidade e das atividades insatisfatórias. Ele foge da sua responsabilidade no trabalho ao não entregar os calendários que o patrão ordenou, foge do compromisso com as duas namoradas problemáticas, etc.

Billy Liar foge através da evasão[2]. A fuga da realidade é acompanhada por uma pequena esperança de mudança. Assim, os “sonhos acordados” de Billy Liar não geram uma “utopia”, como diria Ernst Bloch, mas geram a ideia de superação de uma determinada realidade social. Ele pensa em se tornar um roteirista e buscava concretizar isso através de um contato com o Danny Boon, um comediante de TV. Assim,  ele é um sonhador e tenta concretizar um sonho realizável, ser roteirista. Isso é compartilhado por Liz, que é diferente das duas namoradas que possui. Liz também é sonhadora, mas sem os defeitos de Billy Liar, e corre atrás dos seus projetos e por isso já mora em Londres e não na pequena cidade do interior em que nasceu. Eles fazem planos e Liz convence Billy Liar a viajar para Londres à meia noite. Ele tem imprevistos, como a morte da avó, mas consegue chegar e encontrar com Liz, mas inventa uma desculpa para descer do trem e acaba não voltando e perdendo a viagem.

Billy Liar acaba revelando que é um grande sonhador, mas tem medo, não luta por concretizar seus sonhos mesmo quando tem a oportunidade. Perde Liz e o sonho. Ele foge da realidade, mas ao mesmo tempo foge da liberdade. A covardia é mais forte do que o sonho. Ele prefere voltar para a segurança do seu lar, apesar de toda insatisfação e se refugiar num mundo de fábulas e fantasias, tal como mostra o seu retorno para casa após perder o trem, ao invés de realizar os seus projetos, os seus sonhos. Billy Liar é uma expressão de milhões de indivíduos que estão insatisfeitos, sonham e projetam, não conseguem e quando possuem oportunidade, se acovardam e retornam para a sua cotidianidade. A fuga da liberdade que se observa até nos indivíduos que se dizem revolucionários, aqueles que teriam sonhos utópicos mais amplos, mas logo cedem ao pragmatismo, à escolha do “menos ruim” e até mesmo à defesa daquilo que condenam. Billy Liar é uma legião, pois eles são muitos. Mas assim como existem milhões de Billy Liar, existem milhares de Liz e por isso a esperança e a luta pela realização dos sonhos e projetos continua.






[1] Sobre juventude e o mito do adulto-padrão, veja: VIANA, Nildo. A Dinâmica da Violência Juvenil. Ar editora, 2014; VIANA, Nildo. Juventude e Sociedade. Ensaios sobre a Condição Juvenil. São Paulo: Giostri, 2015.
[2] Alguns chamariam de “alienação”, mas este termo, no sentido marxista, remete a algo distinto, ao controle e apropriação do trabalho e do seu resultado (VIANA, Nildo. A Alienação como Relação Social. Revista Sapiência: sociedade, saberes e práticas educacionais, v. 01, 2012.). O sentido do conceito de evasão remete ao processo de escapismo, de fuga da realidade, que é um fenômeno psíquico e não uma relação social como no caso da alienação.


RELAÇÕES AFETIVAS E VALORES CAPITALISTAS



RELAÇÕES AFETIVAS E VALORES CAPITALISTAS


Mateus Vieira Orio

Doutorando em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Mestre em Sociologia (UFG), Graduado em ciências sociais (UFG).


A amizade costuma ser caracterizada como uma relação afetuosa entre duas ou mais pessoas, que envolve um conjunto de afinidades, lealdade, altruísmo e práticas cotidianas conjuntas. Porém, na sociedade contemporânea (sociedade capitalista) a amizade (e as relações afetivas em geral) é também permeada por valores inautênticos, cobranças imperiosas, conflitos de lealdade, falsidade e egoísmo.

As relações afetivas se constituem a partir dos locais de convívio das pessoas: família, instituições de ensino, trabalho, etc. E estes locais não estão isolados da totalidade da sociedade. Então, por mais que alguns considerem que “o mundo do lado de fora” não interfere em suas relações familiares; ou que a amizade (entre outras relações) está acima de tudo; ou que os problemas no trabalho não interferem na relação afetiva entre colegas; todos estes ambientes estão imersos em um conjunto de relações sociais que possuem como determinações aspectos globais de sociabilidade.

