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sábado, 25 de janeiro de 2020

MARX COMO SALVAGUARDA PARA LÊNIN



MARX COMO SALVAGUARDA PARA LÊNIN*

Paresh Chattopadhyay

Lemos com grande interesse o artigo acadêmico “Em defesa do leninismo”, de Murzban Jal (EPW, 1 de janeiro de 2011). Ele oferece um grande número de questões em seu discurso erudito, algumas das quais não temos competência para discutir. Há também outras coisas, como centralismo democrático, comunistas indianos etc., que não nos interessam terrivelmente. Particularmente, o centralismo democrático é assunto interno do Partido; deixa completamente de lado a questão infinitamente mais importante da democracia em geral para o povo trabalhador e a sociedade como um todo. Os comunistas da Índia (o seu establishment) nos interessam minimamente. Então, seremos muito seletivos.

A primeira coisa que nos impressiona é que, em um artigo ostensivamente dedicado ao leninismo, e não às suas origens, Lênin é muito menos presente que Marx. Logo no início, nosso estudioso declara que, na posição leninista, “organização e massas são sintetizadas como a ‘união de indivíduos livres’ ”. Esta é uma afirmação surpreendente que, ele parece pensar, não requer nenhuma demonstração, como suas muitas outras proposições que abordamos abaixo.

Agora, a expressão “socialismo”, entre aspas, própria do marxismo, é apenas outro nome para a sociedade antevista por Marx. O significado claramente emancipatório do socialismo não está em nenhum lugar – até onde sabemos – na obra em Lênin, que usa, todavia, os termos “socialismo” ou “comunismo”. Nosso estudioso analisou e desvalorizou enormemente a mensagem emancipatória de Marx. E ele segue esse método durante todo o seu ensaio. Ele cita algumas das frases leninistas libertárias que Lênin pronunciou em abril de 1917 algumas poucas vezes. Mas, na maioria das vezes, o autor cita textualmente apenas Marx, deixando a impressão de que a posição de Lênin era a mesma que a de Marx. Nenhuma demonstração parece ser necessária. E ele quase nunca se refere à prática política leninista para mostrar sua concordância com as “palavras, palavras e palavras” de Lênin.

Vamos examinar o artigo um pouco mais de perto. Nosso autor gosta de lembrar o leitor da preocupação de Lênin com os “marxistas” por não terem “entendido Marx”. Mas não temos evidências de que o próprio Lênin tenha entendido Marx.

De fato, existem contraexemplos claros que mostram que Lênin leu suas próprias ideias nos textos que ele cita de Marx. Isso é claramente visto, por exemplo, quando se lê cuidadosamente lado a lado (palavra por palavra) os próprios textos de Marx – não apenas a citação de Lênin – junto com os de Lênin na Comuna de 1871. Mas o lugar mais importante para ver a deformação de Lênin do texto de Marx é seu retrato da primeira fase do comunismo de Marx em O Estado e a Revolução, que quase toda a esquerda vê erroneamente como uma brochura libertária[1].

Em resumo, ao manipular o texto de Marx de 1871, Lênin introduz “estado” e “trabalho assalariado” no que ele chama de “socialismo”[2]. Em seguida, nosso autor promete mostrar (“mostraremos”) que “o ditado leninista ‘para tratar a insurreição como uma arte’ será o resultado lógico da ideia de comunismo do jovem Marx como humanismo e naturalismo”. Infelizmente, ele nunca “mostra” isso. Novamente, a distinção entre a intelligentsia radical e as massas operárias, como o autor nos lembra corretamente, era de fato originalmente uma ideia de Kautsky que aparece no panfleto de Lênin “Que Fazer?”.

No entanto, supondo que essa ideia fosse posteriormente inaceitável para Lênin, por que ele não a tornou parte de sua crítica a esse horrível “renegado”?[3] De fato, Lênin não rejeitou todas as ideias de Kautsky, incluindo as basicamente erradas do ponto de vista de Marx. Lênin os herdou, e eles permaneceram parte de sua bagagem até o fim.

E nosso autor também deixa de lado esse último aspecto de Lênin, pois ele quer mostrar total concordância entre as ideias de Marx e as do leninismo. A prática geral de nosso autor é se referir às ideias emancipatórias de Marx, mas a todo momento se abstém de tentar demonstrar sua relevância para a posição de Lênin.

Por fim, o autor faz a afirmação surpreendente de que “a revolução proletária só é possível se forem entendidos os rigores dos contornos filosóficos do marxismo, especialmente a transição de Kant para Hegel”. Em outras palavras, ele quer que o proletariado suba ao seu próprio nível de aprendizado antes mesmo de pensar na revolução. De acordo com o que sabemos, Marx nunca julgou necessário esse fator de conhecimento, como uma condição de sucesso da revolução proletária. Lênin o fez?


* Tradução de Antônio Blin.
[1] Uma análise crítica da deformação leninista do pensamento de Marx sobre a Comuna de Paris pode ser vista em: VIANA, Nildo. Comuna de Paris: Interpretações e Perspectiva de Classe. In: https://www.academia.edu/2402711/Comuna_de_Paris_Interpreta%C3%A7%C3%B5es_e_Perspectiva_de_Classe (Nota do tradutor).
[2] Sobre isso veja o texto acima citado de Viana e também a análise da concepção de socialismo em Marx e Lênin realizada pelo próprio autor em O Conteúdo Econômico do Socialismo em Marx é o mesmo que em Lênin? Disponível em: http://redelp.net/revistas/index.php/enf/article/view/941/pdf_58
[3] Referência do autor ao livro de Lênin, A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky, pois o discípulo rompe com o mestre apenas parcialmente. Uma análise crítica disso pode ser vista no texto de Jean Barrot, O Renegado Kautsky e seu Discípulo Lênin, em:

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

O SONHOS DOS RATOS

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O SONHOS DOS RATOS

Rubem Alves

Era uma vez um bando de ratos que vivia no buraco do assoalho de uma casa velha. Havia ratos de todos os tipos: grandes e pequenos, pretos e brancos, velhos e jovens, fortes e fracos, da roça e da cidade.

Mas ninguém ligava para as diferenças, porque todos estavam irmanados em torno de um sonho comum: um queijo enorme, amarelo, cheiroso, bem pertinho dos seus narizes. Comer o queijo seria a suprema felicidade…Bem pertinho é modo de dizer.

Na verdade, o queijo estava imensamente longe porque entre ele e os ratos estava um gato… O gato era malvado, tinha dentes afiados e não dormia nunca. Por vezes fingia dormir. Mas bastava que um ratinho mais corajoso se aventurasse para fora do buraco para que o gato desse um pulo e, era uma vez um ratinho…Os ratos odiavam o gato.

Quanto mais o odiavam mais irmãos se sentiam. O ódio a um inimigo comum os tornava cúmplices de um mesmo desejo: queriam que o gato morresse ou sonhavam com um cachorro…

Como nada pudessem fazer, reuniram-se para conversar. Faziam discursos, denunciavam o comportamento do gato (não se sabe bem para quem), e chegaram mesmo a escrever livros com a crítica filosófica dos gatos. Diziam que um dia chegaria em que os gatos seriam abolidos e todos seriam iguais. “Quando se estabelecer a ditadura dos ratos”, diziam os camundongos, “então todos serão felizes”…
– O queijo é grande o bastante para todos, dizia um.
– Socializaremos o queijo, dizia outro.
Todos batiam palmas e cantavam as mesmas canções.
Era comovente ver tanta fraternidade. Como seria bonito quando o gato morresse! Sonhavam. Nos seus sonhos comiam o queijo. E quanto mais o comiam, mais ele crescia. Porque esta é uma das propriedades dos queijos sonhados: não diminuem: crescem sempre. E marchavam juntos, rabos entrelaçados, gritando: “o queijo, já!”…
Sem que ninguém pudesse explicar como, o fato é que, ao acordarem, numa bela manhã, o gato tinha sumido. O queijo continuava lá, mais belo do que nunca. Bastaria dar uns poucos passos para fora do buraco. Olharam cuidadosamente ao redor. Aquilo poderia ser um truque do gato. Mas não era.

