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segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A Verdade sobre o ENEM



A VERDADE SOBRE O ENEM

Carlos Henrique Marques

O ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) teve sua primeira etapa realizada ontem. Milhões de jovens foram realizar a prova e “provar” o seu saber. O tema da redação foi sobre a manipulação dos usuários da internet através do controle de dados. O tema jamais seria “o que é o ENEM, por qual motivo ele existe, quais seus objetivos e consequências”. Esses milhões de jovens foram submetidos ao sofrimento psíquico, processo de ansiedade, nervosismo, etc. E isso se agrava cada vez mais numa sociedade cada vez mais competitiva.

O Enem é expressão de uma dos elementos da sociabilidade capitalista: a competição. Milhões de jovens competindo por vagas nas universidades. Mas não são apenas “vagas nas universidades”. O que está em jogo é o futuro desses jovens. O futuro profissional que, por sua vez, determina muitas outras coisas na vida deles (renda, amizades, cultura, etc.). E nessa competição, apenas os “melhores” vencerão. Dos mais de cinco milhões de jovens, restarão poucos. Os vencedores irão festejar, postar fotos nas redes sociais, ficar contentes com a vitória. Mas essa é apenas uma competição. Quando entrarem na universidade, vão enfrentar outra competição com seus colegas e a maioria vai ser derrotada. A maioria não conseguirá nem terminar o curso. Uma parte conseguirá, mas não vai exercer a profissão para a qual se formou, vai migrar para outra área (alguns, inclusive, vão fazer um segundo ou terceiro curso), ficar no desemprego ou subemprego (para aqueles oriundos das classes trabalhadoras). Uma parte vai prosseguir na competição no interior da profissão, prestando concursos públicos, buscando vagas em empresas privadas, etc. E sendo novamente “vitoriosos”, terão que continuar competindo, agora com os colegas de trabalho, pela ascensão de cargo, pela fama, pelo aumento salarial, etc. Os fracassados do Enem serão esquecidos, não estarão nas redes sociais. Certamente, estarão tristes, alguns chorando, no escuro do seu quarto. Alguns esperando o ano seguinte para sofrer novamente e sonhar novamente com a vitória num processo em que quem ganha ainda terá que continuar ganhando e sofrendo e assim permitir que a máquina capitalista continue funcionando.

O Enem é um grande processo competitivo e como toda competição na sociedade capitalista, aqueles que são oriundos das classes trabalhadoras, com menor bagagem cultural (proveniente da família, amizades, experiências, etc.), dificilmente ganham e continuam ganhando, enquanto que aqueles, das classes supérfluas (burguesia e suas classes auxiliares), com sua maior bagagem cultural, tendem a ganhar e seguir competindo.

O Enem é também uma perversão da educação. E isso em duplo sentido. O primeiro sentido é a de que o Enem, assim como o processo educacional em geral na sociedade capitalista, transforma a formação intelectual em meio e assim ela deixa de ser um fim. A educação é um meio para satisfazer outras necessidades, tais como emprego, ascensão social, renda, status, etc. Os jovens não estudam por curiosidade, por vontade de aprender e conhecer o mundo, para desenvolver suas potencialidades intelectuais e sim para ser aprovado, ter notas, conseguir passar no Enem. Os interesses dos jovens, constituídos socialmente na sociedade capitalista, mostram a degradação do processo de formação intelectual na modernidade. E a mercantilização acompanha esse processo: cursinhos, especialistas, sites, escolas, lucram com isso. Uns pagam (os estudantes e suas famílias), outros lucram (as escolas, cursos preparatórios, etc.).

O segundo sentido é a burocratização governamental. Na época dos vestibulares, havia uma pluralidade no processo seletivo, que variava da universidade para universidade, agora há um único exame nacional e controlado pela burocracia governamental. O Enem foi gestado, de forma embrionária, no governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, mas ganhou forma definitiva com o governo neoliberal neopopulista de Lula, cujo ministro da educação era Fernando Haddad. No início, a ideia era saber das competências e habilidades e ter uma radiografia do ensino médio, de acordo com a cartilha neoliberal para educação, depois passou a ter o papel seletivo geral nas universidades federais e na concessão de bolsas nas universidades particulares e, algo pouco visível, um projeto de hegemonia governamental. Através de um exame nacional é possível mobilizar milhões de jovens para se pensar o que o governo quer que eles pensem e isso através das questões e da redação exigida e que tem peso fundamental no processo seletivo. Vão mobilizar inúmeras escolas preparatórias, cursinhos, professores, para reproduzir regrinhas e discursos impostos aos estudantes e que depois eles irão reproduzir alegremente e achando que brotaram de suas jovens cabeças pensantes. Assim, os temas de redação do Enem foram “petistas” e, em 2018, foi “temerista” e a partir do ano que vem, até quando durar o novo governo, será “bolsonarista”. O Estado neoliberal é tão controlador e burocrático quanto qualquer outra forma assumida pelo estado capitalista.

É por isso que o Enem é um retrocesso educacional, uma uniformização ditada por semiditadores educacionais reprodutores de interesses governamentais a serviço da reprodução capitalista. É por isso, também, que o Enem deve ser abolido. Mas para isso ocorrer é necessário que a população decida isso e para tal é preciso formação. Ora, o aparato estatal e a burocracia governamental não pretendem fornecer formação crítica. Por isso, é preciso criticar o Enem e o processo educacional capitalista em geral e, ao mesmo tempo, buscar outras formas de autoeducação e formação intelectual e política. A abolição do Enem não resolverá o problema do capitalismo, pois em seu lugar surgirão outras formas capitalistas de seleção, mais ou menos destrutivas psiquicamente, mais ou menos injustas, ou seja, variando quantitativamente mas não qualitativamente. Por isso, o fundamental é a abolição da sociedade que gera essa pseudoeducação que serve para a reproduzir. A abolição do capitalismo é o objetivo fundamental e a única solução para este e milhares de outros problemas sociais que destroem os seres humanos. A substituição dessa sociedade desumanizada por uma sociedade humanizada significa a humanização da educação, da formação. Na sociedade autogerida, os males da educação capitalista se tornarão relíquias do museu da pré-história da humanidade.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

A Traição do PT, segundo Ciro Gomes


A Traição do PT, segundo Ciro Gomes

Fomos miseravelmente traídos por Lula, não farei mais campanha para o PT, diz Ciro

Candidato derrotado nega que tenha traído partido de Lula e diz que foi convidado a ser vice do ex-presidente no lugar de Haddad


Gustavo Uribe
Fortaleza

Terceiro colocado na eleição presidencial, Ciro Gomes (PDT) afirmou, em entrevista à Folha, que foi "miseravelmente traído" pelo ex-presidente Lula e seus "asseclas".
Em seu apartamento, onde concedeu nesta terça-feira (30) sua primeira entrevista desde a eleição de Jair Bolsonaro (PSL), Ciro nega ter lavado as mãos ao ter viajado para a Europa depois do primeiro turno. "A gente trai quando dá a palavra e faz o oposto".
"Não declarei voto ao Haddad porque não quero mais fazer campanha com o PT", disse.
O pedetista critica a atuação do PT para impedir o apoio do PSB à sua candidatura e diz que considerou um insulto convite de Lula para assumir o papel de seu vice no lugar Fernando Haddad (PT).

No primeiro turno, o senhor afirmou que choraria e deixaria a política se Bolsonaro ganhasse. Deixará a vida pública?

Eu disse isso comovidamente porque um país que elege o Bolsonaro eu não compreendo tanto mais, o que me recomenda não querer ser seu intérprete. Entretanto, do exato momento que disse isso até hoje, ouvi um milhão de apelos de gente muito querida. E, depois de tudo o que acabou acontecendo, a minha responsabilidade é muito grande. Não sei se serei mais candidato, mas não posso me afastar agora da luta. O país ficou órfão.

E não tomou uma decisão se será candidato em 2022?

Não. Quem conhece o Brasil sabe que você afirmar uma candidatura a 2022 é um mero exercício de especulação, porque a adrenalina não pacificou. Só essa cúpula exacerbada do PT é que já começou a campanha de agressão. Eu não. Tenho sobriedade e modéstia. Acho que o país precisa se renovar.

O senhor disse que deixaria a vida pública porque a razão de estar na política é confiar no povo brasileiro. Deixou de confiar?

Não, procurei entender o que aconteceu. Esse distanciamento me permitiu isso. O que aconteceu foi uma reação impensada, espécie de histeria coletiva a um conjunto muito grave de fatores que dão razão a uma fração importante dessa maioria que votou no Bolsonaro. O lulopetismo virou um caudilhismo corrupto e corruptor que criou uma força antagônica que é a maior força política no Brasil hoje. E o Bolsonaro estava no lugar certo, na hora certa. Só o petismo fanático vai chamar os 60% do povo brasileiro de fascista. Eu não, de forma nenhuma.

Naquele momento do país, uma viagem à Europa não passou uma impressão de descaso? [Ciro viajou para Portugal, Itália e França após o 1º turno] 

Descaso não, rapaz, é de impotência. De absoluta impotência. Se tem um brasileiro que lutou, fui eu. Passei três anos lutando.

Com a sua postura de neutralidade, não lavou as mãos em um momento importante para o país?

Não foi neutralidade. Quem declara o que eu declarei não está neutro. Agora, o que estava dizendo, por uma razão prática, não iria com eles se fossem vitoriosos, já estaria na oposição. Mas estava flagrante que já estava perdida a eleição.

Por não ter declarado voto, não teme ser visto como um traidor pelos eleitores de esquerda?

A gente trai quando dá a palavra e faz o oposto. Quem tiver prestado a atenção no que falei, está muito clara a minha posição de que com o PT eu não iria.

Não se aliará mais ao PT?

Não, se eu puder, não quero mais fazer campanha para o PT. Evidente, você acha que eu votei em quem?


No Haddad?

Vou continuar calado, mas você acha que votei em quem com a minha história? Eles podem inventar o que quiserem. Pega um bosta como esse Leonardo Boff [que criticou Ciro por não declarar voto a Haddad]. Estou com texto dele aqui. Aí porque não atendo o apelo dele, vai pelo lado inverso. Qual a opinião do Boff sobre o mensalão e petrolão? Ou ele achava que o Lula também não sabia da roubalheira da Petrobras? O Lula sabia porque eu disse a ele que, na Transpetro, Sérgio Machado estava roubando para Renan Calheiros. O Lula se corrompeu por isso, porque hoje está cercado de bajulador, com todo tipo de condescendências.

Quem são os bajuladores?

É tudo. Gleisi Hoffmann, Leonardo Boff, Frei Betto. Só a turma dele. Cadê os críticos? Quem disse a ele que não pode fazer o que ele fez? Que não pode fraudar a opinião pública do país, mentindo que era candidato?

Por que o senhor não aceitou ser candidato a vice-presidente de Lula?

Porque isso é uma fraude. Para essa fraude, fui convidado a praticá-la. Esses fanáticos do PT não sabem, mas o Lula, em momento de vacilação, me chamou para cumprir esse papelão que o Haddad cumpriu. E não aceitei. Me considerei insultado.

Por que não declarou voto em Haddad? 

Aquilo era trivial. O meu irmão foi a um ato de apoio a Haddad, depois de tudo o que viu acontecendo de mesquinho, pusilânime e inescrupuloso. É muito engraçado o petismo ululante. É igual o bolsominion, rigorosamente a mesma coisa. O Cid está lá tentando elaborar uma fórmula de subverter o quadro e é vaiado. Estou devendo o que ao PT?

Não declarou voto no Haddad por causa do Lula?

Não declarei voto ao Haddad porque não quero mais fazer campanha com o PT. Agora, em uma eleição que tem só dois candidatos, na noite do primeiro turno, disse à imprensa: "Ele não". O que ele quer mais agora?

Cid Gomes cobrou uma autocrítica dos petistas. E quais foram os erros cometidos pelos pedetistas? 

Devemos ter cometido algum erro e merecemos a crítica. Mas, nesse contexto, simplesmente multiplicamos por um milhão as energias que nos restaram para trabalhar. Fomos miseravelmente traídos. Aí, é traição, traição mesmo. Palavra dada e não cumprida, clandestinidade, acertos espúrios, grana.

Isso por Lula?

Pelo ex-presidente Lula e seus asseclas. Você imagina conseguir do PSB neutralidade trocando o governo de Pernambuco e de Minas? Em nome de que foi feito isso? De qual espírito público, razão nacional, interesse popular? Projeto de poder miúdo. De poder e de ladroeira. O PT elegeu Bolsonaro.
Todas as pesquisas, não sou eu quem estou dizendo, dizem isso. O Haddad é uma boa pessoa, mas ele, jamais, se fosse uma pessoa que tivesse mais fibra, deveria ter aceito esse papelão. Toda segunda ir lá [visitar Lula], rapaz. Quem acha que o povo vai eleger pessoa assim? Lula nunca permitiu nascer ninguém perto dele. E eles empurram para a direita, que é o querem fazer comigo.

A postura do senhor não inviabiliza uma reaglutinação das siglas de esquerda?

Não quero participar dessa aglutinação de esquerda. Isso sempre foi sinônimo oportunista de hegemonia petista. Quero fundar um novo campo, onde para ser de esquerda não tem de tapar o nariz com ladroeira, corrupção, falta de escrúpulo, oportunismo. Isso não é esquerda. É o velho caudilhismo populista sul-americano.