Desta forma, muito das relações afetivas que são constituídas estão permeadas pelos valores dominantes na sociedade capitalista, como a competição e o individualismo. Isso porque contemporaneamente as pessoas precisam sobreviver a partir de um emprego, de uma atribuição da sociedade capitalista. E por mais que alguém diga não participar da sociedade capitalista, isto é uma ilusão. É possível se opor ao capitalismo, criticá-lo e lutar contra este tipo de sociedade que nos assola, porém não é possível estar fora disso.

Tomemos um exemplo para melhor ilustrar esta argumentação: o consumo. O consumo é apenas um elemento da sociabilidade capitalista, elemento este que não existe sem a sua devida produção. Neste sentido, deixar de beber coca cola ou, em geral, de comprar produtos de grandes companhias capitalistas, não significa romper com o capitalismo, mas apenas com uma ou outra empresa, o que não impossibilita a ruptura com o conjunto de empresas que produzem bens a partir da exploração do trabalho nos moldes capitalistas. Do mesmo modo, viver “de doações” ou viver de forma “rústica”, em contato com a natureza, etc. não constitui ruptura com o modo de produção capitalista, mas simplesmente indica o afastamento individual de um ou outro elemento deste modo de produção que, por sua vez, é social, não individual. Não constitui, portanto, ruptura com o capitalismo, pois o mesmo continua existindo e sendo determinante em inúmeras relações, podendo incluir até mesmo as relações que permitem que um indivíduo viva “de doações” ou que outro deixe de consumir carne Friboi, pois isso só é possível graças à existência de outros indivíduos que possuem condições de fazer doações e de outros produtores de carne, nestes exemplos.

Portanto, viver na sociedade contemporânea implica em viver na sociedade capitalista, que traz consigo uma forma de socialização que inculca determinados valores. Desta forma, na constituição de relações afetivas, no trabalho, por exemplo, o elemento da competição pode ter prevalência em relação a lealdade, altruísmo, etc. E, por isso, muitos indivíduos acabam buscando se relacionar com outros por interesse, ou seja, almejando subir de cargo, obter informações úteis para se sobressair, e também como forma de descobrir fragilidades que possam prejudicar o outro.

Assim também, nas escolas e universidades um “colega” pode se aliar a outro para obter boas notas, melhorar sua relação com o professor ou conseguir contatos e indicações futuras, bem como pode bajular determinados indivíduos para obter sucesso profissional e aceitação. E, desta forma, atitudes egoístas e individualistas passam a mediar relações em que um indivíduo deseja sobrepujar os demais: ser mais prestigiado, ganhar mais presentes ou elogios, ganhar uma vaga de emprego/ estágio, etc. E estes tipos de relação se desenvolvem não só nas relações de trabalho/ estudos, como também nas relações afetivas em geral, como quando uma pessoa deseja ser “mais amiga” de outra ou ser a “melhor amiga”, ou nos relacionamentos amorosos quando uma pessoa “concorre” pelo amor de outra.

Por fim, os valores dominantes na sociedade capitalista são transmitidos no processo pelo qual os indivíduos são formados para conviver em sociedade. Neste processo, com todas as dificuldades e obrigações que impõe, as pessoas acabam sendo levadas a reproduzir determinados tipos de valores, como o egoísmo e o individualismo, que não correspondem à constituição de relações sociais autênticas, fundamentadas no ser humano como valor fundamental, ou seja, relações sociais baseadas na solidariedade e na busca da realização das potencialidades humanas.

O fundamento das relações sociais autênticas existe em todos os seres humanos como potencial. Mas muitas vezes entra em conflito com os valores da sociabilidade capitalista. Por isso, muitos indivíduos se confrontam com situações as quais têm muita dificuldade em definir entre a amizade e o interesse individual. Estas são situações nas quais existe um conflito de valores: um conflito entre os valores humanistas e os valores capitalistas, entre a busca da solidariedade com o outro e a busca do sucesso individual nos moldes capitalistas. O próprio conflito demonstra que os valores capitalistas não “possuem” o indivíduo totalmente, havendo sempre uma margem para a manifestação de valores humanistas, ou seja, de valores autênticos. Mas as fugas de um ou outro elemento isolado da sociedade capitalista não levam a prevalência dos valores autênticos sobre os inautênticos. Pois estes são fruto de um processo social e a ruptura com eles deve ser, portanto, também social.