O gato havia desaparecido mesmo. Chegara o dia glorioso, e dos ratos surgiu um brado retumbante de alegria. Todos se lançaram ao queijo, irmanados numa fome comum. E foi então que a transformação aconteceu.

Bastou a primeira mordida. Compreenderam, repentinamente, que os queijos de verdade são diferentes dos queijos sonhados. Quando comidos, em vez de crescer, diminuem.

Assim, quanto maior o número dos ratos a comer o queijo, menor o naco para cada um. Os ratos começaram a olhar uns para os outros como se fossem inimigos. Olharam, cada um para a boca dos outros, para ver quanto queijo haviam comido. E os olhares se enfureceram.

Arreganharam os dentes. Esqueceram-se do gato. Eram seus próprios inimigos. A briga começou. Os mais fortes expulsaram os mais fracos a dentadas. E, ato contínuo, começaram a brigar entre si.

Alguns ameaçaram a chamar o gato, alegando que só assim se restabeleceria a ordem. O projeto de socialização do queijo foi aprovado nos seguintes termos:

“Qualquer pedaço de queijo poderá ser tomado dos seus proprietários para ser dado aos ratos magros, desde que este pedaço tenha sido abandonado pelo dono”.

Mas como rato algum jamais abandonou um queijo, os ratos magros foram condenados a ficar esperando. Os ratinhos magros, de dentro do buraco escuro, não podiam compreender o que havia acontecido.

O mais inexplicável era a transformação que se operara no focinho dos ratos fortes, agora donos do queijo. Tinham todo o jeito do gato o olhar malvado, os dentes à mostra.

Os ratos magros nem mais conseguiam perceber a diferença entre o gato de antes e os ratos de agora. E compreenderam, então, que não havia diferença alguma. Pois todo rato que fica dono do queijo vira gato. Não é por acidente que os nomes são tão parecidos.

“Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência!”

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

PRÁTICA, IDEOLOGIA E AUTONOMIA OPERÁRIA ENTREVISTA COM JOÃO BERNARDO




PRÁTICA, IDEOLOGIA E AUTONOMIA OPERÁRIA
ENTREVISTA COM JOÃO BERNARDO*



APRESENTAÇÃO

João Bernardo é português e possui uma biografia que inclui a expulsão da universidade por motivos políticos e a participação no coletivo que criou e manteve o jornal “Combate”, na época da revolução portuguesa. Hoje se destaca como autor de diversas obras publicadas em Portugal, Brasil, Espanha, Estados Unidos, França, etc. Suas obras mais conhecidas são: Para Uma Teoria do Modo de Produção Comunista, Marx crítico de Marx, Crise da Economia Soviética, Capital, Sindicatos e Gestores, Economia dos Conflitos Sociais, Dialectica da Prática e da Ideologia, entre outras.

Qual é a questão que marca a obra e a entrevista de João Bernardo? É a questão da autonomia operária. Neste sentido, trata-se de algo que nos interessa. Desde que surgiu o movimento socialista,  o seu ponto de referência tem sido geralmente a classe operária, seja para se auto-intitular sua “vanguarda”, seja para ser mero espectador de sua luta; seja para justificar o voluntarismo, seja para justificar o espontaneísmo, dois extremos que refletem uma “oposição binária” para usar expressão do famoso ideólogo da antropologia, a mais democrática (no sentido burguês do termo) das ciências burguesas, Lévi-Strauss. Tal como a burguesia, que vai do romantismo ao iluminismo, do racionalismo ao irracionalismo, da modernidade à pós-modernidade, do “objetivismo” ao “subjetivismo” e assim por diante, aqui se vai de um extremo ao outro, embora sejam extremos de uma mesma ideologia, a burguesa.

 Se o movimento socialista tem como ponto de partida a classe operária, então nada é mais justo que partir da análise desta classe para buscar compreender o processo revolucionário. Mas, qualquer que seja a visão da classe e da revolução, nada nos libera da obrigação de pensarmos como nos inserimos na realidade da sociedade capitalista. Há duas posições em relação ao que o revolucionário deve ser: pessoalmente interessado ou desinteressado na revolução. Ninguém será um autêntico revolucionário se for desinteressado, ou seja, se o for apenas por “pena” dos trabalhadores, tal como os filantropos. O mesmo se pode dizer daqueles que são interessados no sentido que a ideologia burguesa fornece a idéia de  “interesse pessoal”. É verdade que a alienação fundamental é a do trabalho, mas também não deixa de ser verdade que ela se expande para todas as outras relações sociais e assim nos atinge pessoalmente. Se, como dizia Marx, o proletariado ao se libertar liberta toda a humanidade, então o que está em jogo é nossa própria libertação e isso significa que não podemos nos omitir da luta e mais ainda separar “luta privada” de luta de classes. Por conseguinte, precisamos articular nossas lutas com a dos trabalhadores e, acima de tudo, lutar sempre. É uma questão ética e existencial, marcada pela recusa da alienação. Não lutar, no final das contas, significa compactuar com o mundo existente e servir para a reprodução da alienação da classe operária e a nossa própria alienação, o que alguns fazem sem saber . Isto é mais necessário ainda quando se tem a consciência de que o resultado do processo não está garantido, pois nesse caso temos que buscar formas efetivas de intervir buscando influenciar neste resultado. Toda prática é política e por isso não há omissão, mas apenas práticas conservadoras sob justificativas do tipo “isto não adianta”. Em síntese, a luta operária é também  nossa luta, pois o que está em jogo é a libertação da classe operária e também nossa libertação.

João Bernardo concorda com estas teses? Pelo que conhecemos dele diríamos que concorda em alguns pontos e discorda em outros. Entretanto, há algo mais importante do que isso, há a luta. As reflexões de João Bernardo são interessantes e abrem espaço para se pensar a revolução operária sem vanguardismo e, esquecendo as possíveis discordâncias, a obra deste pensador é uma rica colaboração ao marxismo.  


ENTREVISTA

Ruptura: O modo de produção capitalista está entrando numa fase que, segundo muitos, será marcada por uma grande crise do capital. Como fica, desse modo, a luta operária diante desta nova realidade?

João Bernardo: Desde que milito politicamente, há muitos anos, ouço falar da crise do capital, mas o que eu vejo é o capitalismo se desenvolvendo. Não entendo como pode haver crise do capital sem avanço dos trabalhadores. Parece unânime hoje a percepção de que há um grande recuo dos trabalhadores. Estes perderam uma etapa de lutas. Essa foi a última grande etapa de lutas. O final desta etapa começa nos finais dos anos 50 e início dos anos 60 na Europa e nos Estados Unidos, quando se tratou de movimento negro, direitos cívicos. Isto foi um dos componentes de um processo muito mais longo e complexo. A revolução cultural chinesa é de uma importância enorme e é neste contexto que a gente tem que ver a guerra do Vietnã, e os últimos momentos foram Portugal em 74 e 75; a Polônia do Solidariedade, o Brasil do ABC.