A liberdade de imprensa está ameaçada?

É muito epidérmica a nossa sensibilidade. Não acho que tem havido nenhuma ameaça à liberdade de imprensa até aqui. Por isso que digo que uma das centralidades do mundo político brasileiro deveria ser um entendimento amplo o suficiente para cumprir a guarda da institucionalidade democrática. E um dos elementos centrais disso é a liberdade de imprensa. A imprensa brasileira nepotista e plutocrata como é parte responsável também por essa tragédia.

A imprensa ajudou a eleger Bolsonaro?

A arrogância do [William] Bonner achando que podia tutelar a nação brasileira, falar pela nação brasileira. A Folha que repercute uma calúnia contra uma cidade inteira que é reconhecida mundialmente como um elemento de referência de educação para me alcançar [Ele se refere a reportagem sobre relatos de estudantes de fraudes em avaliações nas escolas de Sobral, no Ceará].

E os ataques feitos pelo Bolsonaro à Folha? É uma ameaça?

Não considero, não. A Folha tem capacidade de reagir a isso e precisa ter também um pouco de humildade, de respeitar a crítica dos outros.


sexta-feira, 26 de outubro de 2018

domingo, 21 de outubro de 2018

Uso banalizado do termo fortalece o fascismo, afirma historiador italiano


Uso banalizado do termo fortalece o fascismo, afirma historiador italiano


Para especialista, mau emprego da palavra atrai 'desgraçados em busca de respostas simples'

Entrevista

Débora Sögur Hous 

Francesca Angiolillo     


"Usar demais a palavra 'fascismo' não cria reação hostil a ele, mas, ao contrário, o torna fascinante para tantos desgraçados em busca de respostas simples. Quem se apropria dessa palavra arrisca ampliar o neofascismo, em vez de combatê-lo", diz Emilio Gentile, 72.

Professor aposentado da Universidade de Roma - La Sapienza, o historiador é o principal especialista italiano em fascismo. Ele fala das semelhanças e diferenças entre a ideologia de Mussolini e os populismos de direita. "Eu brincava com os alunos: se a violência é fascista, o primeiro fascista foi Caim, quando matou Abel. Mas assim não se entende nada da realidade de hoje."

emilio
O historiador italiano Emilio Gentile - Divulgação


O que define o fascismo?  

O fascismo foi um partido armado que conquistou o poder e instaurou um regime totalitário, com o objetivo de desenvolver uma política imperialista de expansão territorial colonial. Depois de 1938, no caso italiano, somou-se a isso uma política racista e antissemita oficial. Sem essas características, o termo pode indicar qualquer forma de nacionalismo autoritário, mas perde-se o aspecto específico, histórico.

Então não seria correto usar o termo "fascismo" para ideologias de extrema direita?  

Não, porque houve ideologias de extrema direita nacionalistas e racistas antes do fascismo. Se tudo se torna fascismo, não se entendem os acontecimentos.

Sobretudo, sou contrário ao uso genérico porque não permite entender fenômenos novos que ocorrem hoje nas democracias e que, com o fascismo, só têm em comum algumas características —o uso da violência, a discriminação contra estrangeiros.

Há outro elemento. O fascismo, mesmo se no início utilizou o voto, depois suprimiu a soberania popular. Já os populistas, como o próprio termo diz, se apoiam no voto e governam não com a violência, mas com o consentimento da maioria.

Jair Bolsonaro é um representante dessa extrema direita?  

Até onde sei, ele exprime uma concepção autoritária, militarista e violenta da política. Se é de extrema direita, precisaria ver também o quanto alavanca a exaltação nacionalista. Pelo que vi, isso não é muito presente.

Acredito que o que esteja ocorrendo não seja tanto uma escolha da maioria por uma extrema direita autoritária e militar quanto a falência de uma política que deu muitas esperanças de um milagre brasileiro nas últimas décadas.

Há esse problema mais grave, que é o país não ter conseguido, nem nos anos Lula, erradicar o poder oligárquico. Todas as democracias hoje sofrem dessa crescente desigualdade entre a minoria que tem cada vez mais e a maioria que vive em más condições.

Isso é mais acentuado num país como o Brasil, onde também a diversidade social ficou, por muito tempo, alijada do progresso. Na Europa e nos EUA, é a classe média que sofre a decadência e, por ironia, escolhe milionários para resolver seus problemas.

O candidato do PSL lidera a pesquisa em quase todos os segmentos sociais, inclusive na classe média.  

É nesse sentido que penso que se possa falar de populismo, movimento que se dirige a todas as classes, enquanto o fascismo se dirigia à classe média e atacava o proletariado, dizendo que devia submeter-se ao poder das camadas médias.

O fascismo negava a soberania popular, a nova direita chega pelo voto. Estamos falando do suicídio da democracia?  

A democracia é um método para escolher governantes por meio de eleições periódicas, que deveriam ser livres e pacíficas. Mas o método não garante a tutela das minorias nem a escolha dos melhores. Por meios democráticos podem ser eleitos os piores.

Infelizmente, é o suicídio da democracia como regime que garante a todos as condições para desenvolver sua personalidade com liberdade e dignidade. Mas esse é um ideal de democracia. Uma democracia pode ser racista, porque, com a maioria, pode-se negar o direito à minoria. É o que acontece em países da Europa Oriental e na Rússia. A democracia não é boa em si.

Para Bolsonaro e seus apoiadores, minorias não devem ter tratamento diferenciado, mas todos devem ser tratados da mesma forma.  

A democracia deve garantir a igualdade na diversidade. Na melhor tradição ocidental, a democracia não é o governo que garante a maioria, mas o que consente à minoria se tornar maioria.

O equívoco é acreditar que, na democracia, o povo é sempre soberano. Muito frequentemente o que se chama democracia é o que chamo "democracia recitativa" [de "recita", encenação; democracia de fachada].

Tudo se desenrola como se fosse de fato uma democracia. Há eleições, candidatos e a maioria escolhe seus representantes. Mas é uma encenação. Porque não há as outras condições para que haja a democracia como descrita na Declaração Universal dos Direitos Humanos —além da soberania do povo, o respeito individual aos cidadãos, independentemente de sexo, religião e etnia.

Que fatores levaram a essa crise da democracia, que desconhece fronteiras?  

A Freedom House, que estuda a saúde da democracia no mundo, há 12 anos assinala a decadência do regime, com base numa série de fatores. Primeiro, o custo da democracia se acentuou, por isso muitas vezes só milionários podem competir nas eleições.

Em segundo lugar, a democracia pressupõe, desde a Grécia antiga, equidade social. Não a igualdade, mas não haver uma divergência cada vez maior entre a minoria com a maior parte das riquezas e a maioria pobre. Desde 2008, com a crise, ricos ficaram mais ricos, e desemprego e pobreza se alastraram. Isso leva à descrença na democracia.

O terceiro é que as democracias sofrem a corrupção da classe política, que fomenta essa descrença.

Em todas as pesquisas, mesmo em democracias tradicionais, como França e EUA, a fé nas instituições fica abaixo dos 20%, às vezes 10%. A democracia não goza mais da confiança do cidadão por não garantir igualdade social. Não é minha opinião, é o que os povos dizem. É curioso, não dizem que as democracias são fracas, mas mentirosas.

Isso faz com que se veja a ditadura como possibilidade?  

Infelizmente, sim. Há esse mito do homem forte. A linguagem política se torna vulgar e violenta porque parece manifestação da sinceridade. Os espetáculos de massas exaltam a virilidade, a beleza. Isso cria mitos que levam a ver quem fala de modo violento como sincero.

É o maior mal da democracia e não nasce da oposição a ela, mas do gosto, nela, pelo assalto ao adversário.

Quando se aceita a linguagem da violência como uma linguagem da democracia, não há mais freio para comportamentos violentos. Se houvesse fascismo, um inimigo que quer abolir a democracia, haveria maior capacidade de resistência.

O perigo está no fato de essa onda vir de dentro da democracia.  

Exatamente. Esses movimentos não destruirão os outros partidos, mas darão um jeito de eles não serem maioria. Se tiram o seu ar, você reage, porque sufoca. Mas, se o ar estiver poluído, você absorve o veneno pouco a pouco.

Essa é a democracia de fachada, que envenena a capacidade dos cidadãos de reconhecerem a perda da liberdade. Vamos à democracia como ao teatro; paga-se o ingresso, vota-se; mas, depois, o que os diretores e atores fazem não é o que escolhemos.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Linguagem, lingüística e fascismo



Linguagem, lingüística e fascismo

Rerisson Cavalcante de Araújo

É fácil identificar um fascista italiano no Brasil. Quem discorda de você é fascista. Quem não vota no seu partido preferido é fascista. Quem discorda de uma política pública é fascista. Quem xinga político é fascista. Quem carrega uma bandeira é fascista.

Nestes tempos em que as pessoas se sentem confortáveis para chamar seus amigos de longa data de “fascistas” (mas se ofendem com piadas de salão…), é bom lembrar das funções da linguagem segundo Roman Jakobson.
A função referencial ou denotativa tem o objetivo de tentar falar da realidade, descrever as coisas do mundo como se apresentam. Já a conativa ou apelativa tenta induzir comportamentos e posturas; convencer ou reprimir algo ou alguém. A função conativa pode atuar em conjunção com a referencial ou na negação desta; pode apelar a verdades ou a mentiras — ou pior, em meras palavras vazias.
Quando você chama o seu amigo, parente, professor, aluno etc de fascista (sem se importar com a gravidade da sua ofensa!), é porque você estudou suficientemente o fenômeno cultural do fascismo italiano e está identificando elementos idênticos na pessoa? (Quais elementos? Cantar o hino nacional?). Ou porque você quer mostrar que você é uma pessoa legal, boa e defensora do bem, enquanto a outra é maligna, diabólica, satânica? Você quer descrever um fenômeno real ou posar de intelectual e democrático? Você chamaria de “fascista” alguém que, como os fascistas italianos e os nazistas alemães, defende, por exemplo, a reforma agrária? (Sim, fascistas e nazistas eram nacionalistas e, por isso, a favor da reforma agrária. A realidade é sempre muito mais complicada do que os slogans.).
Hoje, no Brasil, chamar os outros de fascistas é apenas um recurso para evitar ser mal visto por certos círculos de pessoas legais e de acadêmicos. Participar desse circo pode fazer com que você seja muito bem visto. Recursar-se a participar disso e tentar descrever as coisas como elas são (ou abster-se enquanto você não souber algo de fato) vai fazer com que você seja extremamente mal visto e mal quisto. Fica a questão: se o seu amigo estiver simplesmente errado, é preciso levantar contra a ele uma acusação falsa e sem-vergonha de “fascismo” apenas para posar de legal? Mas notem: não se trata de uma questão de polidez ou desrespeito apenas, mas de justiça, de verdade e de responsabilidade intelectual.
É uma escolha que você tem que tomar.