Nesse sentido, a busca da manifestação de valores autênticos é também uma forma de crítica à sociabilidade capitalista e pode se constituir em um movimento rumo à ruptura com esta sociabilidade. E a consolidação dos valores humanistas perpassa pela ruptura com a sociedade capitalista que á a origem dos valores inautênticos que interferem nas relações afetivas. E assim, buscar uma sociedade alternativa ao capitalismo é caminhar em busca da efetivação de relações afetivas autênticas, baseadas no ser humano como valor fundamental.

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Publicado originalmente em:

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

AS FORMAS DO NEOLIBERALISMO


AS FORMAS DO NEOLIBERALISMO


Por Carlos Henrique Marques

Estado neoliberal é a forma estatal do atual regime de acumulação capitalista e sua função é garantir a reprodução do modo de produção capitalista e realizar as tarefas necessárias para a burguesia no atual momento histórico. O neoliberalismo é um elemento constitutivo do regime de acumulação integral e busca efetivar diversas ações para a formação, consolidação e evitar a desestablização e crise desse regime. E faz isso sob várias formas: políticas econômicas (monetárias, privatizações, apoio a setores do capital, diminuição dos gastos estatais, etc.), política cultural (impondo o paradigma hegemônico, o subjetivismo, e suas ideologias derivadsa - neoliberalismo, pós-estruturalismo, culturalismo, etc.), entre outras. No entanto, muitos pensam que o estado neoliberal é um "modelo" a ser aplicado rigidamente em todos os lugares. Isso não é verdade. O neoliberalismo de Reagan não era exatamente igual ao de Helmutt Kohl na Alemanha e nem no que foi implantado na Argentina nos anos 2000. Bem como foi diferente do que vigorou e continua vigorando no Brasil desde Fernando Collor. Inclusive, o próprio neoliberalismo em nosso país assumiu formas distintas e para isso basta comparar o neoliberalismo de FHC e o do PT (com seu neoliberalismo neopopulista). O Estado Neoliberal não é um modelo. Ele possui alguns elementos básicos e comuns (a ideia do Estado mínimo e forte, determinada política monetária, etc.) e elementos diferenciadores dependendo da época e do país. Por Exemplo, geralmente o neoliberalismo inicia mais privatizante e depois de certa privatização tende a diminuir as privatizações. Em épocas de desestabilização e crise do regime de acumulação integral, tende a adotar as chamadas "políticas de austeridade", assumindo a forma de neoliberalismo discricionário. Mas isso ocorre sob formas distintas em países diferentes, como governos específicos, etc. No entanto, o regime de acumulação integral vem enfrentando dificuldades e vem enfrentando um processo de desestabilização. Isso ocorrendo, o passo seguinte é a crise e a adoção mais generalizada do neoliberalismo discricionário. Essa tende a ser a fase final do neoliberalismo.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A Verdade sobre o ENEM



A VERDADE SOBRE O ENEM

Carlos Henrique Marques

O ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) teve sua primeira etapa realizada ontem. Milhões de jovens foram realizar a prova e “provar” o seu saber. O tema da redação foi sobre a manipulação dos usuários da internet através do controle de dados. O tema jamais seria “o que é o ENEM, por qual motivo ele existe, quais seus objetivos e consequências”. Esses milhões de jovens foram submetidos ao sofrimento psíquico, processo de ansiedade, nervosismo, etc. E isso se agrava cada vez mais numa sociedade cada vez mais competitiva.

O Enem é expressão de uma dos elementos da sociabilidade capitalista: a competição. Milhões de jovens competindo por vagas nas universidades. Mas não são apenas “vagas nas universidades”. O que está em jogo é o futuro desses jovens. O futuro profissional que, por sua vez, determina muitas outras coisas na vida deles (renda, amizades, cultura, etc.). E nessa competição, apenas os “melhores” vencerão. Dos mais de cinco milhões de jovens, restarão poucos. Os vencedores irão festejar, postar fotos nas redes sociais, ficar contentes com a vitória. Mas essa é apenas uma competição. Quando entrarem na universidade, vão enfrentar outra competição com seus colegas e a maioria vai ser derrotada. A maioria não conseguirá nem terminar o curso. Uma parte conseguirá, mas não vai exercer a profissão para a qual se formou, vai migrar para outra área (alguns, inclusive, vão fazer um segundo ou terceiro curso), ficar no desemprego ou subemprego (para aqueles oriundos das classes trabalhadoras). Uma parte vai prosseguir na competição no interior da profissão, prestando concursos públicos, buscando vagas em empresas privadas, etc. E sendo novamente “vitoriosos”, terão que continuar competindo, agora com os colegas de trabalho, pela ascensão de cargo, pela fama, pelo aumento salarial, etc. Os fracassados do Enem serão esquecidos, não estarão nas redes sociais. Certamente, estarão tristes, alguns chorando, no escuro do seu quarto. Alguns esperando o ano seguinte para sofrer novamente e sonhar novamente com a vitória num processo em que quem ganha ainda terá que continuar ganhando e sofrendo e assim permitir que a máquina capitalista continue funcionando.