O que nós vivemos hoje são os resultados de uma derrota dessa fase de lutas. O capitalismo de estado soviético se desagregou, mas não foi devido a qualquer processo revolucionário como nós tivemos no caso do Solidariedade na Polônia. Isto é outro indício de até que ponto a classe operária hoje está desorganizada. Hoje, é o capital que dita as regras do jogo. Ele está organizando a classe operária quase como quer. Quase, porém, não inteiramente, tais como se vê nas “novas formas de gestão”. As organizações operárias tradicionais ou já não existem ou estão defendendo o supraclassismo, etc., e as organizações sindicais quando não defendem inteiramente essas formas de gestão, tudo o que fazem é negociar sua aplicação. A ideia de uma luta contra a exploração parece perdida pelas organizações da classe e a classe localizada, não digo pelos trabalhadores, não digo na cabeça dos trabalhadores individuais, pois não se sabe o que vai na cabeça de cada um. Então o que vejo hoje é um avanço do capitalismo e um recuo profundíssimo dos trabalhadores. Isto não é crise nenhuma do capital, ao contrário. Agora que há contradições no capitalismo é claro, ele é um processo, o capitalismo é contraditório, então é claro que há contradição.

Resumindo: me parece completamente errado confundir contradições com crise. O capitalismo vive de sua capacidade de recuperar, assimilar e reconverter as suas contradições. Crise é outra coisa. É preciso para haver crise que haja uma classe ofensiva, numa etapa ofensiva.

Ruptura: Nós não poderíamos dizer que não há, realmente, uma ascensão do movimento operário mas que isto estaria latente e, nesse sentido, poderíamos falar que se aproxima uma nova crise, que ainda não existe mas que já se esboça? 

João Bernardo: Se, como eu disse, os processos são contraditórios, então a classe operária irá dar uma resposta. Se ela agora está obedecendo relativamente grande parte dessa restruturação, depois ela pode lutar contra essa restruturação. De que maneira ainda não sabemos. O que me parece ser hoje mais importante é tentar manter o mais possível um contato com as lutas reais, entender que novas formas estão se gestando nessas lutas reais, tentar estabelecer relações, unificar por um, nós próprios entrarmos em contato. Bom, são objetivos muito modestos, mas em todas as grandes fases de refluxo os objetivos são modestos e não são completamente irrealistas. Eu acho preferível ter objetivos modestos que objetivos utópicos, no mal sentido da palavra, paranoicos, manias das grandezas.

Ruptura: Segundo alguns ideólogos, a revolução tecnológica e a sociedade de consumo produz o fim da classe operária. Daí colocamos a seguinte pergunta: é possível ocorrer o fim da classe operária no interior do capitalismo?

João Bernardo: Se nós assistimos algum fenômeno nas últimas décadas é a avassaladora expansão da classe trabalhadora, a proletarização de ramos profissionais que antes não eram proletários. A eletrônica serviu em grande parte para isso. O comércio hoje, pelo menos em grande parte dos países, que antes se exercia tradicionalmente em âmbito familiar, hoje está inteiramente proletarizado. O que desapareceu foi não a classe operária no sentido marxista e sim num sentido sociológico, descritivo. Neste sentido, sem dúvida, a classe operária desapareceu. Essa classe operária é uma criação relativamente recente, ela data do período entre as duas guerras mundiais. Antes havia outro perfil cultural da classe trabalhadora e antes desse havia outro ainda. E toda as vezes que isto ocorre os ideólogos dizem isso.

Se alguma coisa resta do marxismo, na minha opinião, é a teoria da exploração. A teoria do poder de Marx está ultrapassada e, no meu entender, as teorias da ação política revolucionária dele conduziram a resultados catastróficos, mas a teoria da exploração de Marx, a teoria da mais-valia relativa e tudo que daí se deduz, foi inteiramente confirmada. O modelo da mais-valia relativa é o único que permite analisar criticamente o desenvolvimento do capitalismo. O capitalismo da abundância significa um número cada vez maior de onde é incorporado cada vez menos tempo de trabalho. Quanto maior é a  qualificação de um trabalhador, maior está sendo sua exploração, pois ele está produzindo um trabalho cada vez mais complexo. Por conseguinte, uma hora de trabalho dele vale muitas horas de trabalho de um estivador de Manaus. Bem, para manter este grau de qualificação não se pode manter este trabalhador como um estivador de Manaus, vivendo de miséria e cachaça. É isto que eles chamam de sociedade de consumo. Na verdade, isto chama-se como extrair o máximo do trabalhador e dar-lhe cada vez mais produtos com cada vez menos tempo de trabalho. Então se fala de fim da classe operária, de sociedade do ócio e coisas assim. Isto é meramente jornalístico e quando emprego a expressão jornalístico isto tem um sentido pejorativo.                                

Eu aconselho as pessoas a não lerem a Folha de São Paulo, é melhor ler a Gazeta Mercantil. As pessoas dizem que a Gazeta é chata, ora ela é chata para as pessoas não a lerem. A Gazeta Mercantil não diz que a classe trabalhadora acabou, diz o contrário. Não diz que a exploração acabou, diz o contrário. Diz como que se aumenta a produtividade e é este tipo de texto que tem bom sentido de classe. Os documentos da FIESP não vão dizer que a classe trabalhadora acabou. Leiam os ideólogos da gestão de empresas. Eu me recordo, há muito tempo atrás, de falar em tempo de trabalho, de tempo de duração do trabalho, e ver da parte de ex-marxistas reações muito críticas: o que é isso, tempo de trabalho? Eu nem precisei me defender, pois o cara da gestão de empresa acabou me defendendo: “não, tem toda a razão, tempo de trabalho é com o que o gestor de empresa trabalha, trabalhador para nós é tempo de trabalho.

Ruptura: Então esta tese seria equivocada por partir de um ponto de vista descritivo, sociológico, e, sendo assim, não marxista, que define a classe operária em sua relação com o capital, que é a relação instaurada na produção de mais-valor.

João Bernardo: O sentido em que eu defino classe é exclusivamente este. As classes, tenham consciência ou não, resultam deste processo. Você já imaginou que é fazer uma medicina baseada na consciência. Se a pessoa não tivesse consciência que tinha um cancro, ela não tinha um cancro. “Há, você tinha um cancro”, “como, eu não posso, eu não tinha consciência”.  As classes evoluem, quer tenham ou não consciência. A consciência, pra mim, vale muito pouco. E quando se diz que o processo de luta de classes tem que ter consciência? ela acaba como sendo um resultado do que a gente já fez. A ideologia é uma reflexão sempre a posteriori sobre uma prática que nós fizemos. Esse é o grande dilema do ser humano. A gente atua no escuro e depois reflete, ou seja, nós refletimos sobre coisas materiais e as coisas materiais são a prática que nós fizemos, nós sempre estamos refletindo sobre práticas que já fizemos.

Por que a classe operária deveria ter um único perfil cultural? Pode haver uma classe trabalhadora com múltiplos perfis culturais. Por que não, se as relações de solidariedade podem existir com outros perfis culturais. Aliás, é aquilo que em geral ainda existe entre nós. Se a gente tem uma base prática que ultrapassa estas diferenças de formação e essa base prática se faz nas lutas dos trabalhadores, então você tem um sistema de gestão capitalista, que consiste em criar uma multiplicidade de perfis culturais para dividir a classe, e a luta dos trabalhadores, que consiste em reunificar, refazer e restabelecer a solidariedade, apesar desses perfis culturais diferentes.