O ANTIFASCISMO É O PIOR PRODUTO DO FASCISMO





O ANTIFASCISMO É O PIOR PRODUTO DO FASCISMO

Jean Barrot

Desde que o regime fascista surgiu, no período entre as duas guerras mundiais, o termo “fascismo” tem se mantido em voga. Qual grupo político não acusou seus adversários de usar “métodos fascistas”? A esquerda nunca parou de denunciar o fascismo ressurgente, a direita por sua vez insistia rotulando o PCF como o “Partido Fascista”. Significando tudo e nada, a palavra foi perdendo significado a partir do momento em que os liberais de todos os países passaram a identificar todo e qualquer Estado forte como fascista.
As ilusões dos fascistas dos anos 30 ressurgem e são apresentadas como realidade, nos dias de hoje. Na Espanha, Franco pretendia ser tão fascista quanto seus mentores, Hitler e Mussolini, mas o fato é que nunca houve uma internacional fascista. Os coronéis gregos e generais chilenos são chamados de fascistas, mas eles apenas representam variantes ditatoriais do Estado capitalista. Intitular de fascista o Estado é o mesmo que acusar os partidos que o governam. Assim, não se critica o Estado, só se denunciam aqueles que o dirigem. Os esquerdistasA tentam parecer radicais fazendo alvoroço em torno do fascismo, mas rejeitam a crítica ao Estado. Na prática, limitam-se a propor outra forma de Estado (democrática ou popular) em substituição à atual, qualquer que seja ela.
O termo “fascista” é ainda menos relevante nos países capitalistas desenvolvidos, onde os partidos comunistas e socialistas pretendem desempenhar um papel central no futuro. No discurso esquerdista, Estado “fascista” é todo aquele que reage contra o movimento revolucionário. Ora, neste caso, é muito mais correto falar de Estado pura e simplesmente e deixar o fascismo fora disso.
Há um aspecto sob o qual o fascismo triunfou e seus objetivos foram, em geral e ainda que por outros meios, alcançados: a unificação do Capital e a eficiência do Estado. Mas a verdade é que o fascismo desapareceu como movimento político e como forma de Estado. Apesar de algumas semelhanças, os partidos hoje considerados fascistas já não almejam, desde 1945, conquistar um Estado frágil de fora para dentro[1].
Insistir com a ameaça do fascismo é ignorar o fato de que o fascismo revelou-se despreparado para a tarefa, que assumiu, mas não realizou. Assim, por exemplo, em vez de fortalecer o capital alemão, o nazismo terminou dividindo-o em dois Estados. Durante a segunda guerra mundial, a polarização fascista/antifascista foi enriquecida com novos elementos. Do ponto de vista do capital, a guerra entre dois blocos imperialistas era, mais uma vez, a solução necessária para os problemas econômicos (crash de 1929) e sociais (a classe operária – rebelde, ainda que não revolucionária – tinha de ser subjugada). Deste modo, a segunda guerra mundial é mistificada como uma guerra contra o totalitarismo, na forma de fascismo. Esta é a versão que permanece.
A constante lembrança, por parte dos imperialismos vitoriosos de 1945, dos crimes nazistas serve para justificar a guerra, dando-lhe o caráter de cruzada humanitária na qual tudo, mesmo a bomba atômica, pode ser admitido para derrotar tão bárbaro inimigo. Esta interpretação não é, entretanto, mais digna de crédito do que a demagogia dos nazistas, que diziam lutar contra o capitalismo e a plutocracia ocidental.
O bloco democrático incluía um Estado tão totalitário e violento quanto a Alemanha de Hitler: a União “Soviética” de Stálin, cujo código penal prescrevia a pena de morte para os infratores de 12 anos de idade. Em suas colônias, os governos democráticos utilizavam métodos similares de terror e extermínio sempre que achassem necessários. O ocidente esperou a guerra fria para denunciar a existência dos campos de prisioneiros na URSS. Mas cada país capitalista tem que lidar com seus problemas. A Inglaterra não enfrentou uma guerra como a da Argélia. Os EUA não tiveram de organizar campos de concentração[2], mas desencadearam uma guerra colonial no Vietnam. A União “Soviética”, cujo Gulag foi denunciado no mundo inteiro, concentrou em algumas décadas os horrores cometidos durante séculos nos mais velhos países capitalistas, horrores que também resultaram em milhões de vítimas, basta lembrar a escravidão dos negros e o extermínio dos índios.
Ao longo da história, o desenvolvimento do capital tem certas consequências, entre as quais: 1) opressão mais ou menos brutal dos trabalhadores, que inclui a eliminação física; 2) competição com outros capitais nacionais, frequentemente resultando em guerra. Quando o Estado é administrado pelos “partidos dos trabalhadores”, apenas uma coisa muda: a demagogia trabalhista é mais evidente, mas os trabalhadores não serão poupados da repressão mais severa, se esta for necessária para o bom andamento dos negócios. O triunfo do capital nunca é completo, a não ser quando os trabalhadores se mobilizam por uma “vida melhor”.
A pretexto de defender os proletários dos “excessos do capital”, o antifascismo apoia a intervenção do Estado. O antifascismo tem sido o campeão do Estado forte. Assim, por exemplo, o PCF (Partido “Comunista” Francês) nos pergunta: “Que espécie de Estado é necessário na França de hoje?... O nosso Estado é estável e forte, como o presidente da república diz? Não, ele é fraco, é impotente para tirar o país da crise política e social na qual está atolado. Na verdade, o presidente da república está encorajando a desordem”[3].
Ambas, ditadura e democracia propõem o fortalecimento do Estado, como uma questão de princípio. Com o pretexto de nos proteger, mudam os estilos mas o objetivo é sempre o mesmo: “de cima para baixo”, com os ditadores, ou “de baixo para cima”, com os democratas, o capitalismo se mantém. Então, comparando ditadura e democracia, poderíamos falar de uma luta entre duas facções sociologicamente diferentes do capital? Não. Simplesmente, estamos diante de dois diferentes métodos de arregimentação do proletariado: pela força, reprimindo-o; ou assimilando-o, através de “suas” próprias organizações.
O capital opta por uma dessas soluções, de acordo com as exigências do momento. Na Alemanha, depois de 1918, a social-democracia e os sindicatos eram indispensáveis para assimilar os trabalhadores e isolar os revolucionários. Depois de 1929, a Alemanha tinha de concentrar sua indústria, minimizar a dispersão da classe média e unificar a burguesia. O movimento operário tradicional, a social-democracia, que dependia do pluralismo político e defendia os interesses imediatos dos trabalhadores, tornou-se um peso morto para o capital.
As “organizações dos trabalhadores” apoiavam firmemente o capitalismo, seja porque já não eram ou porque nunca tinham sido autônomas. Desempenharam um efetivo papel contrarrevolucionário, em 1918-21, contribuindo decisivamente para a derrota da revolução proletária na Alemanha. Em 1920, essas organizações deram o primeiro exemplo de antifascismo contrarrevolucionário (antes mesmo do surgimento do fascismo, na Itália)[4].
Mais tarde, a hipertrofia das organizações social-democratas, na sociedade e no Estado, exasperou o conservadorismo social, o malthusianismo econômico, e elas foram eliminadas. Mas a social-democracia preencheu uma função abertamente contrarrevolucionária em 1918-1921, ao defender a manutenção do trabalho assalariado. Foi por isso que se tornou necessária para representar os interesses imediatos dos assalariados, ainda que, mais tarde, viesse a dificultar a reorganização do capital como um todo.
O nazismo tinha como objetivo a destruição violenta do movimento dos trabalhadores, contrariamente aos partidos fascistas de hoje. Esta é a diferença crucial. A social-democracia, que havia cumprido muito bem sua função de domesticar os trabalhadores, ocupava uma posição importante no Estado, mas era incapaz de unificar a Alemanha. Essa foi a tarefa do nazismo, que soube como atrair e subjugar todas as classes e camadas sociais, dos proletários desempregados ao capital monopolista.
No Chile de Allende, a Unidade Popular conseguiu integrar os trabalhadores, mas sem reunir a nação inteira atrás de si. Mesmo assim, tornou-se necessário subjugá-los pela força. No entanto, até novembro de 1975, não houve nenhuma repressão massiva. Se Allende proclamou a “Revolução na Legalidade”, não foi para levar ao poder os trabalhadores ou porque as organizações democráticas quisessem evitar o golpe de Estado da direita. Os partidos de esquerda e sindicatos jamais conseguiram evitar qualquer coisa semelhante, exceto quando o golpe de Estado era prematuro, como o de Kapp, na Alemanha de 1920. Se não houve terror branco em Portugal, foi por falta de necessidade, pois o Partido Socialista conseguiu unificar a sociedade como um todo atrás de si.
Quer se admita ou não, o antifascismo tem sido a forma necessária para a colaboração entre trabalhadores e burgueses reformistas. O antifascismo os une afirmando representar o verdadeiro ideal da revolução burguesa, traída pelo capital. A democracia é considerada como um embrião de socialismo, já presente na sociedade capitalista. E o socialismo é representado como a plena democracia. A luta pelo socialismo consistiria em obter o máximo de direitos democráticos dentro do capitalismo. Com a ajuda do espantalho fascista, o gradualismo democrático é revitalizado.
A democracia é uma das formas políticas do capital. Sua expansão, neste século, aumentou o isolamento dos indivíduos. Nascida como solução ilusória para o problema da alienação na sociedade, a democracia é impotente para resolver o problema da mais alienada das sociedades, em toda a história, a sociedade capitalista. O antifascismo só consegue viabilizar o totalitarismo, na medida em que sua luta por um Estado democrático se resume ao fortalecimento do Estado, pura e simplesmente.
Por vários motivos, as críticas dos revolucionários ao fascismo e ao antifascismo – em particular, as que se referem à guerra civil espanhola – são ignoradas, mal entendidas e mesmo intencionalmente distorcidas. Na melhor das hipóteses, são consideradas abstratas; na pior, uma contribuição ao fascismo. Assim, o discurso antifascista veicula que: a) o PCI ajudou Mussolini por não levar o fascismo a sério e, especificamente, por não se aliar com as forças democráticas; b) o KPD facilitou a tomada do poder por Hitler, ao tratar o SPD como o inimigo principal; c) na Espanha, pelo contrário, teríamos um exemplo de luta antifascista, que poderia ter sido bem sucedida se não fossem as deficiências dos stalinistas (ou: socialistas, anarquistas, etc. – a  escolher, segundo a preferência de cada um). Ora, esses argumentos se baseiam numa completa distorção dos fatos.

http://redelp.net/revistas/index.php/rma/article/view/9gbarrot4/330 


A “Esquerdista”, aqui, significa “progressista”, ou seja, a suposta esquerda oficial, parlamentar ou mesmo a suposta extrema-esquerda, ou seja, progressistas moderados e extremistas.
[1] Na França, por exemplo, o RPF (Reagrupamento do Povo Francês), o partido do general De Gaulle, de 1947 a 1952.; o poujadismo, movimento pequeno-burguês de direita, na quarta república; e, finalmente, o RPR (Reagrupamento pela República), partido gaullista na época em que foi redigido este texto.
[2] Nos EUA, cerca de 100.000 (cem mil) japoneses foram internados em campos de concentração, durante a segunda guerra mundial. O Estado ianque não considerou necessário exterminá-los.
[3] Humanité, 6 de março de 1972.

[4] O golpe de Kapp, em 1920, foi derrotado por uma greve geral. Mas a insurreição proletária nas minas do Ruhr, que eclodiu imediatamente após e pretendia ir além do apoio à democracia, foi imediatamente reprimida pelo Estado, que utilizou as mesmas tropas que haviam sustentado o golpe de Kapp...

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Marxismo e Proletariado em “História e Consciência de Classe”, de Georg Lukács



ARTIGOS

Marxismo e Proletariado em “História e Consciência de Classe”, de Georg Lukács



 Lucas Maia [1]


Caixa de Texto: Não é o predomínio de motivos econômicos na explicação da história que distingue de maneira decisiva o marxismo da ciência burguesa, mas o ponto de vista da totalidade.
GEORG LUKÁCS
 








George Lukács é sem sombra de dúvidas um dos grandes nomes do pensamento marxista. Sua obra é vasta e remonta a milhares de páginas escritas. Nossa intenção nos limites deste breve ensaio não é abarcar a trajetória política, intelectual e biográfica deste autor[2]. Objetivamos, isto sim, analisar o significado de seu controverso livro História e Consciência de Classe para o pensamento revolucionário. As obras anteriores e posteriores de Lukács escapam completamente a esta análise e damos duas boas razões para isto: a) as obras anteriores são pré-marxistas, de matriz kantiana (A Alma e as Formas) e hegeliana (Teoria do Romance). Estas são, naturalmente, as principais; b) as posteriores são pseudomarxistas, pois inspiradas totalmente no assim chamado “marxismo”-leninismo. Assim, o jovem Lukács, o autor do tempo de História e Consciência de Classe, foi o que melhor expressou, no campo da teoria marxista, os interesses históricos e revolucionários do proletariado.
Esta nossa distinção não tem nada de arbitrária, embora não tenhamos a pretensão de desenvolvê-la neste nosso ensaio. Isto seria um outro trabalho, muito mais extenso e mais detalhado. O que fazemos aqui segue a recomendação que o próprio Lukács faz quando analisa o desenvolvimento das ideias marxistas em História e Consciência de Classe. Para ele, o marxismo, como método de análise dos processos sociais e das ideias deve ser aplicado a si mesmo[3]. Ao fazermos isto, descobrimos que em 1923 Lukács chegou a conclusões revolucionárias, pois, no momento em que os artigos que compõem o livro foram escritos (1919 a 1922), o proletariado se encontrava, em vários países europeus, em luta revolucionária (Revolução Russa em 1917, Revolução Alemã em 1918, Revoluções Húngara e Italiana em 1919 etc.). História e Consciência de Classe expressou, em grande medida, de um ponto de vista revolucionário, este momento da luta proletária. A derrota do movimento operário significou também o recuo de várias ideias marxistas, Lukács foi um destes que recuou[4]. Este seu recuo demonstra duas coisas: 1) ele estava correto ao dizer que para estudar o marxismo, deve-se aplicá-lo a si mesmo, demonstrando que as ideias marxistas não surgem do nada, mas tem profundo enraizamento social, tal como todas as ideias; 2) o fato de ele estar correto quanto ao primeiro ponto, demonstra que vários intelectuais capitulam quando a luta revolucionária é estrangulada, sendo este o caso de Lukács.
História e Consciência de Classe foi publicado em forma de livro em 1923, sendo os artigos que o compõem escritos nos anos precedentes: “O que é o marxismo?” (1919), “Rosa Luxemburgo como marxista” (1921), “Consciência de classe” (1920), “A reificação e a consciência do proletariado” (s/d), “A mudança de função do materialismo histórico” (1919), “Legalidade e ilegalidade” (1920), “Notas críticas sobre a Crítica da Revolução Russa de Rosa Luxemburgo” (1922) e “Observações metodológicas sobre a questão da organização” (1922). Como afirma o próprio Lukács, a exceção dos artigos: “A reificação e a consciência do proletariado” e “Observações metodológicas sobre a questão da organização revolucionária”[5], todos os demais: “(...) nasceram em sua maior parte em meio ao trabalho partidário, como tentativa de esclarecer para o próprio autor e para seus leitores questões teóricas do movimento revolucionário” (LUKÁCS, 2003, p. 51). Trata-se, portanto, de trabalhos teóricos com vistas ao esclarecimento da prática militante e de entendimento do processo revolucionário. É dentro deste espírito, que analisaremos aqui os textos de Lukács, ou seja, como textos que analisam o processo revolucionário com todas as implicações daí derivadas: questão da consciência de classe, papel do proletariado, ponto de vista de classe, organização revolucionária, organização do proletariado etc.
Diante destes esclarecimentos, interrogamos: quais contribuições História e Consciência e de Classe traz ao entendimento do processo revolucionário? De um ponto de vista revolucionário, ou seja, que almeja a transformação radical das relações sociais capitalistas, quais as contradições e limites presentes nas proposições de Lukács?