O Enem é um grande processo competitivo e como toda competição na sociedade capitalista, aqueles que são oriundos das classes trabalhadoras, com menor bagagem cultural (proveniente da família, amizades, experiências, etc.), dificilmente ganham e continuam ganhando, enquanto que aqueles, das classes supérfluas (burguesia e suas classes auxiliares), com sua maior bagagem cultural, tendem a ganhar e seguir competindo.

O Enem é também uma perversão da educação. E isso em duplo sentido. O primeiro sentido é a de que o Enem, assim como o processo educacional em geral na sociedade capitalista, transforma a formação intelectual em meio e assim ela deixa de ser um fim. A educação é um meio para satisfazer outras necessidades, tais como emprego, ascensão social, renda, status, etc. Os jovens não estudam por curiosidade, por vontade de aprender e conhecer o mundo, para desenvolver suas potencialidades intelectuais e sim para ser aprovado, ter notas, conseguir passar no Enem. Os interesses dos jovens, constituídos socialmente na sociedade capitalista, mostram a degradação do processo de formação intelectual na modernidade. E a mercantilização acompanha esse processo: cursinhos, especialistas, sites, escolas, lucram com isso. Uns pagam (os estudantes e suas famílias), outros lucram (as escolas, cursos preparatórios, etc.).

O segundo sentido é a burocratização governamental. Na época dos vestibulares, havia uma pluralidade no processo seletivo, que variava da universidade para universidade, agora há um único exame nacional e controlado pela burocracia governamental. O Enem foi gestado, de forma embrionária, no governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, mas ganhou forma definitiva com o governo neoliberal neopopulista de Lula, cujo ministro da educação era Fernando Haddad. No início, a ideia era saber das competências e habilidades e ter uma radiografia do ensino médio, de acordo com a cartilha neoliberal para educação, depois passou a ter o papel seletivo geral nas universidades federais e na concessão de bolsas nas universidades particulares e, algo pouco visível, um projeto de hegemonia governamental. Através de um exame nacional é possível mobilizar milhões de jovens para se pensar o que o governo quer que eles pensem e isso através das questões e da redação exigida e que tem peso fundamental no processo seletivo. Vão mobilizar inúmeras escolas preparatórias, cursinhos, professores, para reproduzir regrinhas e discursos impostos aos estudantes e que depois eles irão reproduzir alegremente e achando que brotaram de suas jovens cabeças pensantes. Assim, os temas de redação do Enem foram “petistas” e, em 2018, foi “temerista” e a partir do ano que vem, até quando durar o novo governo, será “bolsonarista”. O Estado neoliberal é tão controlador e burocrático quanto qualquer outra forma assumida pelo estado capitalista.

É por isso que o Enem é um retrocesso educacional, uma uniformização ditada por semiditadores educacionais reprodutores de interesses governamentais a serviço da reprodução capitalista. É por isso, também, que o Enem deve ser abolido. Mas para isso ocorrer é necessário que a população decida isso e para tal é preciso formação. Ora, o aparato estatal e a burocracia governamental não pretendem fornecer formação crítica. Por isso, é preciso criticar o Enem e o processo educacional capitalista em geral e, ao mesmo tempo, buscar outras formas de autoeducação e formação intelectual e política. A abolição do Enem não resolverá o problema do capitalismo, pois em seu lugar surgirão outras formas capitalistas de seleção, mais ou menos destrutivas psiquicamente, mais ou menos injustas, ou seja, variando quantitativamente mas não qualitativamente. Por isso, o fundamental é a abolição da sociedade que gera essa pseudoeducação que serve para a reproduzir. A abolição do capitalismo é o objetivo fundamental e a única solução para este e milhares de outros problemas sociais que destroem os seres humanos. A substituição dessa sociedade desumanizada por uma sociedade humanizada significa a humanização da educação, da formação. Na sociedade autogerida, os males da educação capitalista se tornarão relíquias do museu da pré-história da humanidade.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