Ruptura: Há um problema que pode ser levantado aí: se a autogestão pressupõe o controle do ser humano sobre as forças produtivas, sobre a natureza, o que significa autogoverno ou planificação autogerida da sociedade, não haveria a necessidade da consciência  e neste caso ela não deixaria de ter uma importância secundária e passaria a ter uma importância fundamental?

João Bernardo: Até poderia dizer sim, mas a experiência...Eu, suspeitou-se, sou ideólogo por profissão, mas um ideólogo mais descrente da ideologia que vocês podem imaginar. Eu acho que a gente é obrigado a se agregar a uma ideologia. O homem, o ser humano, não vive sem isso. Mas não acredito em feitos práticos da ideologia. Eu escrevi um livro que foi editado aqui no Brasil, pela Cortez, e em Portugal, pela Afrontamento, que se chama Dialética da Prática e da Ideologia e é aí que pretendo, entre outras coisas, dizer isso mesmo: a ideologia é ineficaz. Bem, vou pegar um exemplo. Você está falando da autogestão como um princípio político. Eu vi a autogestão somente, diretamente, em Portugal, em 74 e 75. A primeira empresa em Portugal que entrou em autogestão produzia três mil peças de roupas e tinha oito mulheres. Era essencialmente uma empresa estrangeira e tinha em sua linha parte da costura. Por que elas entraram em autogestão? Porque o administrador estrangeiro bloqueou e fugiu com o dinheiro da empresa. Mas, é claro, deixou lá uma montanha daquela roupa. Então, como elas tinham que sobreviver, começaram a ir costurando aquilo e ir vendendo. Foi por isso que elas assumiram uma consciência revolucionária. Quando elas se deram conta do que estavam fazendo, ou seja, só depois. Eram mulheres que não tinham qualquer luta anterior.

A segunda empresa que entrou em autogestão também era de costura, mas essa era nacional. Com a ditadura, o patrão fugiu para o Brasil, a esta altura sob o  governo Garrastazu Médici que estava aqui e toda essa gente fugia para cá. Ele fugiu com o dinheiro e elas foram produzindo e todas as outras que entraram no processo de autogestão raramente foi por pressupostos ideológicos. Elas entravam em autogestão porque os caras fugiam sempre. Eu tive nessa época uma discussão com um dirigente de um grupúsculo internacional que era contrário à autogestão, que achava que a autogestão era uma alienação dos trabalhadores. Eu disse: “bem, os trabalhadores têm que viver, não é? têm que comer de alguma maneira, eles não podem viver de direitos do autor de livros que criticam a autogestão”. Esse cara disse: “eles deviam assaltar os supermercados”. Eu lhe respondi: “você sabe que as principais cadeias de supermercados estão em autogestão?” e era verdade, então eles estariam o que, roubando uns aos outros. Essa que foi a realidade dos fatos. Depois de terem feito isso, e é isso que foi espetacular em Portugal em 74 e 75, que para mim era uma experiência inesquecível, que embora eu tivesse rompido com o leninismo nessa altura, continuava com aquela ideia de que a revolução ia surgir das grandes concentrações operárias.

Essas mulheres e essas empresas sem passado de luta remodelaram as suas relações de trabalho, reformularam a ligação entre a peãozada e as chefias internas, reestruturaram as hierarquias, remodelaram o sistema do pessoal do escritório e começou a passar pela linha de produção, coisas assim. E o que foi realmente prodigioso, maravilhoso, foi ver essas pessoas tomarem consciência do que tinham feito e tinham conseguido fazer algo de revolucionário. Aí elas assumiram a consciência e foi assim que se fez o processo de autogestão. Então, é claro que, quando elas assumem esta consciência, elas se radicalizam, mas isso me parece que já é o andar natural do processo.

Ruptura: Eu li o seu livro Dialética da Prática e da Ideologia e fiquei com a dúvida de como, na sua concepção, surge a mudança. Neste caso, segundo você, a mudança vem da prática e num segundo momento a consciência acaba tendo um papel, que seria o de reforçar aquela nova prática.

João Bernardo; Neste livro, se bem me recordo, a consciência serve para fazer entrar em contato pessoas. Estas, uma vez em contato, podem facilitar unificações e lutas posteriores. Isto me parece mais importante do que o modelo que proponho ou o que lhe digo. Isso é muito mais importante do que o conteúdo ideológico que pode ser divulgado. Ponha de lado a Dialética da Prática e da Ideologia e pegue no caso das mulheres em Portugal. Em Portugal, na época de Salazar, as mulheres eram mais oprimidas do que geralmente o são, então experiências de lutas era uma coisa quase que de homem. As mulheres que vendiam peixes, não sei porque razão, eram mulheres muito ativas, mas as outras eram muito submissas, pelos próprios maridos. Você já imaginou que essas mulheres ocuparam as fábricas, as instalações, se revezaram, passavam a noite lá. Ela chegava e dizia que “hoje é meu dia de dormir na fábrica”. Sabe o que significava isso para um marido operário tradicional, bem tradicional? Elas, quando nós as entrevistávamos, diziam: “os nossos maridos, felizmente,  têm nos ajudado muito”. Bom, havia o pessoal das fábricas ao redor e os maridos iam lá para vigiá-las, mas só que não podiam dizer isso, precisavam criar estratégias e aí diziam que iam lá para ajudá-las. Apesar disso, elas estavam levando este processo de transformação muito mais longe, surgindo no local de produção e chegando até a família. Isso eu vi e posso garantir que existe. Bom, quando eu leio ou ouço uma pessoa dizer que a sociedade não pode mudar, eu digo: pode  e eu vi este exemplo.

Certa vez, conversando com uma amiga, que, inclusive tinha também vivido esta época de lutas, eu criticava grupos de certo modo como vocês, não eram vocês, porém outros. Eles tinham uma visão meramente literária do processo autogestionário, como uma nova teoria que surge. Eu disse: “que visão tens eles do processo? Pessoas que nasceram depois dessa vaga de lutas ter acabado”. Ela me disse: “ já é muito ter esta visão livresca”. Mas é uma coisa que quem viveu não pode transmitir, a gente pode transmitir sob forma literária mais uma vez, que vocês assimilam sob forma literária. Mas aquilo que a gente pode viver é muito mais rico do que uma pessoa pode dizer. Uma prática é muito mais multifacetada e a gente viu transformações efetivas e eu sublinho este aspecto de terem surgido essas transformações em locais onde não havia tradições nenhuma, de pessoas que nunca haviam lutado. Certamente tinham lutado em sua vida privada, a gente nunca pode dizer que as pessoas não lutaram, mas lutaram de uma maneira, enfim, alienada. A gente diria, não tão alienada assim, pois foram capazes de dar uma resposta e foram as que mais aguentaram a luta depois.

É assim que vejo um movimento autônomo. Não se pode pensar que um movimento autônomo surge por uma ação tão planejada assim, porque ele é autônomo mesmo, ele nos ultrapassa.

Ruptura: Bom, agora temos que fazer a defesa do grupo. Você mesmo diz que toda “ideologia” decorre de uma prática e aí você coloca que tem grupos, como o MSL (MOVAUT)**, que teriam uma concepção puramente livresca de autogestão. Não há uma contradição aí ? Afinal, por que pegaríamos essa cultura de livros e aceitaríamos ela? Isto também não decorreria de uma prática? Neste sentido, pode-se dizer que se trata de uma prática diferente, uma outra prática. Esta crítica parece com uma crítica que me foi endereçada por leninistas (alguns, hoje, ex-leninistas) que me acusavam de defender idéias autogestionárias por não ter  uma “prática”. Que prática era essa? Obviamente, é a prática deles.