O fenômeno da reificação, a consciência de classe e a crítica à ciência burguesa e ao marxismo vulgar

Em que pese não se possa concordar com todas as teses expostas por Lukács em História e Consciência de Classe, o que demonstraremos mais à frente, é necessário reconhecer que esta obra é uma importante contribuição à teoria marxista. Não consiste num mero manual, nem em uma resenha das ideias de Marx e dos marxistas. Trata-se de obra que apresenta características novas, apresenta teses inovadoras sob certos aspectos, bem como aprofundamentos em alguns campos que Marx somente delineou.
Uma possibilidade de análise de suas ideias no que concerne às inovações que apresenta e aprofundamentos que promove é seu estudo do fenômeno da reificação. A reificação é uma característica da produção capitalista de mercadorias. Consiste, na verdade, em elemento fundante da sociedade capitalista. À medida que o valor, relação social que regula a produção e circulação, distribuição e repartição de mercadorias sob o modo de produção capitalista, se generaliza, também o fetichismo ou reificação que lhe caracteriza organiza não só o processo de produção de mercadorias, mas o conjunto da vida social, inclusive o processo de produção de ideias (ciência, filosofia, direito etc.).
Esta é a tese que Lukács visa demonstrar. A estrutura da sociedade capitalista em seu conjunto é reificada, ou seja, é fundada num processo geral de alienações múltiplas. Sua análise se inicia com o estudo do processo de produção de mercadorias, no qual a classe operária é expropriada. Inicialmente expropriada de seus meios de produção, depois do controle sobre o processo de trabalho, em seguida do conhecimento sobre o processo de trabalho. Isto tudo fundado na apropriação privada do produto do trabalho da classe trabalhadora[6].
O estabelecimento da produção capitalista desenvolvida consiste em retirar do trabalhador todo o controle sobre o processo de produção. Este processo, submetido a uma base de “cálculo racional”, é na produção do produto, parcelado em momentos racionalmente calculados. Cada trabalhador só produz um valor de uso para a etapa seguinte, sendo o valor de uso para o consumidor o resultado de uma articulação de vários trabalhos parciais. O produto do trabalho, o objeto, é, pois, o resultado desta parcelização ou divisão do trabalho.
Mas não só o objeto-mercadoria é resultado disto, mas também o próprio sujeito. Este é também mutilado para que o produto seja produzido. Ele é inserido dentro do processo produtivo como parte mecânica do conjunto mecanizado. Sua autonomia está totalmente ou quase totalmente apagada ali dentro. A atividade humana é vista como passível de erro, ao passo que a atividade mecânica é imparcial e exata.
Segundo Lukács, as relações de exploração precedem a sociedade capitalista. As relações de produção pré-capitalistas se caracterizam, em certa medida, pelo fato de os agentes da produção se reconhecerem como agentes destas relações. Ao passo que no capitalismo, as relações pessoais entre as pessoas aparecem mediadas por relações entre objetos, aparecendo ao nível da consciência como relações entre coisas. Tal característica cria a sensação de que todos estão submetidos a “leis” rigorosas e impessoais. Pelo menos é assim que as relações capitalistas se apresentam ao nível da consciência ordinária, ou seja, como resultado de leis impessoais, amorais, a-históricas etc. que governam a vida de todos.
Pode-se aqui objetar um excesso de Lukács ao afirmar que nas sociedades pré-capitalistas os agentes diretos da produção se reconheciam enquanto tais no processo de trabalho, ao passo que no capitalismo tal reconhecimento desaparece. O escravo se reconhecia como escravo dado sua condição de total subserviência ao seu senhor. Um operário pode não ter esta consciência, por que iludido por certa liberdade jurídica. Ao que tudo indica, o mais correto é que em todas as sociedades de classe, a naturalização das relações sociais é algo que garante a normalidade de tais sociedades. Quando tal naturalidade das relações estabelecidas começa a ser questionada, a normalidade entra em declínio e um processo de convulsões sociais se estabelece. Esta, portanto, não é somente uma característica do modo de produção capitalista, contudo, garante a estabilidade e normalidade deste.
A reificação, pelo contrário, não é mero processo de naturalização das relações sociais, embora comporte um grau elevado de naturalização, mas sim a generalização do valor, a estruturação do conjunto da sociedade para a produção e realização do valor. Trata-se da subordinação das demais esferas da sociedade à forma de mercadoria, tornando a própria força de trabalho algo separado, uma mercadoria. O capitalista não compra o trabalhador, tal qual um escravocrata compra um escravo, mas sim a mercadoria força de trabalho, ou seja, a capacidade de trabalhar do trabalhador.
A reificação não é, pois, uma mera forma de consciência, mas sim a maneira como o modo de produção capitalista estrutura o processo de produção e o conjunto da vida social, política, religiosa, cultural da sociedade. Trata-se do modo de ser da sociedade capitalista. Esta estrutura reificada da sociedade se manifesta ao nível da consciência. Tanto a classe operária, quanto a classe capitalista (para ficar só nestas duas classes) tem uma consciência reificada que expressa a estrutura reificada da sociedade. O proprietário de terras que vê ao final de cada ano sua conta bancária engordada pela posse que tem da terra arrendada imagina que tal renda provém da terra. O banqueiro, que vive de juros julga que o aumento de sua riqueza deriva de sua posse de dinheiro. Ambos não podem compreender que tanto a renda da terra, quanto o juro provém de frações do mais-valor expropriado à classe trabalhadora. Ou seja, trata-se de formas de consciência reificadas, expressando as relações reificadas desta sociedade.
Comentando Weber, Lukács afirma que o capitalismo exige uma racionalização de toda a sociedade. O “cálculo racional” (expressão de Lukács) é condição para que qualquer empresa capitalista se desenvolva. Para que esta se desenvolva sem percalços, necessita também que o próprio Estado se comporte ou aja racionalmente, obedecendo a regras e leis racionais. A racionalização é, pois, um fenômeno universal dentro do capitalismo, pois é uma necessidade para uma operação sem transtornos de todo o sistema. As “leis” da sociedade são reconhecidas como tais e não são questionadas em nada na organização do processo de trabalho e do conjunto da vida institucional do capitalismo.
Ou seja, o “fetichismo que adere à mercadoria”, segundo expressão de Marx, é um processo generalizado dentro da sociedade capitalista. Sendo a mercadoria o resultado de uma relação social entre classes sociais, sua maneira reificada de aparecer na consciência se manifesta como sendo relação entre coisas: terra que gera renda, dinheiro que gera juros, capital que gera lucros etc. Este processo não se restringe à produção material, mas é elemento estruturante de toda a sociedade capitalista. Invade a vida psíquica, moral, política, institucional, cultural, a consciência etc.
Assim, segundo Lukács,
A reificação é, portanto, a realidade imediata e necessária para todo homem que vive no capitalismo, e só pode ser superada por um esforço constante e sempre renovado para romper na prática a estrutura reificada da existência, mediante uma referência concreta às contradições que se manifestam concretamente no desenvolvimento global, e com conscientização do sentido imanente dessas contradições para a totalidade do desenvolvimento (LUKÁCS, 2003, p. 391) (grifos meus).
A reificação é a realidade imediata que se apresenta a todo ser humano envolvido nas relações sociais modernas. Não se escapa dela, pois ela institui a totalidade da sociedade capitalista. Paradoxalmente, a apreensão da totalidade pela consciência é completamente nublada sob o capitalismo. O todo é tido como incognoscível, inapreensível. A reificação totalizante da sociedade capitalista determina as partes. A consciência reificada só consegue apreender as partes e concebe o todo como incompreensível ou impossível de ser apreendido. Por isto, segundo argumenta Lukács, a superação da consciência reificada só pode se dar mediante a superação da reificação estruturante do todo da sociedade.
A sociedade capitalista é fundada nesta relação totalizante e reificada na qual o controle dos rumos do desenvolvimento social parecem fugir das mãos de todos e somos governados por “leis” imparciais que a tudo submetem. Esta forma de perceber os processos sociais é a culminação do fenômeno da reificação e a sociedade capitalista foi a que conseguiu tornar ao nível da aparência as relações sociais como se fossem relações entre objetos. Os sujeitos, os seres humanos, divididos em classes sociais e relacionando-se reciprocamente entre si, são pegos com as calças nas mãos obedecendo a “leis” econômicas (apolíticas, amorais, imparciais). O reino da mercadoria exige este tipo de comportamento, pois fundado numa racionalização (“cálculo racional”) e burocratização crescente das relações sociais.
No ensaio “Consciência de classe”, Lukács dá interessante contribuição ao entendimento da relação entre classe social e consciência de classe. Segundo ele:
Ora, a reação racional adequada, que deve ser adjudicada a uma situação típica determinada no processo de produção, é a consciência de classe. Essa consciência não é, portanto, nem a soma, nem a média do que cada um dos indivíduos que formam a classe pensam, sentem etc. E, no entanto, a ação historicamente decisiva da classe como totalidade é determinada, em última análise, por essa consciência e não pelo pensamento do indivíduo; essa ação só pode ser conhecida a partir dessa consciência (LUKÁCS, 2003, p. 142) (grifos meus).
O que interessa desta citação é compreender que o ponto de partida para o entendimento do todo da sociedade não é o indivíduo, tal como supõe um liberalismo radical (veja, por exemplo, Adam Smith), mas sim o de classe. A consciência da classe não é, pois, o que pensa o indivíduo x ou o indivíduo y, mas sim o que a totalidade da classe, devido sua posição na divisão social do trabalho, seus interesses elabora. A apreensão da consciência de classe só pode ser percebida se se parte do ponto de vista da classe e não do indivíduo ou de grupos de interesse dentro da classe. A totalidade que é a classe condiciona os interesses, os sentimentos, as formas de pensar, os valores etc. dos indivíduos e não o contrário. Esta percepção de Lukács é fundamental para a análise das formas de conhecimento, pois dependendo de qual perspectiva de classe se parta, as conclusões irão variar.
Lukács distingue uma consciência psicológica de uma consciência de classe. A primeira é a consciência ordinária, empírica, verificável na execução da vida cotidiana. A segunda é a consciência (embora fique recalcada e “inconsciente” a maior parte do tempo, sobretudo no proletariado) que deriva da posição que os indivíduos ocupam na divisão social do trabalho.
Assim, quando Lukács, ao analisar o fenômeno da reificação, identificando-o como elemento estruturante da vida material da sociedade capitalista, acaba por descobrir que a própria consciência é também reificada. E esta consciência reificada, quanto mais atrelada à perspectiva, ao ponto de vista de classe da burguesia, mais afirma-se a si mesma como reificada. Ou seja, o conhecimento do caráter reificado da consciência não pode ser verificado pela consciência reificada da burguesia. Esta classe não pode identificar a si mesma como classe que expressa uma consciência reificada do mundo, justamente por que sua apreensão da realidade existente é coerente com seus interesses e sua posição na divisão social do trabalho.
Para Lukács,
Portanto, a barreira que faz da consciência de classe da burguesia uma “falsa” consciência é objetiva; é a situação da própria classe. É a consequência objetiva da estrutura econômica da sociedade, e não algo arbitrário, subjetivo ou psicológico. Pois a consciência de classe da burguesia, embora possa refletir com clareza sobre todos os problemas da organização dessa dominação, da revolução capitalista e de sua penetração no conjunto da produção, deve necessariamente se obscurecer no momento em que surgem problemas, cuja solução remete para além do capitalismo, mesmo no interior da experiência da burguesia (LUKÁCS, 2003, p. 147) (grifos meus).
Esta constatação é evidente, pois pensar o contrário significa que a burguesia deve abrir mão de sua dominação. Qualquer reconhecimento por sua parte que a solução dos problemas econômicos e sociais deva ir além da realidade existente (problema das crises, da exploração de classe etc.), significa reconhecer que deve deixar de existir. Portanto, o ponto de vista de classe da burguesia é limitado em essência. Partindo do ponto de vista da burguesia, da classe capitalista, só é possível conhecer a realidade até certo ponto. Este é o limite da ciência burguesa. Este é o “limite intransponível da consciência burguesa”, segundo expressão de Marx. Sobre a consciência de classe do proletariado, abordarei no próximo tópico.
A divisão social do trabalho, base da consciência reificada do mundo, se expande a níveis nunca antes observados na história da humanidade. A divisão de especialidades, a ampliação das especializações produzem novas classes, ensejando novos interesses, novos conflitos, complexificando o estudo da consciência de classe. A relação burguesia/proletariado são o que Lukács denomina de “classes puras” do capitalismo[7]. A universidade amplia a classe dos intelectuais, o exército, a burocracia militar, o crescimento das empresas a burocracia empresarial (administradores) etc. Esta ampliação da divisão do trabalho é acompanhada de uma ampliação sem precedentes das especialidades e do número de especialistas. Esta fragmentação da realidade concreta é acompanhada também de uma fragmentação da compreensão da realidade. O todo, a totalidade é cada vez mais afastada do entendimento. Cada especialista é doutor em sua área e nada sabe do que o vizinho fala ou faz. Esta realidade reificada tem implicações profundas na estruturação da produção das formas mais elaboradas de consciência (a ciência, a filosofia, o direito etc.).
Lukács, sobre isto, aborda um último momento da consciência reificada do mundo: a ciência e a filosofia. A reificação, ou seja, este processo real, concreto que se manifesta ao nível da consciência como uma característica sui generis do capitalismo, tem sua formalização definitiva na ciência burguesa. A economia política, quando surge, coloca-se a si mesma o problema da totalidade ou a consideração do fenômeno econômico em seu conjunto, por exemplo, o Tableau Economique de Quesnay. A partir das obras de Smith e em seguida Ricardo e daí em diante, só se aprofunda a especialização. Quanto mais formalmente se desenvolve a ciência, com seus conceitos, epistemologia, estrutura interna do discurso etc. mais reificada ela se torna, pois afasta de si totalmente a possibilidade da totalidade, além de circunscrever suas “leis” em sistemas cada vez mais formais (economia política vulgar, econometria etc.).
A filosofia aparece como uma tentativa de novamente restituir a totalidade. Contudo, ela é incapaz de fazer isto, pois opera dentro da estrutura fundada pelas ciências parcelares. Para se realizar, efetivamente, uma análise que seja fundada no princípio da totalidade, seria necessário refundar internamente o próprio discurso científico e a estrutura interna de cada ciência em específico. E a filosofia, dentro do capitalismo, argumenta Lukács, é incapaz disto, pois ela opera dentro da epistemologia que as ciências parcelares trabalham. Para Lukács: “(...) uma modificação radical do ponto de vista é impossível no terreno da sociedade burguesa” (LUKÁCS, 2003, p. 238). Ou seja, o capitalismo funda esta ciência, justamente por que ela é expressão da reificação concreta das relações sociais das quais ela é a formalização necessária. A ciência burguesa (parcelar) é acorde à parcelização típica da sociedade capitalista. A reificação é, pois, um fenômeno concretamente observável no terreno mesmo da vida concreta bem como no nível da elaboração conceitual complexa: ciência e filosofia. Ou seja, uma vida reificada só pode produzir uma ciência reificada.
A consciência, do ponto de vista da burguesia, reflete as condições sociais do capitalismo e os interesses daí derivados. A separação, autonomia e independência das categorias e áreas de conhecimento típicas da ciência burguesa são expressão da sociedade burguesa:
A aparência dessa autonomia não é, contudo, um mero “engano” a ser “corrigido” pelo materialismo histórico. Ela é, antes de tudo, a expressão intelectual e categorial da estrutura social e objetiva da sociedade capitalista. Anulá-la ou transpô-la significa, portanto, transpor – intelectualmente – a sociedade capitalista, antecipar sua anulação com a força aceleradora do pensamento. (LUKÁCS, 2003, p. 424).
Mas a própria crítica (o “marxismo”) acaba por ceder, em certo momento, também a esta estrutura reificada do conhecimento. O materialismo histórico-dialético surge e se desenvolve como antípoda da sociedade capitalista em seu conjunto, portanto, é crítico também da ciência e da filosofia burguesas. Contudo, em dado momento de seu desenvolvimento, também o “marxismo” passa a capitular. Lukács utiliza a expressão “marxismo vulgar” e, em uma ou duas passagens, utiliza o termo “pseudomarxismo” para designar esta degeneração do materialismo histórico-dialético[8].
Segundo Lukács,
A questão posta pelo “austromarxismo” a respeito da separação metódica entre a ciência “pura” do marxismo e o socialismo é, como todas as questões semelhantes, um falso problema. Pois o método marxista e a dialética materialista enquanto conhecimento da realidade só são passíveis do ponto de vista de classe, do ponto de vista da luta do proletariado. Abandonar essa perspectiva significa distanciar-se do materialismo histórico, do mesmo modo como adotá-la implica diretamente a participação na luta do proletariado (LUKCÁCS, 2003, p. 98) (grifos meus).
Ou seja, um dos primeiros equívocos do marxismo vulgar ou fundamento de seu oportunismo reside em querer se tornar somente uma forma de interpretação da realidade, uma nova ciência. Isto é completamente antimarxista, pois materialismo histórico dialético exige a perspectiva do proletariado e, portanto, o engajamento na luta proletária. Qualquer separação entre consciência (ciência pura do marxismo) e socialismo é um equívoco sem tamanho, para não dizer mero e puro oportunismo.
Assim, para Lukács, a raiz do oportunismo está: “(...) em confundir o verdadeiro estado de consciência psicológica dos proletários com a consciência de classe do proletariado” (LUKÁCS, 2003, p. 180). O “marxismo vulgar”, os “oportunistas” são sobretudo os autores vinculados à socialdemocracia. A crítica de Lukács a estes “marxistas” é dura. Ele, contudo, não insere aí o pensamento “marxista”-leninista, devido à influência de Lênin em seu pensamento. Para ele, portanto, os marxistas vulgares são, sobretudo, os autores de matriz socialdemocrata, criticando um ou outro ligados a outras correntes ideológicas. Assim, afirmar que o marxismo vulgar confunde a consciência de classe do proletariado com a consciência psicológica, quer dizer que abandonam o ponto de vista do proletariado, o ponto de vista revolucionário, mediado. Ao assumir este posicionamento, fica-se somente no nível imediato, empírico. Em linguagem militante corrente, fica-se no nível das reformas e abandona-se a tendência revolucionária, ou seja, é a socialdemocracia em estado puro.
Para Lukács, o marxismo vulgar: a) comete o erro já denunciado por Marx ao criticar a economia vulgar: aplica as “leis” do capitalismo, as categorias historicamente construídas a todas as sociedades, eternizando a sociedade capitalista e suas categorias; b) reduz as transformações sociais a mudanças econômicas mecanicamente conduzidas. Retira-se daqui o papel da “violência” extraeconômica nas mudanças sociais. Lukács critica, na verdade, o economicismo e dogmatismo do marxismo vulgar.
Estas concepções socialdemocratas têm implicações também no campo da ação política. A socialdemocracia defende como estratégia política a conquista do poder de Estado, ao passo que os marxistas revolucionários concebem o Estado não como um instrumento de luta do proletariado, um instrumento de poder que deva ser conquistado, mas sim uma estrutura a ser derrotada pelo proletariado organizado. Faz questão de frisar que a crítica ao Estado do ponto de vista marxista não tem nada a ver com anarquismo e que os pseudomarxistas que assim agem são, na verdade, oportunistas.
Deste modo, se nem a ciência e a filosofia burguesas nem o marxismo vulgar conseguem apreender adequadamente a realidade, pois evitam o ponto de vista da totalidade, se apegam ao parcelar e ao empírico, como estudá-la então? O ponto de vista de classe da burguesia é ontologicamente limitado, como já definimos. Em que consiste a superioridade do ponto de vista do proletariado? É possível apreender o concreto e a sociedade como totalidade?