A Traição do PT, segundo Ciro Gomes


A Traição do PT, segundo Ciro Gomes

Fomos miseravelmente traídos por Lula, não farei mais campanha para o PT, diz Ciro

Candidato derrotado nega que tenha traído partido de Lula e diz que foi convidado a ser vice do ex-presidente no lugar de Haddad


Gustavo Uribe
Fortaleza

Terceiro colocado na eleição presidencial, Ciro Gomes (PDT) afirmou, em entrevista à Folha, que foi "miseravelmente traído" pelo ex-presidente Lula e seus "asseclas".
Em seu apartamento, onde concedeu nesta terça-feira (30) sua primeira entrevista desde a eleição de Jair Bolsonaro (PSL), Ciro nega ter lavado as mãos ao ter viajado para a Europa depois do primeiro turno. "A gente trai quando dá a palavra e faz o oposto".
"Não declarei voto ao Haddad porque não quero mais fazer campanha com o PT", disse.
O pedetista critica a atuação do PT para impedir o apoio do PSB à sua candidatura e diz que considerou um insulto convite de Lula para assumir o papel de seu vice no lugar Fernando Haddad (PT).

No primeiro turno, o senhor afirmou que choraria e deixaria a política se Bolsonaro ganhasse. Deixará a vida pública?

Eu disse isso comovidamente porque um país que elege o Bolsonaro eu não compreendo tanto mais, o que me recomenda não querer ser seu intérprete. Entretanto, do exato momento que disse isso até hoje, ouvi um milhão de apelos de gente muito querida. E, depois de tudo o que acabou acontecendo, a minha responsabilidade é muito grande. Não sei se serei mais candidato, mas não posso me afastar agora da luta. O país ficou órfão.

E não tomou uma decisão se será candidato em 2022?

Não. Quem conhece o Brasil sabe que você afirmar uma candidatura a 2022 é um mero exercício de especulação, porque a adrenalina não pacificou. Só essa cúpula exacerbada do PT é que já começou a campanha de agressão. Eu não. Tenho sobriedade e modéstia. Acho que o país precisa se renovar.

O senhor disse que deixaria a vida pública porque a razão de estar na política é confiar no povo brasileiro. Deixou de confiar?

Não, procurei entender o que aconteceu. Esse distanciamento me permitiu isso. O que aconteceu foi uma reação impensada, espécie de histeria coletiva a um conjunto muito grave de fatores que dão razão a uma fração importante dessa maioria que votou no Bolsonaro. O lulopetismo virou um caudilhismo corrupto e corruptor que criou uma força antagônica que é a maior força política no Brasil hoje. E o Bolsonaro estava no lugar certo, na hora certa. Só o petismo fanático vai chamar os 60% do povo brasileiro de fascista. Eu não, de forma nenhuma.

Naquele momento do país, uma viagem à Europa não passou uma impressão de descaso? [Ciro viajou para Portugal, Itália e França após o 1º turno] 

Descaso não, rapaz, é de impotência. De absoluta impotência. Se tem um brasileiro que lutou, fui eu. Passei três anos lutando.

Com a sua postura de neutralidade, não lavou as mãos em um momento importante para o país?

Não foi neutralidade. Quem declara o que eu declarei não está neutro. Agora, o que estava dizendo, por uma razão prática, não iria com eles se fossem vitoriosos, já estaria na oposição. Mas estava flagrante que já estava perdida a eleição.

Por não ter declarado voto, não teme ser visto como um traidor pelos eleitores de esquerda?

A gente trai quando dá a palavra e faz o oposto. Quem tiver prestado a atenção no que falei, está muito clara a minha posição de que com o PT eu não iria.

Não se aliará mais ao PT?

Não, se eu puder, não quero mais fazer campanha para o PT. Evidente, você acha que eu votei em quem?


No Haddad?

Vou continuar calado, mas você acha que votei em quem com a minha história? Eles podem inventar o que quiserem. Pega um bosta como esse Leonardo Boff [que criticou Ciro por não declarar voto a Haddad]. Estou com texto dele aqui. Aí porque não atendo o apelo dele, vai pelo lado inverso. Qual a opinião do Boff sobre o mensalão e petrolão? Ou ele achava que o Lula também não sabia da roubalheira da Petrobras? O Lula sabia porque eu disse a ele que, na Transpetro, Sérgio Machado estava roubando para Renan Calheiros. O Lula se corrompeu por isso, porque hoje está cercado de bajulador, com todo tipo de condescendências.