João Bernardo: Você tem toda a razão. Mas eu fiz uma autocrítica. Fiz quando relatei  que minha crítica tinha sido rebatida por uma companheira. É claro que vossa visão do processo autogestionário, produzida numa situação de refluxo da classe trabalhadora, tem que ser diferente. E resultou da vossa prática, da vossa prática, sem dúvida alguma. Agora o que eu quero dizer é o seguinte: bom, não estou dizendo que a minha prática foi mais importante do que a vossa. A minha prática me permitiu ter uma dada visão do processo autogestionário e autônomo. Vocês têm aí outra prática, qual é a mais adequada, a minha ou a vossa? Eu diria, talvez, na medida em que estamos vivendo numa situação de grande refluxo, a vossa prática seja a mais adequada.

Agora uma coisa que nós devemos ter em conta, o leninista, staliniano, para não falar dos outros, ele tem um objetivo, ele pretende enquadrar a realidade e tudo que saia do modelo ele pretende desarticular, destruir e as técnicas leninistas e stalinistas para desarticular a realidade social sob a qual  o partido não tem controle é uma técnica extremamente elaborada, continua a existir e com ótimos frutos para quem a pratica. É preciso que o movimento seja muito forte para ultrapassar isso. Bem, então, nós vamos ter que fazer o mesmo e é um risco muito grande quando um grupo se constitui em torno de uma plataforma ideológica. Há o risco de vocês se tonarem cegos a uma prática que não entre dentro de sua plataforma ideológica. Como é que se ultrapassa isso? Não sei, pois se os momentos de refluxos são precisamente para separações, para cisões. Eu diria que constituir uma revista mais de choque, confronto, mais crítica, é uma dificuldade enorme ter pessoas de correntes diferentes que aceitem fazer choque e confronto respeitando regras de jogo democráticos. Isto é quase tão utópico quanto qualquer outra coisa.

Então, essas são as limitações das situações de refluxo, tudo contribui para desagregar. E a gente se agrega em torno do que? Há, uma prática comum, mas este é o problema, numa situação de refluxo não há práticas tão fortes assim, então a gente se agrega em torno de uma plataforma ideológica. Aí tem um inconveniente: ou você desarticula ou pelo menos a pessoa corre o sério risco de ficar cego ao que está exterior à plataforma ideológica. Como uma pessoa sai dessa situação? Não sei, é uma contradição que a gente tem que viver.

Ruptura: O conteúdo do socialismo é a autogestão. Entretanto, as diversas e rápidas experiências autogestionárias foram derrotadas pelo capital.Hoje, o modo de produção capitalista ao mesmo tempo que demonstra força demonstra suas  fraquezas. Quais são as perspectivas da autogestão neste quadro histórico marcado pela ambiguidade?

João Bernardo: Olhe, eu não sei. Eu espero não ser daquelas pessoas que  morrem dizendo: eu morro, mas estou seguro. Há um poeta português (...), que conta uma história de um cara que depois que foi fuzilado disse: “atenção! da próxima vez que me fuzilar ao menos dê-me tempo de morrer gritando: Viva a Revolução!“. As perspectivas são as seguintes: não vejo a possibilidade de demonstrar que ao capitalismo se sucederá inelutavelmente uma sociedade sem classes. Marx, lamentavelmente, confundiu essa grande concentração de capital com o socialismo. O máximo que se pode dizer, com os pés no chão, é que no capitalismo existem esplêndidas condições para se ultrapassar a sociedade de classes, mas acho que vai ser um processo muito longo, de muitos séculos. Eu não creio que a classe trabalhadora vá rapidamente derrubar o capital. Ela conseguirá avançar e dentro destes ciclos de recuperação avança a recuperação da classe trabalhadora por parte do capital e cada vez que a classe trabalhadora faz um novo avanço, faz num terreno recuperado pelo capital. Veja-se os grandes ciclos revolucionários, em 1848, depois a Comuna de Paris, as grandes lutas de 16 à 21 e depois as lutas autônomas. Você começa a ver antes de 48 até a revolução cultural e o Solidariedade na Polônia. A luta de 1848 parece até infantil pelas reivindicações e problemáticas que colocavam. A luta se torna cada vez mais profunda, não como um círculo vicioso, mas como uma espiral em crescimento.

Podemos constatar também que o capitalismo tem contradições e só pode viver da exploração e que as pessoas lutarão contra a exploração. Mas temos ao mesmo tempo divisões e se os trabalhadores conseguirem ultrapassar estas divisões os capitalistas conseguirão os obrigar a novas divisões. O grande problema prá mim está no interior da classe trabalhadora. Este é o problema central, o problema da reorganização no interior da classe trabalhadora.

Muitas vezes me perguntei como foi possível haver um movimento autônomo em Portugal durante 74/75 com esta amplitude. Saímos em 48 horas do fascismo. O fascismo tinha desorganizado tudo. Vocês não imaginam o que era a repressão em Portugal, não que houvesse a polícia, torturas como as da argentina. Tinha tortura e polícia mas a questão não é essa: era uma repressão moral a um ponto inacreditável. Era proibido dar beijo em público. Bom, eram coisas inacreditáveis. Como é que foi possível este movimento? A classe trabalhadora era proibida de se organizar politicamente, era proibida de se exprimir, a fazer greves, a ter sindicatos propriamente dito. Ela constituiu mecanismos defensivos, nos bairros, nos botecos, nas associações populares e recreativas e nós, marxistas, maoístas, leninistas chamavam-nas de alienadas, pois elas não queriam política e tinham toda razão em não querer, era a condição para elas sobreviverem. A gente ia lá fazer o nosso trabalho, recrutar e os caras não queriam. E eles tinham razão estrategicamente, eles estavam criando mecanismos de defensivos, e foram estes mecanismos que lhes permitiram rapidamente depois fazer comissões de bairros. No Brasil se passou o mesmo durante a ditadura militar, ela desorganizou as fábricas e as pessoas se organizaram nos bairros. Vocês já repararam que o movimento do ABC surge depois dos militares terem exterminado fisicamente e ideologicamente toda uma geração de militantes, com o extermínio daqueles caras criados da época de Vargas até Goulart, os novos caras, os jovens trotskistas, os católicos. Foi a própria classe que fez este movimento. Isto é sinal de que são garantias, são indícios muito sérios de uma continuação dum processo revolucionário. Você sabe o nome do cara que só luta quando sabe que vai vencer? É um covarde.

 A gente luta historicamente e tem que lutar sem a garantia que vai vencer. Isto é que torna interessante o processo, com garantia não vale a pena, mas com sérios indícios para não sermos completamente paranoicos. Vocês vivem num país que tem, por exemplo, um movimento sindical, para não falar de universidades, com contradições tão grandes que se pode trabalhar lá dentro. Não é por acaso que o movimento dos trabalhadores aqui ainda tem uma força. Os sindicatos não são menos burocráticos no Brasil do que os de qualquer outro lugar, mas as pressões dos trabalhadores são tão grandes que os sindicatos têm que abrir esta demanda, assim como as universidades. Não é porque querem fazer, mas porque têm que fazer. Então são espaços de organização que vocês aproveitam e tem que aproveitar e que são exemplares para nós. Muitas vezes no Brasil se acredita de que a Europa é que é o exemplo. A Europa não é exemplo de nada a não ser de velhice.