Marxismo e proletariado
Das considerações que apresentamos até o momento, a primeira observação que deve ser sublinhada é o fato inegável de que o estudo da consciência é algo muito mais profundo do que se apresenta à primeira vista. Derivado disto, o estudo da produção das formas complexas de consciência (VIANA, 2008), ou seja, da ciência, da filosofia, do marxismo deve ser entendido como um processo social complexo no qual estão envolvidos interesses de classe, divisão social do trabalho, luta de classes, conflitos etc. Não existe, deste ponto de vista, nenhuma forma de conhecimento que esteja isenta ou separada da totalidade social da qual este conhecimento é parte instituinte e expressão.
A burguesia em sua luta contra os resquícios feudais e absolutistas forjou toda uma nova sociedade, tanto do ponto de vista econômico-social, quanto também na elaboração de conhecimento. A ciência se apresenta como o conhecimento adequado aos interesses de classe da burguesia. A própria dinâmica reificada da estrutura econômica da sociedade moderna cria as condições para a elaboração de interpretações científicas da realidade, estudando cada ciência uma parte do todo e não tendo condições e nem aceitando a possibilidade de compreensão da realidade como totalidade. A burguesia liberou ou elaborou forças sociais que foram necessárias para a sua vitória sobre os restolhos do passado. As relações que engendrou acabaram por engendrar também novos sujeitos sociais, dentre eles o mais poderoso é o proletariado[9].
É somente com a entrada em cena do proletariado que o conhecimento da realidade social encontra seu termo: com a perspectiva da classe do proletariado, encontra-se um ponto a partir do qual a totalidade da sociedade torna-se visível. Com o advento do materialismo histórico surge, ao mesmo tempo, a doutrina “das condições da libertação do proletariado” e a doutrina da realidade do processo total do desenvolvimento histórico. Isso só foi possível porque, para o proletariado, conhecer com a máxima clareza sua situação de classe é uma necessidade vital, uma questão de vida ou morte, porque sua situação de classe só é compreensível quando toda a sociedade pode ser compreendida; por que seus atos têm essa compreensão como condição prévia, inelutável. A unidade da teoria e da práxis é, portanto, apenas a outra face da situação social e histórica do proletariado. Do ponto de vista do proletariado, o autoconhecimento coincide com o conhecimento da totalidade; ele é, ao mesmo tempo, sujeito e objeto do seu próprio conhecimento (LUKÁCS, 2003, p. 96/97) (grifos meus).
Depreende-se da citação: a) o materialismo histórico-dialético, ou seja, o marxismo, só se tornou possível devido ao surgimento do proletariado como sujeito histórico. Elimina-se aqui a tese de Lênin (1983) e de Kautsky (s/d) de que o marxismo seja o resultado da síntese superior de ideias anteriores, a saber: economia política inglesa, filosofia clássica alemã e socialismo francês; b) pois o marxismo é sobretudo a “doutrina das condições de libertação do proletariado”[10]; c) isto só é possível porque para o proletariado, diferentemente da burguesia, o conhecimento da totalidade da sociedade é uma necessidade vital. A burguesia contenta-se com a aparência dos fenômenos, por que esta aparência é coerente com seus interesses de classe. Para o proletariado, pelo contrário, manter-se no nível da aparência é manter-se acorrentado ao tronco no qual é açoitado cotidianamente. Para o proletariado só interessa a essência, portanto a totalidade e concreticidade dos fenômenos sociais; d) o proletariado é, como sujeito histórico, a expressão da unidade entre teoria e prática. Isto por que ele é o sujeito e o objeto do conhecimento, da consciência. Para o proletariado, o autoconhecimento coincide com o conhecimento da totalidade.
Como é fácil perceber analisando-se a obra de Lukács, a importância dada por ele à questão da totalidade é lembrada em todo o livro. Todos os artigos que compõem a obra tem na totalidade uma questão central. Este ponto é tão relevante em suas considerações, que chega a afirmar:
Não é o predomínio de motivos econômicos na explicação da história que distingue de maneira decisiva o marxismo da ciência burguesa, mas o ponto de vista da totalidade. A categoria da totalidade, o domínio universal e determinante do todo sobre as partes constituem a essência do método que Marx recebeu de Hegel e transformou de maneira original no fundamento de uma ciência inteiramente nova (LUKÁCS, 2003, p. 105) (grifos meus).
O problema a ser analisado é: o que permite à consciência apreender a totalidade? Como demonstramos, o ponto de vista da burguesia não permite que tal aconteça. Partindo-se de sua perspectiva, chega-se no máximo ao conhecimento científico tal como dado e às antinomias típicas do pensamento burguês: indivíduo/sociedade; natureza/história; manual/intelectual etc. (LUKÁCS, 2003). A relação, pois, consciência e perspectiva de classe é questão central em uma teoria das formas de consciência. Lukács tem o mérito de conseguir situar a problemática em seu lugar exato. Classe e consciência de classe são elementos inextrincáveis. O ponto de vista burguês, como demonstramos, satisfaz-se com a aparência dos fenômenos, com a interpretação parcial e parcializada dos processos, com a fragmentação total do saber teórico justamente por que esta aparência é conveniente a seus interesses de classe. Manter-se neste mundo sensível, empírico é fundamental para a classe capitalista e seus asseclas, justamente por que não ameaça sua posição de classe. Conhecer a essência dos fenômenos sob o capitalismo é revelar o ser de classe da burguesia e isto ela não pode fazer. Por isto, neste ponto, o pensamento burguês tem necessariamente que esfacelar-se em dezenas de ciências e estas ciências tem de nublar os processos. É imprescindível, pois, para se compreender o modo de produção capitalista, posicionar-se no outro campo do espectro político e social. O que isto nos demonstra é que não se pode, para compreender a totalidade, partir do ponto de vista do indivíduo x ou y, seja da classe capitalista, seja da classe operária. Pouco tem a nos dizer a opinião do executivo de empresa, do patrão específico etc. Da mesma forma, pouco tem a nos informar o posicionamento político, social, moral etc. do operário x, do camponês y. O ponto de partida individual é incapaz de apreender a totalidade, pois esta determina, condiciona o elemento particular.
Nos termos de Lukács:
O ponto de vista da totalidade não determina, todavia, somente o objeto, determina também o sujeito de conhecimento. A ciência burguesa – de maneira consciente ou inconsciente, ingênua ou sublimada – considera os fenômenos sociais sempre do ponto de vista do indivíduo. E o ponto de vista do indivíduo não pode levar a nenhuma totalidade, quando muito pode levar a aspectos de um domínio parcial, mas na maioria das vezes somente a algo fragmentário: a “fatos” desconexos ou a leis parciais abstratas. A totalidade só pode ser determinada se o sujeito que a determina é ele mesmo uma totalidade; e se o sujeito deseja compreender a si mesmo, ele tem de pensar o objeto como totalidade. Somente as classes representam esse ponto de vista da totalidade como sujeito na sociedade moderna (LUKÁCS, 2003, p. 107).
A totalidade não determina somente o objeto a ser estudado: o modo de produção capitalista, a luta de classes etc., determina também o próprio sujeito do conhecimento. A classe operária não é, nesta acepção, mero objeto passivo a ser apreendido pelo conhecimento, ela própria é o sujeito de tal conhecimento, podemos dizer, da consciência de classe. Lukács está neste ponto aqui fazendo uma inflexão profunda na forma de entendimento da evolução da consciência proletária ao que predominava nos meios “socialistas” de então, profundamente influenciados pela socialdemocracia e bolchevismo. Segundo estas duas ideologias, o proletariado é incapaz de, por si mesmo, chegar a uma consciência revolucionária, conseguindo, no máximo, chegar uma consciência tradeunionista, ou seja, sindicalista. Quando Lukács afirma que o sujeito do conhecimento é também o objeto, ele está a afirmar que a consciência de classe do proletariado só pode ser elaborada por este mesmo proletariado, não tendo nada a ver com isto os “intelectuais pequeno-burgueses”, segundo a proposição kautskysta-leninista. O conceito que Lukács forja para expressar esta tese é que o proletariado é o “sujeito-objeto idêntico”, ou seja, é o sujeito e o objeto do conhecimento, da consciência de classe.
Outro ponto fundamental da citação é a discussão apresentada por Lukács de que somente a classe permite a entendimento da totalidade, pois a própria classe é uma totalidade. A totalidade determina o sujeito e o objeto do conhecimento, portanto, o proletariado. Se este deseja compreender a si mesmo, ou seja, desenvolver sua consciência de classe, deve partir de sua situação de classe e de seus interesses de classe. Pois, é como classe que o proletariado afronta as relações estabelecidas. O proletário, como indivíduo, é completamente impotente diante do capital. Somente como classe, pode o proletariado questionar sua situação dentro do modo de produção capitalista. Ou seja, somente como classe em sua totalidade, pode ele questionar a totalidade do modo de produção que o alija cotidianamente.
Demonstramos no tópico anterior que o desenvolvimento da consciência de classe da burguesia só poderia culminar numa forma reificada de consciência, pois é expressão e justificação desta realidade reificada. As formas mais elaboradas de consciência: ciência, filosofia, direito etc. são também expressão desta mesma realidade reificada. Ou seja, as formas de consciência não podem ser separadas das classes que as produzem.
Viana, em seu ensaio O Que é o Marxismo?, nos dá seguinte contribuição:
Acontece que as relações entre consciência de classe e “interesse de classe” variam de acordo com as classes sociais e possuem um caráter bastante complexo depois que o interesse de classe se torna consciente. Os interesses de classe podem tanto limitar (burguesia) quanto desenvolver (proletariado) a consciência social (VIANA, 2008, p. 88).
 Novamente a consideração de que a determinação da totalidade é fundamental. Tendo-se consciência disto ou não, dependendo de onde se parta para se compreender a realidade, ou seja, se da perspectiva burguesa ou proletária, isto pode dificultar ou facilitar o desenvolvimento da consciência. Como demonstramos, analisando os aportes de Lukács, a perspectiva burguesa conduziu a antinomias insolúveis dentro de seu espectro, ao desenvolvimento do modo de pensar da ciência burguesa, expressão da realidade reificada que ela constantemente tenta justificar. Disto deriva que a perspectiva capitalista de elaboração da consciência é completamente incapaz de apreender a totalidade, a realidade social como um dado “concreto”, ou seja, como “síntese de múltiplas determinações” (Marx). Portanto, é incapaz de compreender a essência dos fenômenos sociais. É necessário, pois, inverter em 180° o ângulo de observação. Não se trata, também, de mera inversão mecânica, mas sim de introdução da totalidade como prisma a partir do qual se vê os processos sociais. Assim, trata-se de olhar a totalidade da perspectiva do proletariado, pois este, devido seus interesses de classe, tem a necessidade vital de ir além do “empírico”, do “dado”, de ir além da “aparência” dos fenômenos. Somente quando o proletariado, como classe em sua totalidade, se apresenta assim no cenário político e social, é que se aponta no horizonte histórico aquelas convulsões sociais incontroláveis e incontroladas chamadas “revolução”.
Ainda, seguindo as observações de Viana (2008), aprendemos que: a) o proletariado é uma classe social do capitalismo, tem, portanto, uma ontologia; b) a ontologia do proletariado é sua posição na divisão social do trabalho, o que lhe coloca como uma classe fundamental do modo de produção capitalista caracterizada pelo processo de produção de mais-valor; c) sua posição na divisão do trabalho e seu papel nas relações de produção o colocam obrigatoriamente e necessariamente em relação com outra classe social, a burguesia; d) esta relação é marcada pela luta, pelo conflito; e) esta luta é derivada do fato de ambas as classes apresentarem interesses de classe antagônicos; f) os interesses de classe podem ser tanto interesses imediatos, quanto interesses históricos.
Diante disto, vejamos. O proletariado tem interesses imediatos (melhorar suas condições de existência dentro do capitalismo, aumentar salário, desenvolver formas de organização que garantam que tais melhorias se efetivem, desenvolver sua consciência de classe etc.). Como interesse histórico, o proletariado tem diante de si a missão de aniquilar o modo de produção capitalista, a sociabilidade capitalista, o estado capitalista etc. e neste processo de aniquilamento das velhas relações que organizam o status quo, o proletariado deve edificar um novo modo de produção, fundado em novas relações de produção e relações sociais em sua totalidade (cultura, educação etc.). Interesses imediatos e interesses históricos não podem ser separados uns dos outros. São, na verdade, parte de um mesmo processo. O pensamento oportunista (socialdemocrata) é que efetivou tal separação. Esta, contudo, jamais deixou de existir no seio mesmo da luta proletária. Toda vez que esta emerge das cinzas das lutas passadas, converte consistentemente a luta imediata em luta histórica e os interesses históricos se tornam conscientes à medida que a luta pelos interesses imediatos vai sendo travada.
O marxismo, como uma teoria da sociedade, só pode ser compreendido dentro deste espectro de argumentação. Não é possível analisar o desenvolvimento desta forma de consciência isolando-o da constituição do proletariado. Lukács reconhece isto também. Para ele:
A continuação desse novo rumo tomado pela filosofia clássica e que começava, pelo menos no que diz respeito ao método, a apontar para além desses limites, em outras palavras, o método dialético como método da história, foi reservado à classe que estava habilitada a descobrir em si mesma, a partir do seu fundamento vital, o sujeito-objeto idêntico, o sujeito da ação, o “nós” da gênese: o proletariado (LUKÁCS, 2003, p. 308)
O materialismo histórico-dialético é uma totalidade, pois, com o proletariado. Não o proletariado “empírico”, como classe determinada pelo capital, mas sim o proletariado como classe autodeterminada[11], defendendo seus interesses de classe, organizada e conscientemente em movimento, ou seja, o proletariado revolucionário. A aplicação do método materialista exige esta perspectiva, justamente por que ele é a expressão, em termos intelectuais, deste proletariado. É impossível, pois, separar o marxismo (como método e teoria) da política como querem alguns certos acadêmicos. O marxismo só pode ser verdadeiramente aplicado ao estudo de qualquer fenômeno social se tal perspectiva estiver coerentemente em vista. Esta contribuição de História e Consciência de Classe, também observada por Korsch (1977), é elemento fundamental, não podendo nunca ser afastada da consciência, à pena de nada se compreender.
O marxismo é a doutrina das condições de libertação do proletariado (LUKÁCS, 2003), ou, segundo expressão mais de adequada de Korsch, o marxismo é a expressão teórica do proletariado revolucionário (KORSCH, 1977). O proletariado é o “sujeito-objeto idêntico”, ou seja, é o sujeito e o objeto do conhecimento, é o próprio sujeito de sua consciência. O marxismo é a expressão no plano teórico desta consciência do proletariado. A história do marxismo é a própria história do movimento operário. Engels (1981) já havia observado esta mesma relação em seu estudo “Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico”. Em que pese a linguagem de Engels seja problemática, mas  deve ser compreendida dentro do contexto no qual escreveu, ele observa que o “socialismo utópico” foi a forma de consciência possível ao proletariado no início de suas lutas. Um proletariado germinal, no início de suas lutas só poderia produzir uma forma de consciência também germinal, inicial. Os socialistas utópicos são a expressão, no plano intelectual, desta aurora do proletariado. O desenvolvimento da organização, da luta, da consciência de classe do proletariado tinha de culminar também no desenvolvimento de sua teoria, o “socialismo científico”, segundo Engels, ou, numa linguagem mais adequada, que evita confusões: o marxismo ou o materialismo histórico-dialético.
Assim, segundo Lukács, sendo o marxismo este conhecimento que parte da perspectiva do proletariado, impõe-se a seguinte conclusão: a perspectiva da totalidade. A evolução social produz em determinado momento histórico o proletariado. A evolução do proletariado como classe permite que a condição formal de seu aparecimento na história converta-se em realização concreta de sua potência, ou seja, o proletariado evoluindo de classe contra o capital a classe que se desenvolve por si mesma. Tal condição verificada no plano histórico é perceptível no desenvolvimento da teoria. De mera utopia, a luta proletária se realiza e ao se realizar, vê-se transcrita na teoria. Da utopia dos primeiros socialistas, a luta proletária conduziu à Comuna de 1871. Esta, ao ser transcrita, pode ver-se a si mesma na teoria, o marxismo. O marxismo é, pois, realização da luta proletária. De um ideal a ser alcançado, o socialismo converte-se num processo de liberação das forças já contidas nesta sociedade.
Para rematar esta questão da relação marxismo/proletariado, permita-me aqui fazer uma extensa citação. Não se trata de desperdiçar espaço, nem entulhar de citações nosso texto, mas sim demonstrar como Lukács conseguiu apreender o caráter revolucionário e engajado do marxismo.
Sendo assim, o materialismo histórico tinha para o proletariado um valor muito maior do que simplesmente o de um método de pesquisa científica. Ele era um dos mais importantes dentre todos os seus instrumentos de luta. Pois a luta de classes do proletariado significava, ao mesmo tempo, o despertar de sua consciência de classe. Mas o despertar dessa consciência apresentava-se por toda parte ao proletariado como consequência do conhecimento da verdadeira situação, do contexto histórico efetivamente existente. É isso justamente o que dá à luta de classe do proletariado sua posição peculiar entre todas as lutas de classes, ou seja, a possibilidade de ele receber, de fato, sua arma mais eficaz das mãos da verdadeira ciência, do discernimento claro da realidade. Enquanto nas lutas de classes do passado os mais diferentes tipos de ideologias, formas religiosas, morais e outras da “falsa consciência” eram decisivas, a luta de classe do proletariado, a guerra de libertação da última classe oprimida encontraram na revelação da verdade o seu grito de guerra e, ao mesmo tempo, sua arma mais poderosa. Ao mostrar as verdadeiras forças motrizes dos acontecimentos históricos, o materialismo histórico tornou-se, em virtude da situação de classe do proletariado, um instrumento de luta. A tarefa mais importante do materialismo histórico é formular um juízo preciso sobre a ordem social capitalista e desvelar sua essência. Por isso, o materialismo foi utilizado nas lutas de classe do proletariado sempre que a burguesia ornava e ocultava a situação real e o estado da luta de classes com todo tipo de elementos ideológicos, para iluminar esses véus com os raios frios da ciência, para mostrar quão falsos e enganosos eles eram e até que ponto podiam contradizer a verdade. Assim, a função mais nobre do materialismo histórico não podia residir no conhecimento científico puro, mas no fato de ser um ato. O materialismo histórico não era um fim em si mesmo, era um meio que permitia ao proletariado esclarecer uma situação e, nessa situação claramente conhecida, agir corretamente de acordo com sua situação de classe (LUKÁCS, 2003, p. 415/416) (grifos meus).