Quem são os bajuladores?

É tudo. Gleisi Hoffmann, Leonardo Boff, Frei Betto. Só a turma dele. Cadê os críticos? Quem disse a ele que não pode fazer o que ele fez? Que não pode fraudar a opinião pública do país, mentindo que era candidato?

Por que o senhor não aceitou ser candidato a vice-presidente de Lula?

Porque isso é uma fraude. Para essa fraude, fui convidado a praticá-la. Esses fanáticos do PT não sabem, mas o Lula, em momento de vacilação, me chamou para cumprir esse papelão que o Haddad cumpriu. E não aceitei. Me considerei insultado.

Por que não declarou voto em Haddad? 

Aquilo era trivial. O meu irmão foi a um ato de apoio a Haddad, depois de tudo o que viu acontecendo de mesquinho, pusilânime e inescrupuloso. É muito engraçado o petismo ululante. É igual o bolsominion, rigorosamente a mesma coisa. O Cid está lá tentando elaborar uma fórmula de subverter o quadro e é vaiado. Estou devendo o que ao PT?

Não declarou voto no Haddad por causa do Lula?

Não declarei voto ao Haddad porque não quero mais fazer campanha com o PT. Agora, em uma eleição que tem só dois candidatos, na noite do primeiro turno, disse à imprensa: "Ele não". O que ele quer mais agora?

Cid Gomes cobrou uma autocrítica dos petistas. E quais foram os erros cometidos pelos pedetistas? 

Devemos ter cometido algum erro e merecemos a crítica. Mas, nesse contexto, simplesmente multiplicamos por um milhão as energias que nos restaram para trabalhar. Fomos miseravelmente traídos. Aí, é traição, traição mesmo. Palavra dada e não cumprida, clandestinidade, acertos espúrios, grana.

Isso por Lula?

Pelo ex-presidente Lula e seus asseclas. Você imagina conseguir do PSB neutralidade trocando o governo de Pernambuco e de Minas? Em nome de que foi feito isso? De qual espírito público, razão nacional, interesse popular? Projeto de poder miúdo. De poder e de ladroeira. O PT elegeu Bolsonaro.
Todas as pesquisas, não sou eu quem estou dizendo, dizem isso. O Haddad é uma boa pessoa, mas ele, jamais, se fosse uma pessoa que tivesse mais fibra, deveria ter aceito esse papelão. Toda segunda ir lá [visitar Lula], rapaz. Quem acha que o povo vai eleger pessoa assim? Lula nunca permitiu nascer ninguém perto dele. E eles empurram para a direita, que é o querem fazer comigo.

A postura do senhor não inviabiliza uma reaglutinação das siglas de esquerda?

Não quero participar dessa aglutinação de esquerda. Isso sempre foi sinônimo oportunista de hegemonia petista. Quero fundar um novo campo, onde para ser de esquerda não tem de tapar o nariz com ladroeira, corrupção, falta de escrúpulo, oportunismo. Isso não é esquerda. É o velho caudilhismo populista sul-americano.

A liberdade de imprensa está ameaçada?

É muito epidérmica a nossa sensibilidade. Não acho que tem havido nenhuma ameaça à liberdade de imprensa até aqui. Por isso que digo que uma das centralidades do mundo político brasileiro deveria ser um entendimento amplo o suficiente para cumprir a guarda da institucionalidade democrática. E um dos elementos centrais disso é a liberdade de imprensa. A imprensa brasileira nepotista e plutocrata como é parte responsável também por essa tragédia.

A imprensa ajudou a eleger Bolsonaro?

A arrogância do [William] Bonner achando que podia tutelar a nação brasileira, falar pela nação brasileira. A Folha que repercute uma calúnia contra uma cidade inteira que é reconhecida mundialmente como um elemento de referência de educação para me alcançar [Ele se refere a reportagem sobre relatos de estudantes de fraudes em avaliações nas escolas de Sobral, no Ceará].

E os ataques feitos pelo Bolsonaro à Folha? É uma ameaça?

Não considero, não. A Folha tem capacidade de reagir a isso e precisa ter também um pouco de humildade, de respeitar a crítica dos outros.