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Publicado originalmente em:
* Revista Ruptura. Publicação do MSL (MOVAUT). Ano 3, No 04, Janeiro de 1996.
** MSL - Movimento Socialista Libertário, anteriormente "Movimento Conselhista" e alguns anos depois MOVAUT - Movimento Autogestionário. Para mais informações, veja o site e blog do coletivo: http://movaut.com.br http://movaut.blogspot.com 

  

                   


sábado, 11 de janeiro de 2020

Nildo Viana: Crítica do Capitalismo e Projeto Autogestionário




PEIXOTO, Maria Angélica. Nildo Viana: Crítica do Capitalismo e Projeto Autogestionário. Rio de Janeiro: Edições Pirata, 2020.

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SINOPSE:


Maria Angélica Peixoto apresenta a contribuição do sociólogo Nildo Viana para a análise da sociedade capitalista e seu vínculo com sua teoria da autogestão social. A sua crítica ao capitalismo está intimamente ligada ao seu projeto autogestionário e para compreender o primeiro aspecto do seu pensamento é necessário compreender o segundo. A autora levanta os principais aspectos de sua crítica ao capitalismo para depois explicitar seu projeto autogestionário mostrando sua concepção de sociedade autogerida e do caminho para chegar a ela, através das lutas autogestionárias e estratégia revolucionária.



terça-feira, 19 de novembro de 2019

Precarização e insatisfação dos trabalhadores europeus

Falta de garantias em novos empregos alimenta insatisfação de trabalhadores na Europa

O desemprego europeu está em seu nível mais baixo em uma geração, mas persistem queixas por falta de benefícios e de segurança.

Daniel Michaels Paul Hannon
Nova York | The Wall Street Journal

O mercado de trabalho da Europa está se expandindo. Por que tantos trabalhadores estão zangados, então?

O desemprego na Europa está em seu patamar mais baixo em uma geração. Há 10 milhões a mais de pessoas empregadas hoje do que antes da crise financeira, uma década atrás.

A demanda por trabalhadores continua forte, com mais oportunidades de emprego disponíveis do que em qualquer momento do passado, em toda a União Europeia. Dos 22 países da União Europeia onde há um salário mínimo em vigor, todos exceto a Letônia decretaram aumentos do salário mínimo este ano.

Mas por trás dos números está uma virada que está mudando a Europa. Proporção crescente dos empregos novos é de período parcial, temporária ou representa trabalho autônomo desprovido dos benefícios que os trabalhadores europeus há muito se acostumaram a ter.

No ano passado, 14,2% dos empregos na Europa eram temporários, ante apenas 4% nos Estados Unidos – o que deixa muitos trabalhadores desprovidos de seguros, aposentadoria ou benefícios médicos.

O resultado é um avanço no número de europeus que estão empregados e ainda assim enfrentam dificuldade para manter as contas em dia, enquanto assistem à melhora das vidas de outras pessoas.

“Estão sendo criados empregos, mas esses empregos são muito ruins”, disse Victor Gerardo Ponce Arevalo, um soldador espanhol que teve de deixar de pagar sua hipoteca em 2014, durante a crise do euro, perdeu a casa e agora vive com as duas filhas em um projeto de habitação pública subsidiado.
A proporção de trabalhadores da zona do euro em risco de recair na pobreza subiu a 9,2% em 2018 (depois de atingir um pico de 9,5% em 2016), ante 7,9% em 2007.

Mais de 15 milhões de europeus enfrentam empregos precários, e cortes em seus benefícios desemprego e nos programas sociais dos governos, causados pela crise financeira. Na Espanha, Grécia, Itália e outros países da Europa Ocidental, essa crescente instabilidade alimentou o entusiasmo por movimentos políticos marginais e esvaziou o apoio dos partidos sociais-democratas que representaram os sindicatos por décadas.

Na França, o movimento dos coletes amarelos, que abalou o governo por meses, foi deflagrado no ano passado pela ira dos trabalhadores sobre a alta no custo de vida, o que inclui um aumento no imposto sobre a gasolina que tornou as viagens de casa para o trabalho e vice-versa mais caras.
O emprego dele – uma posição que no passado o teria colocado no rumo de um carreira estável – foi obtido por meio de uma agência de emprego temporário, e trazia o risco de ser cancelado em curto prazo. Na Europa, empregos como esses raramente servem como ponto de partida para o trabalho definitivo ou em período integral, como pode acontecer nos Estados Unidos.

“Não posso fazer planos”, disse Perrotin, que vive em um apartamento de um quarto com seu filho de dois anos.

A mãe de Perrotin, que vive confortavelmente no sopé dos Alpes, jamais imaginou que seu filho teria dificuldade para encontrar um emprego firme. Ela participou dos protestos dos coletes amarelos no ano passado.

A crescente insegurança no emprego que existe na Europa está mudando um continente um dia conhecido por seus direitos trabalhistas sólidos e por um desemprego persistentemente alto. Para as companhias, a flexibilidade crescente na contratação, nos últimos anos, ajudou a reforçar os lucros ou limitar os prejuízos. Durante a crise financeira, isso foi crítico para a sobrevivência de muitas delas. Os economistas apelaram por muito tempo por normas trabalhistas mais flexíveis, a fim de recolocar a economia europeia no caminho do crescimento.

Ao mesmo tempo, a demanda morna da parte dos consumidores deixou a zona do euro dependente de exportações. Depois que as exportações começaram a perder força, este ano, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu reiniciar seus programas de estímulo econômico.

O impacto da ascensão do emprego “atípico” na Europa – temporário, de tempo parcial ou outras formas legais de emprego não associadas a um percurso tradicional de carreira – vai além do consumo. Pessoas que trocam frequentemente de emprego ou trabalham apenas alguns dias por semana em geral recebem menos treinamento e menos promoções do que os trabalhadores de período integral dotados de contratos de trabalho de longo prazo, o que limita o avanço da produtividade e as perspectivas de renda.

A dependência maior de trabalhadores temporários na Europa, ante a situação dos Estados Unidos, também expõe as diferenças estruturais entre as duas economias. Ainda que os governos europeus tenham reduzido os obstáculos para a contratação de trabalhadores de período integral, as demissões ainda requerem pagamento de indenizações dispendiosas, o que representa um desincentivo para as companhias europeias na hora de contratar trabalhadores permanentes e de período integral. Nos Estados Unidos, os planos de saúde estão em geral vinculados ao emprego, enquanto na Europa são universais, o que significa que os trabalhadores americanos têm mais incentivo para buscar empregos permanentes de acordo com o Conference Board, um instituto de pesquisa empresarial do Estados Unidos.

A mudança da situação trabalhista na Europa Ocidental vem acontecendo em paralelo com o colapso do equilíbrio político que perdurava há seis décadas na região, sob o qual partidos ligeiramente à direita ou à esquerda do centro se alternavam no poder, ou governavam em coalizão. Isso foi substituído em muitos países por uma instabilidade política que não se via desde a década de 1930.
“Os trabalhadores que perdem a segurança no emprego e as aposentadorias se sentem traídos”, disse Charles Verhoef, presidente da Zelfstandigen Bouw, uma organização sem fins lucrativos que ajuda os operários de construção da Holanda que perderam seus empregos de período integral a se tornarem empreiteiros e trabalhadores autônomos. “Eles sentem não ter coisa alguma a perder e começam a recorrer ao voto de protesto”.

Os trabalhadores temporários em muitos casos favorecem pequenos partidos de inclinação esquerdista que promovem programas como seguro-desemprego e creches, disse Paul Marx, professor de ciência política na Universidade de Duisberg, em Essen, Alemanha.

Os trabalhadores temporários tendem a rejeitar os partidos sociais-democratas estabelecidos, ligados aos sindicatos, porque o foco deles está principalmente nas preocupações dos trabalhadores de período integral, como por exemplo aposentadoria em idade relativamente baixa, disse Marx.