A revolução proletária: consciência de classe e organização revolucionária
Como estamos observando, História e Consciência de Classe não é um livro vulgar. A história da assim chamada “esquerda” está repleta de manuais, textos simplórios, vulgares sobre o marxismo. A deformação das teses marxistas é a consequência necessária desta vulgarização da teoria. O marxismo, de teoria da luta revolucionária do proletariado converteu-se nos labirintos das ideologias do século XX em mera justificação do status quo. História e Consciência de Classe não está entre estas simplificações.
Há no jovem Lukács uma compreensão profunda do caráter revolucionário do materialismo histórico, bem como o entendimento de que a dialética e o proletariado revolucionário são uma unidade. O “sujeito-objeto idêntico” do conhecimento é, sobretudo, o “sujeito-objeto idêntico” da ação. Consciência de classe e classe social não podem ser separadas, exceto em procedimentos ideológicos, tal como fazem a ciência burguesa (que separa sujeito e objeto do conhecimento) e o marxismo vulgar (que, entre outras coisas, separa dialética de socialismo).
No jovem Lukács, estas separações não tem lugar. Se o proletariado é o sujeito e o objeto de sua consciência, onde podemos aperceber sua materialização? O proletariado, enquanto classe determinada pelo capital não expressa seus interesses de classe e, consequentemente, também não desenvolve sua consciência enquanto consciência de classe. Neste nível, do ponto de vista da consciência, poderíamos dizer que o proletariado, melhor dizendo, os indivíduos proletários tem uma “consciência psicológica” de sua situação. Esta consciência psicológica é aquela que expressa a realidade reificada da sociedade capitalista. O proletariado, como classe determinada pelo capital tem uma consciência reificada de sua situação.
Contudo, o que caracteriza a existência do proletariado é sua situação de classe e esta necessariamente é conflituosa. Devido sua posição na divisão social do trabalho, seus interesses, as condições de trabalho, as condições de vida etc. o proletariado é constrangido a reagir. Os proletários não querem a luta, não desejam entrar em conflitos que consumirão suas energias, seus parcos recursos, seu tempo e sua vitalidade, às vezes suas próprias vidas. A reação, a resistência é uma imposição que a totalidade da realidade reificada do capitalismo impõe ao proletariado. Um indivíduo proletário diante do capital não expressa qualquer ameaça. Por mais raivosa que seja determinada reação de um proletário qualquer, esta reação será completamente impotente e culminará em fracasso para aquele que a empreende. Isoladamente, um proletário nada significa em termos de luta e resistência. Assim, a própria situação de classe do proletário o constrange a agir coletivamente. Esta determinação da luta proletária é uma característica que o modo de produção capitalista generaliza nos lugares onde se instala.
A luta proletária é, pois, essencialmente coletiva. E isto não é algo que o indivíduo x ou o indivíduo y escolha fazer, é algo que a própria situação de classe impõe ao conjunto dos indivíduos proletários. Ou agem coletivamente ou naufragam isoladamente. Esta é a única alternativa que resta ao proletariado. Este, quando se coloca em ação, deixa de ser classe determinada pelo capital e passa a ser classe autodeterminada, ou seja, que defende seus interesses de classe (imediatos e históricos). Isto implica que a ação do proletariado é uma ação de classe (totalizante). O proletariado aspira, pois, a totalidade da sociedade capitalista. Enquanto totalidade, ou seja, enquanto classe, age em direção à totalidade do conjunto da sociedade.
Enquanto classe determinada, a ação proletária implica no desenvolvimento da consciência proletária. Sendo ele o sujeito e o objeto da ação e do conhecimento, ou seja, o “sujeito-objeto idêntico”, o proletariado ao se organizar e agir em seu próprio interesse, desenvolverá também a consciência que corresponde a este tipo de ação e organização. Na verdade, seria equivocado dizer que primeiro desenvolve a organização e esta determina o desenvolvimento da consciência. O processo não é mecânico e automático desta maneira. O que se verifica realmente é a unidade entre ser e consciência, ou seja, entre classe operária e consciência de classe operária. Enquanto o proletariado dormita, sendo esmagado cotidianamente pelo capital, sua consciência de classe também desvanece, ficando restrita ao nível da “consciência psicológica”, para utilizar expressão de Lukács. À medida que consegue se colocar diante de seus oponentes como classe independente, este processo ocorre simultaneamente via organização e consciência da organização. Organização e consciência da organização e dos interesses de classe se colocam no conjunto das lutas sociais, definindo o proletariado como ser consciente, como “sujeito-objeto idêntico”. Assim, não há separação entre as duas coisas, que são em verdade uma única coisa, o proletariado enquanto ser ativo e autodeterminado.
O proletariado como classe determinada pelo capital não expressa, portanto, seus interesses, logo, não expressa também sua consciência de classe. Dizer que o proletariado é classe determinada, significa afirmar que ele é organizado para e pelo capital. Este é o cotidiano da vida no capitalismo. Enquanto classe submetida e conformada com seu status e situação, o proletariado está fadado a reproduzir as relações que o degradam. A organização da produção dentro de uma fábrica, ou melhor, dentro de todas as fábricas é expressão deste caráter determinado do proletariado enquanto classe que não expressa seus interesses. Mas esta mesma lógica que é observável no campo da produção propriamente dita, expande-se para o conjunto da vida social, determinando a política, a cultura, o consumo, os lazeres etc. Naturalmente que saindo da esfera produtiva, este caráter reificado, para utilizar expressão de Lukács, da realidade atinge não só o proletariado, mas um conjunto de outras classes também (campesinato, trabalhadores domésticos, intelectuais, lumpemproletários etc.). A totalidade, portanto, da sociedade capitalista expressa os interesses de classe da burguesia e de suas classes auxiliares. Assim, poderíamos dizer que no capitalismo, a classe autodeterminada é a burguesia. A organização da produção, a consciência cotidiana, as ideologias, as instituições etc. expressam seus interesses de classe e ela luta com todas as armas de que dispõe (materiais e intelectuais) para perpetuar seu status de classe autodeterminada, ou seja, que age em seu próprio interesse. A organização da fábrica, do Estado, das demais instituições (escolas, partidos, sindicatos, igrejas, organizações não governamentais, empresas comerciais, bancos etc.) reproduzem conscientemente ou inintencionalmente o status quo.
Vê-se, deste modo, que a questão da consciência de classe não é algo arbitrário e que se expressa de qualquer forma, a qualquer momento e em qualquer lugar. Trata-se de uma forma de consciência que necessita de uma certa materialidade onde possa se operar. A consciência de classe da burguesia como classe autodeterminada é expressa em suas instituições. Melhor, por meio destas instituições ela consegue fazer valer seus interesses de classe conscientemente concebidos.
Onde se expressa a consciência de classe do proletariado? Quando classe determinada, ele está organizado pelo capital, quando classe autodeterminada, ele está organizado também, mas agora de maneira independente, autônoma, contra o capital. Quais são as organizações que o proletariado desenvolveu para fazer valer seus interesses de classe? Como Lukács responde esta questão?
Segundo Lukács:
No entanto, na unidade dialética da teoria e da práxis, que Marx reconheceu e descreveu na luta emancipatória do proletariado, não pode haver uma simples consciência, nem como “pura” teoria, nem como simples exigência, como simples dever ou norma de ação. A exigência também tem sua realidade. Isto é, o nível do processo histórico que imprime à consciência de classe do proletariado um caráter de exigência, um caráter “latente e teórico”, deve se transformar em realidade correspondente e, enquanto tal, intervir de maneira ativa na totalidade do processo. Essa forma da consciência de classe proletária é o partido (LUKÁCS, 2003, p. 127) (grifos meus).
E linhas à frente, ele afirma:
Nesse processo, que o partido não pode nem provocar, nem evitar, cabe, portanto, ao partido o papel elevado de ser o portador da consciência de classe do proletariado, a consciência de sua missão histórica (LUKÁCS, 2003, p. 128) (grifos no original).
Lukács não deixa de observar o processo mais ou menos espontâneo da luta de classe revolucionária do proletariado. Ao analisar a concepção de Rosa Luxemburgo sobre a relação organização/espontaneidade, apresenta a tese de que não compete ao partido organizar a revolução (tal como defende o marxismo vulgar), mas sim que a expressão da organização revolucionária é o partido. Ele está aqui, naturalmente, operando com os dilemas de Rosa Luxemburgo e ele parece partilhar tais dilemas, mas se posicionando claramente com relação ao papel desta organização como sendo aquela capaz de ser a expressão dos interesses de classe do proletariado. Para Lukács, portanto, proletariado como classe autodeterminada e partido político são uma única e mesma coisa, pois este é o portador da consciência daquela e a consciência de classe, como já observamos, é o proletariado organizado como classe e em luta em defesa de seus interesses.
Lukács defende esta tese em todos os artigos do livro, desde os escritos em 1919, até os de 1922. Que momento histórico é este para a luta proletária? O fim da Primeira Guerra Mundial implicou numa sublevação proletária à escala do continente europeu. Significou, é verdade, o ressurgimento do movimento operário revolucionário desde os escombros da Comuna de Paris de 1871. Foram necessários ao proletariado quase 50 anos para que se recolocasse novamente no conjunto das lutas sociais como classe autodeterminada, encaminhando processos radicais de enfrentamento com a burguesia e as forças do Estado.
No contexto das lutas do início do século XX, o debate que se apresentava no continente europeu à classe operária era a relação entre as organizações da classe operária e as organizações que a representavam (partidos políticos de esquerda e sindicatos). Estas duas organizações se colocavam no campo político das lutas proletárias como o Estado se coloca para a burguesia, ou seja, como a organização política necessária para a defesa de seus interesses de classe. O debate entre proletariado auto-organizado e partidos políticos e sindicatos foi deveras encarniçado. As revoluções deste período, ou seja, a Revolução Russa (1917-1921), a Revolução Alemã (1918-1923), a Revolução Húngara (1919), a Revolução Italiana (1919) etc. são a expressão mais radicalizada do proletariado agindo como classe autodeterminada, ou seja, a partir de suas próprias organizações, defendendo seus próprios interesses.
Dentro destas revoluções, se acentuou o debate em torno da natureza das organizações partidárias. Primeiramente o partido socialdemocrata, que já vinha sendo criticado a bastante tempo, sendo o cisma de 1914 na socialdemocracia alemã a expressão mais acabada da degeneração desta organização, e em seguida o bolchevismo, que só será plenamente desmascarado no decorrer da década de 1920). Além do debate sobre a organização partidária, também os sindicatos passaram a ser objeto de inúmeras críticas, pois se colocavam, geralmente, em oposição ao proletariado quando agia sem o consentimento e muitas vezes a pesar das determinações dos sindicatos.
O que o proletariado desenvolveu como forma de organização que expressasse sua consciência de classe foram os conselhos operários ou como eram conhecidos na Rússia, os soviets. Os soviets ou conselhos foram a forma de auto-organização que o proletariado desenvolveu ao longo de suas lutas. Esta forma de organização, expressão da consciência de classe do proletariado criou situações políticas em Europa que fugiam completamente ao controle das instituições burguesas (Estado, polícia, sindicatos etc.). As revoluções que convulsionaram o mundo por anos seguidos tiveram nestas organizações o esteio, a base, o alicerce no qual o proletariado fazia valer seus interesses de classe, ou seja, manifestava sua consciência de classe.
Este debate não podia passar ao largo das observações de Lukács, que, como disse ele próprio no prefácio de 1922, os ensaios presentes em História e Consciência de Classe são o resultado de trabalho partidário, de militância política. Lukács esteve diretamente envolvido nos levantes operários na Hungria, também em Alemanha etc. O movimento socialista europeu se debatia com esta questão: partidos e sindicatos ou conselhos operários?
Como vimos, Lukács apresentou sua concepção. Para ele, o modo de manifestação da consciência de classe do proletariado é o partido político, o portador da consciência revolucionária. Contudo, sua posição com relação a isto, apresenta certa ambiguidade, pois ele também defendia que:
O conselho operário revolucionário, que nunca deve ser confundido com sua caricatura oportunista, é uma das formas pelas quais a consciência da classe proletária lutou incessantemente desde seu nascimento. Sua existência, seu desenvolvimento permanente mostram que o proletariado já está no limiar de sua própria consciência e, assim, no limiar da vitória. Com efeito, o conselho operário é a superação econômica e política da reificação capitalista. Assim como, na situação posterior à ditadura, ele deve superar a divisão burguesa de legislação, administração e jurisdição, na luta pelo poder ele é chamado a reunir, de um lado, a fragmentação espacial e temporal do proletariado e, de outro, a economia e a política, numa unidade verdadeira da dialética entre interesse imediato e objetivo final (LUKÁCS, 2003, p. 190/191) (grifos meus).
Ou seja, aqui não é mais o partido o portador da consciência de classe do proletariado, mas sim uma outra organização, o conselho operário. Nesta acepção, afirma Lukács que a organização necessária do proletariado que porá fim ao capitalismo são os conselhos operários. Conselhos e partido se excluem mutuamente. Ao que indica, a interpretação de Lukács não concebe a questão desta forma. No artigo “Notas críticas à Crítica da Revolução Russa de Rosa Luxemburgo”, este escrito já em 1922, ou seja, quando Partido Comunista Russo já havia se estabelecido no poder, Lukács apresenta uma tese, no mínimo confusa. Para ele: “O controle consciente e organizado da ordem econômica só pode ser efetuado conscientemente, e o órgão de sua efetuação é justamente o Estado proletariado (sic), o sistema dos sovietes” (LUKÁCS, 2003, p. 505) (grifos meus). Ele tem em mente aqui, obviamente, que o que se passava na Rússia era a vitória do proletariado, a primeira revolução gloriosa. As informações sobre o que ocorria na Rússia eram escassas e o bolchevismo se apresentava ao mundo como uma organização efetivamente proletária. Nesta acepção, sua tese de que o “Estado Proletário” russo efetivamente conduzia o proletariado ao estabelecimento do comunismo é algo aceitável tendo em vista o contexto histórico[12].
Contudo, acreditamos que este é somente uma parte da verdade para explicar esta fé e esta confusão de Lukács no partido político e sobretudo, acreditar que havia em Rússia um Estado proletário e que este era o “sistema de sovietes”. Lukács não percebia até este momento a total contradição nos termos entre Estado e conselhos operários, tomava um pelo outro. Neste campo, Lukács acabou por reproduzir os limites da consciência reificada que ele tanto se esforçou em criticar. Mas para além deste aspecto, pesa na explicação um elemento muito mais importante: a perspectiva de classe.
Utilizando o próprio procedimento de Lukács, ou seja, de aplicar o materialismo histórico a ele mesmo, chega-se á seguinte conclusão. Lukács, por ser membro do Partido Comunista Húngaro, por estar envolvido nos debates comuns ao partido naquele momento, pelo contexto histórico ser marcado por um avanço ainda sem precedentes na luta operária, ou seja, pela emergência de movimentos revolucionários em vários países etc. expressará este conjunto de conflitos e contradições.
O primeiro problema na leitura lukasiana é não distinguir o partido como sendo uma organização que não expressa os interesses de classe do proletariado, nem muito menos foi elemento de desenvolvimento dos soviets na Rússia e dos conselhos em Alemanha, Hungria etc. O partido político, já nessa época (uma socialdemocracia degenerada e desacreditada e um bolchevismo caminhando a passos largos rumo à degeneração) se colocava como instituição no interior da sociedade capitalista. O desenvolvimento dos partidos políticos desde fins do século XIX significou um aumento na divisão social do trabalho e o fortalecimento de uma classe social específica: a burocracia partidária[13]. As ideologias socialdemocratas (já criticadas por Lukács como sendo um marxismo vulgar) e bolchevique (que ele identifica como um autêntico marxismo) justificam e dão sentido aos interesses de classe da burocracia partidária. Assim, quando Lukács defende que o partido é o portador da consciência de classe do proletariado, está aí a confundir a consciência de classe do proletariado com a consciência de classe da burocracia. Ao afirmar que Estado proletário e sistema de sovietes se equivalem, está a confundir os interesses de classe da burocracia com os do proletariado. Uma leitura marxista do marxismo de Lukács tem de conduzir a esta conclusão.
O contexto histórico explica, portanto, somente parte dos equívocos de Lukács. A outra parte deve ser atribuída a esta perspectiva de classe burocrática que ele não conseguiu romper neste momento de ascensão da luta revolucionária e que com o refluxo das revoluções operárias tornou mais claro ainda esta concepção de Lukács, pois aderiu totalmente ao bolchevismo. A defesa do partido e Estado proletário como equivalentes a soviets atesta seus erros de interpretação. E estes demonstram, sobretudo, o lugar de onde ele fala, ou seja, o ponto de vista de classe que ele inintencionalmente acaba por expressar. Este ponto de vista de classe fica ainda mais claro em seu posfácio de 1967, sua autocrítica, que abordaremos agora.

Últimas palavras (a autocrítica)
Em 1967, num famoso prefácio a História e Consciência de Classe, Lukács conclui assim sua apreciação sobre o livro: “(...) considero História e Consciência de Classe um livro errôneo” (LUKÁCS, 2003, p. 49). Onde se situam os erros? Quais erros são estes? Por que Lukács apresenta tão drástica apreciação sobre um de seus livros mais influentes?
Seu biógrafo Lichtheim (s/d) faz a seguinte afirmação:
Tão logo arrefeceu a tempestade que desabara sobre História e Consciência de Classe, Lukács começou a aparecer sob o disfarce de um perfeito marxista-leninista ortodoxo, que se havia recuperado de suas aberrações “idealistas”. Um estudo apreciativo de Lênin (1924) foi seguido de uma cautelosa revisão crítica da obra de Bukharin sobre o materialismo histórico (1925) e por duas compridas e doutas resenhas-ensaios sobre Lassalle (1925) e Moses Hess (1926) (...) (LICHTHEIM, s/d, p. 73).
Se Lukács anuncia claramente em 1967 que História e Consciência de Classe é fundado em erros, já em 1924, ou seja, um ano após a publicação do livro, já fazia estudos que contraditavam com as teses de seu livro de 1923. Se até 1923 Lukács tinha uma relação ambígua com o leninismo, pois influenciado em grande medida pelas teses luxemburguistas, após este momento, adere indiscriminadamente ao “marxismo-leninismo ortodoxo”, segundo expressão de seu biógrafo. Ortodoxo aqui não tem, naturalmente, o mesmo sentido da palavra “ortodoxo” em seu ensaio de 1919, contido em História e Consciência de Classe: “O que é o marxismo ortodoxo”. Neste ensaio, o termo “ortodoxo” remete à aceitação do método dialético como correto e na constatação de que toda tentativa em superá-lo, significou retrocessos em relação aos patamares já alcançados. A adoção do “marxismo-leninismo” significa o abandono deste ponto de vista, pois tal ideologia representa uma das principais deformações do marxismo, passando como atualizações e aperfeiçoamentos.
O prefácio de 1967 é breve e sintético. Constitui em sublinhar os pontos com os quais Lukács discorda de seus posicionamentos de juventude. Dentre os vários pontos mencionados por ele neste prefácio, descaremos dois, que nos parece ilustrativo da influência que o pensamento burocrático passam a ter em suas concepções e os quais História e Consciência de Classe representava uma certa rejeição. Tal rejeição, como já notamos, é ambígua, pois, efetivamente ele nunca conseguiu se livrar das teses partidárias, portanto, burocráticas.
Recusa seu conceito de “sujeito-objeto idêntico”. O abandono desta concepção significa que Lukács adere às teses políticas típicas do leninismo. Como demonstramos ao longo deste ensaio, a defesa de que o proletariado é o sujeito e objeto do conhecimento e da ação de conhecer, significa reconhecer que nenhuma outra classe social fará isto por ele. Nisto, enquanto classe, o proletariado está só e deve levar a cabo esta tarefa a despeito de tudo o mais. O conceito de “sujeito-objeto idêntico” significa também que o proletariado deve desenvolver suas próprias formas de organização, meios a partir dos quais o proletariado efetivará sua consciência de classe defendendo conscientemente seus interesses de classe. A recusa deste conceito significa que o proletariado é incapaz de levar a cabo, de forma independente, as suas próprias lutas, com suas próprias organizações, desenvolvendo sua própria consciência de classe. No Prefácio, Lukács não afirma isto com todas as letras, mas esta é a conclusão lógica a que se chega quando se apercebe do significado político da rejeição de tal conceito.
Um segundo ponto, em relação com o primeiro, mas de caráter mais metodológico, também revela a guinada de Lukács rumo ao leninismo. Uma de suas grandes contribuições em História e Consciência de Classe é situar metodologicamente e politicamente o sentido da categoria totalidade. Esta assume, ao longo do livro, um significado todo especial, chegando a galgar o status de elemento diferenciador do marxismo em relação às ciências burguesas e ao marxismo vulgar. Ou seja, o que distingue o marxismo das ciências burguesas não é a primazia da economia sobre o resto da sociedade, mas sim, o ponto de vista da totalidade. Ele abandona totalmente esta concepção, afirmando que é por demais exagerada e acusa-se a si mesmo de hegeliano. Isto significa uma adesão às teses economicistas/mecanicistas típicas do leninismo na explicação dos fenômenos sociais.
A explicação para isto só pode ser uma: à medida que a luta de classe proletária avança e se radicaliza, o marxismo também avança e se radicaliza. À medida que a luta de classes reflui e o proletariado cai no ostracismo, o marxismo tende a se ossificar e tornar-se ideologia (falsa consciência). Este procedimento é executado por Lukács em História e Consciência de Classe, ou seja, aplicar o marxismo a ele próprio. Contudo, fazendo a mesma coisa com o desenvolvimento intelectual e político de Lukács percebe-se que ele estava completamente certo quando defendeu tal tese em sua juventude e as mudanças de opinião ao longo de sua trajetória só demonstram a veracidade destas teses.
O que nos é possível demonstrar pela evolução das ideias do autor e da luta de classe proletária é que Lukács avançou o máximo que conseguiu quando o proletariado estava armado e em luta. Quando este refluiu, Lukács também o fez e nunca mais voltou a se radicalizar novamente, mesmo quando o proletariado voltou à cena política. Isto demonstra o quanto esteve embrenhado no pensamento burocrático desde que História e Consciência de Classe veio a lume.