A virada europeia na direção do emprego atípico resulta de medidas governamentais para relaxar as leis trabalhistas rígidas, e dos esforços dos empregadores para aproveitar a flexibilidade criada nas regras.

Os países prósperos do norte da Europa por volta da virada do século decidiram flexibilizar as normas trabalhistas rígidas que vigoraram por todo o período pós-guerra, porque a globalização estava prejudicando sua competitividade. Hoje, quase 27% dos trabalhadores da Alemanha e quase 47% dos trabalhadores da Holanda trabalham em tempo parcial.

Alguns europeus apreciam o emprego flexível. John Tuerlings trabalhou por 33 anos para uma construtora na Holanda, começando aos 15 nos, e ficou assustado quando seu emprego desapareceu, uma década atrás.

“Eu não sabia o que viria a seguir”, ele recorda. Agora ele diz amar a liberdade do trabalho autônomo. Tuerlings prosperou graças às suas “mãos de ouro”, que ele mostra erguendo os dedos fortes e desgastados. “E eu sei como divulgar meu trabalho. Outros artesãos às vezes encontram dificuldades para conseguir trabalho”.

Porque ele não vai poder contar com uma pensão de empresa, Tuerlings dentro de alguns anos planeja vender sua casa, que é grande, comprar uma menor e viver dos lucros. “Minha casa é minha aposentadoria”, ele disse.

Na França, por muito tempo um dos países com leis trabalhistas mais favoráveis aos empregados, o uso de trabalhadores temporários por empresas subiu para 16,2% do total de empregados no país em 2018, ante 13% em 2009 – avanço suficiente para que o presidente Emmanuel Macron tomasse medidas algumas semanas atrás para limitar a dependência das companhias quanto à mão de obra temporária.

Macron e outros líderes europeus não foram capazes de transformar os empregos atípicos em postos de trabalho de período integral dotados de benefícios. Embora as respostas dos governos à disparada no desemprego europeu uma década atrás tenham variado, um traço comum foi um relaxamento das regras de segurança no emprego.

As reformas permitiram que empresas demitissem trabalhadores de tempo integral e contratassem temporários, mas isso não resultou em elevação no número de contratados para postos integrais, como se esperava. Na Holanda, a proporção de trabalhadores com emprego em tempo parcial subiu a 20,1% em 2018 ante 16,4% em 2009; na Itália, a alta foi de 10,8% para 16,5%.

Os países mais pobres do sul da Europa tentaram repetidamente combater o desemprego elevado e persistente. Em 1984, a Espanha desregulamentou os contratos de trabalho temporários, tentando romper o controle que os sindicatos do país haviam adquirido sobre o emprego na época de Franco. O trabalho temporário cresceu muito, especialmente nos setores de construção e hospitalidade, que passaram por expansões.

Depois que a crise financeira explodiu e a Espanha caiu em recessão, em 2008, os trabalhadores temporários, facilmente demissíveis, foram descartados rapidamente. O desemprego disparou para quase 27% em 2013. De lá para cá, a proporção caiu para 14,2% - mas com a ajuda de contratos de trabalho de duração cada vez mais curta.

A Espanha tinha a maior proporção de trabalhadores temporários da Europa no ano passado, 26,4%, de acordo com os dados mais recentes da União Europeia. Mais de um quarto dos novos contratos de trabalho espanhóis têm duração de menos de uma semana, e cerca de 40% deles duram menos de um mês, de acordo com pesquisas comandadas pelo economista Florentino Felgueroso.

Antes que a recessão de 2008 eclodisse, Miriam Suarez limpava 13 quartos de hotel em Barcelona em uma jornada diária de trabalho de oito horas, e recebia almoço durante uma pausa de 20 minutos. O emprego dela, não sindicalizado e arranjado por meio de uma agência de temporários, ainda assim era coberto por um acordo coletivo negociado por um sindicato que lhe garantia um pagamento mínimo por hora e lhe propiciava renda mensal de 1,3 mil euros (US$ 1,43 mil).

As mudanças nas leis trabalhistas causadas pela crise do euro em 2012 liberaram os hotéis para abandonar o acordo coletivo e estabelecer termos. Hoje, Suarez diz que limpa até 25 quartos em uma jornada diária de trabalho de cinco horas, e ganha um euro por quarto. Ela não recebe almoço nem pausa para almoço, e ganha cerca de 700 euros por mês.

“Agora não temos tempo nem para beber um copo de água”, disse Suarez, que afirmou ter sofrido lesões nos braços e costas devido ao trabalho e ao estresse. Ela terminou demitida depois de tirar uma licença médica.

Suarez expressou sua frustração votando em abril no Podemos, um partido de extrema esquerda que dirigiu sua campanha a trabalhadores como ela. “Não acredito mais nos políticos”, ela disse.
Em poucos lugares o deslocamento econômico se combinou à desilusão política de forma mais poderosa que no Reino Unido.

O mercado de trabalho britânico é visto como uma história de sucesso, nos últimos 10 anos. O índice de desemprego chegou perto de um recorde de baixa no começo deste ano. A proporção de adultos empregados atingiu os 76,1% em setembro, a marca mais alta desde que essa estatística começou a ser acompanhada, em 1971.

A maior parte desse crescimento aconteceu em forma de trabalho atípico, de acordo com a Resolution Foundation, uma organização independente de pesquisa cujo foco é melhorar as condições de vida das pessoas de baixa e média renda. Dois terços dos empregos criados no Reino Unido de 2008 para cá são atípicos, e variam de trabalhadores “on demand”, que têm contratos mas nenhuma garantia quanto ao número de horas que trabalharão, a trabalhadores autônomos, estimou a Resolution Foundation em janeiro.

Essas mudanças no mercado de trabalho contribuíram indiretamente para o resultado na votação no referendo sobre a saída britânica da União Europeia [brexit], em 2016, de acordo com Thiemo Fetzer, economista da Universidade de Warwick.

Fetzer disse que seu exame do que influenciou a votação do brexit demonstra que empregos menos seguros e de remuneração mais baixa resultaram em uma alta no número de britânicos que dependiam do Estado para manter as contas em dia. E isso também os deixou mais vulneráveis aos cortes dos gastos sociais pelo governo.

Fetzer constatou que o apoio ao brexit cresceu significativamente nos distritos mais prejudicados pelos cortes, depois de verem uma debilitação anterior de seus mercados de trabalho.

Organizadores sindicais dizem que o avanço dos empregos precários, cortes nos gastos governamentais e redução no apoio aos trabalhadores de renda mais baixa estabeleceram as bases para o resultado.

“É como se o país estivesse dizendo ao Parlamento que os cidadãos não foram beneficiados, e eles não querem saber”, disse Liane Groves, do sindicato Unite, que representa trabalhadores de diversas ocupações.

“Esses empregos tiram todo o poder dos trabalhadores”, disse Kristiyan Peev, 29, faxineiro na Universidade de Notingham. “Você não tem muito a dizer sobre coisa alguma”.

Na atual campanha eleitoral britânica, todos os partidos defendem redução nas medidas de austeridade.

Na França, Macron realizou uma série de reuniões com cidadãos para ouvir suas queixas, uma decisão que ajudou a atenuar os protestos do movimento dos coletes amarelos.

“Nós não vivemos, sobrevivemos”, disse Chantal Perrotin, que aderiu ao movimento perto de Lyon depois de ver os problemas enfrentados por seu filho, Yoann, o bancário.

Yoann, que estudou finanças por dois anos depois de concluir o segundo grau, se candidatou a empregos em bancos mas sua única oferta veio de um agência de trabalho temporário.