REFERÊNCIAS

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LENIN, W. I. O esquerdismo, doença infantil do comunismo. São Paulo: Escriba, 1960.
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MARX, K & ENGELS, F. Cartas filosóficas e o Manifesto Comunista de 1848. São Paulo: Moraes, 1987.

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VIANA, N. O que é marxismo. Rio de Janeiro: Elo, 2008b.


Resumo
A obra História e Consciência de Classe de George, publicada em 1923 é um importante livro na história do pensamento marxista. O livro consiste de ensaios escritos de 1919 a 1922. Este livro é conhecido como uma das obras de juventude de Lukács. Esta obra difere radicalmente de seus escritos antes de sua adesão ao marxismo, bem como dos textos subsequentes à História e Consciência de Classe, que se filiam ao “marxismo”-leninismo. Este ensaio objetiva discutir o significado político deste livro para o entendimento da questão da luta política do proletariado, suas organizações e a questão da consciência de classe, demonstrando como estes elementos são inextrincáveis do marxismo, ou seja, do materialismo histórico-dialético. A análise fundamenta-se unicamente no exame dos ensaios deste livro, não adentrando em outras obras, o que tornaria a consecução do artigo inviável. As conclusões a que chegamos é que este livro de Lukács trás importantes contribuições ao entendimento do materialismo histórico e à luta de classes do proletariado, ao mesmo tempo que carrega importantes ambiguidades e limitações. Este ensaio visa explicitá-las.
Palavras-chave: George Lukács; História e Consciência de Classe; marxismo; proletariado.

Abstract
The work "History and Class Consciousness", published in 1923 is an important book in the history of Marxist thought. The book consists of essays written from 1919 to 1922. This book is known as one of Lukacs's early works. This work differs radically from his writings before his adherence to Marxism and subsequent texts to History and Class Consciousness, which adhere to "Marxism"-Leninism. This paper discusses the political significance of this book to understand the issue of the proletarian political struggle, their organizations and the question of class consciousness, showing how these elements are inextricable from Marxism, that is, the historical and dialectical materialism. This analysis is based solely on the examination of the essays in this book, without discussing his other works. The conclsusions we have reached is that this Lukacs book holds important contributions to the understanding of historical materialism and the proletarian class struggle, while it carries important ambiguities and limitations. This paper aims to clarify them.
Key words: George Lukács; History and Class Consciousness; marxism; proletariat.





* Doutor em Sociologia pela UnB; Professor da Faculdade de Ciências Sociais da UFG – Universidade Federal de Goiás.
[1] Professor do Instituto Federal de Goiás/Campus Aparecida de Goiânia. Doutor em Geografia pela Universidade Federal de Goiás.
[2] Para tanto, recomendamos Lichtheim (s/d). Em que pese seja obra introdutória, dá uma visão da totalidade do pensamento de Lukács.
[3] Segundo Lukács: “Esse método, em sua essência mais íntima, é histórico. Por conseguinte, é preciso aplicá-lo continuamente a si mesmo, e esse é um dos pontos essenciais desses ensaios” (LUKÁCS, 2003, p. 54).
[4] Este não é o caso da totalidade de autores ligados ao marxismo, principalmente aqueles ligados ao que Lênin (1960) qualificou de “Esquerdismo”, entre os quais Anton Pannekoek, Otto Rühle, Herman Gorter etc.
[5] Estes foram escritos exclusivamente para o livro.
[6] Esta análise é desenvolvida por Marx (1983) quando discute o desenvolvimento da divisão do trabalho, ou seja, da cooperação à manufatura e à maquinofatura. Lukács retoma esta análise de Marx e a desenvolve em História e Consciência de Classe a fim de fundamentar sua tese de reificação da sociedade capitalista.
[7] É necessário analisar tal afirmação de maneira crítica, pois a divisão do trabalho capitalista produz um conjunto de classes típicas da sociedade capitalista. A constituição do estado moderno, por exemplo, produz uma burocracia estatal marcada por um conjunto de estratificações e frações que não são observadas em outros modos de produção. Da mesma forma, o desenvolvimento da acumulação capitalista gera um “exército industrial de reserva”, um lumpemproletariado que é típico do modo de produção capitalista etc.
[8] Neste ponto de sua analise, contudo, Lukács não conseguiu identificar o verdadeiro problema relacionado ao marxismo vulgar, que é o caráter de classe desta ideologia. Como demonstraremos mais à frente, o marxismo vulgar não deriva de erro de interpretação ou equívocos teóricos, mas expressa interesses determinados, sobretudo da burocracia partidária (socialdemocrata e bolchevique). Lukács, em parte devido ao contexto histórico no qual escreveu Histórica e Consciência de Classe, mas sobretudo devido seu não rompimento definitivo com as organizações partidárias, não conseguiu perceber que a base social do marxismo vulgar é a burocracia partidária e esta elabora tal ideologia. Deriva daí que sua crítica o marxismo vulgar restringe-se à socialdemocracia, não avançando em direção ao bolchevismo.
[9] Aprofundamento sobre isto, cf. por exemplo, (MARX, 1987)
[10] Karl Korsch defende tese semelhante em seu Marxismo e Filosofia, também publicado em 1923. Para Korsch (1977), o marxismo é a “expressão teórica do proletariado”. A definição de Korsch por utilizar o termo teoria e não doutrina acaba por se configurar como mais adequada.
[11] Para uma discussão sobre o conceito de classe determinada e autodeterminada, cf. (VIANA, 2012)
[12] Embora isto não se passasse com outros autores, entre eles Otto Ruhle, Herman Gorter, Anton Pannekoek etc.
[13] Para uma discussão sobre isto cf. Maia (2011) e Viana (2012).
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Publicado originalmente em:
Revista Sociologia em Rede, vol. 5 num. 5 2015
http://redelp.net/revistas/index.php/rsr/article/view/6maia5/258