Ele começou em março sob um contrato de curta duração e logo sentiu o aperto financeiro. Seu salário mensal líquido de 1,3 mil euros lhe deixava apenas 150 euros, depois de cobrir as despesas básicas com o aluguel e comida, para bancar sua família – ele, a namorada e o filho e dois anos.
Antes de começar no banco, ele recebia seguro-desemprego e ganhava quase a mesma coisa que seu novo salário líquido, disse Perrotin. E o emprego também cria despesas, como ternos e o custo do carro, ele afirmou.

Perrotin disse que gostaria de comprar uma casa, mas não consegue uma hipoteca. “Os bancos não concedem empréstimos a pessoas que têm empregos temporários”, ele disse.

Porque estudou finanças, Perrotin disse compreender que as companhias e o emprego precisam evoluir. “Não estou interessado em manter um emprego por toda a vida”, ele disse. “Mas precisamos desenvolver uma maneira de dar benefícios e propiciar empréstimos aos trabalhadores temporários”.

No final de setembro, a agência de trabalho temporário o informou de que seu contrato não seria renovado. “Eu esperava que o trabalho levasse a um contrato permanente”, ele disse. “Mas estava preparado caso isso não acontecesse”. Ele está de volta ao seguro-desemprego.
 Adrià Calatayud contribuiu para este artigo, em Barcelona.
 The Wall Street Journal, tradução de Paulo Migliacci

Leia Mais:
Capitalismo e Desemprego - O Lumpemproletariado na Dinâmica da Acumulação Integral - Nildo Viana

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

A ELEIÇÃO DE DONALD TRUMP E O FIM DO NEOLIBERALISMO PROGRESSISTA



A ELEIÇÃO DE DONALD TRUMP E O FIM DO NEOLIBERALISMO PROGRESSISTA

Nancy Fraser*


A eleição de Donald Trump faz parte de uma série de grandes revoltas políticas que, juntas, sinalizam o colapso da hegemonia neoliberal. Elas incluem a votação pelo Brexit, no Reino Unido, a rejeição das reformas do então primeiro-ministro Matteo Renzi, na Itália, a campanha de Bernie Sanders pela nomeação como candidato do Partido Democrático, nos Estados Unidos, e o crescente apoio à direitista Frente Nacional francesa, dentre outras. Embora sejam diferentes em ideologia e objetivos, estas insurreições eleitorais compartilham a mesma meta: todas elas rejeitam a globalização corporativa, o neoliberalismo e o establishment político que os promove. Em todos estes casos, os eleitores disseram “Não!” à combinação letal de austeridade, livre comércio, débito predatório e empregos precários e mal pagos, elementos que caracterizam o capitalismo financeiro dos dias atuais. Seus votos são uma resposta à crise estrutural desta forma de capitalismo, que se tornou patente a partir do colapso quase total da ordem financeira mundial em 2008.

Até recentemente, no entanto, a principal resposta à crise foi o protesto popular – dramático e intenso, certamente, mas em grande medida efêmero. Os sistemas políticos, em contraste, pareceram relativamente imunes, sendo ainda controlados por funcionários partidários e pelas elites do establishment, ao menos em Estados capitalistas poderosos, como os Estados Unidos, o Reino Unido e a Alemanha. Hoje, contudo, o impacto eleitoral reverbera em todo o mundo, incluindo as grandes capitais financeiras do mundo. Os que votaram em Trump, assim como os que votaram pelo Brexit e contra as reformas na Itália, revoltaram-se na verdade contra os grandes donos da política. Torcendo o nariz para o establishment partidário, repudiaram o sistema que erodiu sua qualidade de vida ao longo dos últimos 30 anos. A surpresa não é que tenham feito isso, mas que tenham demorado tanto tempo.

Ainda assim, a vitória de Trump não é unicamente uma revolta contra as finanças globais. O que seus eleitores rejeitaram não foi simplesmente o neoliberalismo, mas o neoliberalismo progressista. A expressão pode soar como um oxímoro, mas é um alinhamento político real e perverso que explica os resultados da eleição norte-americana e, talvez, alguns dos desenvolvimentos políticos em outras partes do mundo. Nos EUA, o neoliberalismo progressista é uma aliança entre, de um lado, correntes majoritárias dos novos movimentos sociais (feminismo, antirracismo, multiculturalismo e direitos LGBT) e, do outro lado, um setor de negócios baseado em serviços com alto poder “simbólico” (Wall Street, o Vale do Silício e Hollywood). Nesta aliança, as forças progressistas se unem às forças do capitalismo cognitivo, especialmente à “financeirização”. Embora involuntariamente, o primeiro oferece ao segundo o carisma que lhe falta. Ideais como diversidade e empoderamento, que poderiam em princípio servir a diferentes fins, hoje dão brilho a políticas que destruíram a indústria e tudo aquilo que antes fazia parte da vida da classe média.

O neoliberalismo progressista foi desenvolvido nos Estados Unidos ao longo das três últimas décadas, tendo sido ratificado pela eleição de Bill Clinton em 1992. Clinton foi o principal arquiteto e defensor dos ideais dos “Novos Democratas”, o equivalente americano do “Novo Trabalhismo” de Tony Blair. No lugar da coalização à la New Deal entre trabalhadores sindicalizados do setor industrial, afro-americanos e classes médias urbanas, Clinton forjou uma nova aliança entre empresários, a classe média dos subúrbios, novos movimentos sociais e juventude, levando-os a proclamar juntos sua boa fé moderna e progressista, sua aceitação da diversidade, do multiculturalismo e dos direitos das mulheres. Ao mesmo tempo em que apoiava estas ideais progressistas, o governo Clinton cortejava Wall Street. Entregando a economia à Goldman Sachs, ele desregulou o sistema bancário e negociou acordos de livre comércio que aceleraram o processo de desindustrialização. Isso significou o fim do cinturão da ferrugem (o “Rust Belt”), outrora a maior fortaleza da democracia social do New Deal, que corresponde à região que na última eleição entregou a vitória a Donald Trump. O cinturão, assim como os novos centros industriais do sul, sofreu um grande baque à medida que a financeirização se desenvolveu ao longo das últimas duas décadas. Continuadas por seus sucessores, incluindo Barack Obama, as políticas de Clinton degradaram as condições de vida de toda a classe trabalhadora, mas especialmente a dos funcionários do setor industrial. Em suma, o clintonismo carrega uma grande parcela de culpa pelo enfraquecimento dos sindicatos, pela queda dos salários reais, pela crescente precariedade das condições de trabalho e pelo surgimento da família com dois provedores.

Aliás, conforme sugerido pelo último item, o ataque à segurança social foi reinterpretado por meio de um discurso emancipatório carismático, emprestado dos novos movimentos sociais. Ao longo dos anos, à medida que o setor industrial ruía, o país ouviu falar muito de “diversidade”, “empoderamento” e “não discriminação”. Ao identificar “progresso” com meritocracia, em vez de igualdade, o discurso igualou o termo “emancipação” à ascensão de uma pequena elite de mulheres “talentosas”, minorias e gays na hierarquia corporativista exclusivista. Esta compreensão individualista e liberal de “progresso” gradualmente substituiu o entendimento de emancipação mais abrangente, anti-hierárquico, igualitário, sensível às questões de classe e anticapitalista, que prosperou nos anos 1960 e 70. À medida que a Nova Esquerda sucumbia, sua crítica estrutural da sociedade capitalista desapareceu, e o pensamento individualista e liberal característico de nosso país se reafirmou, abalando imperceptivelmente as aspirações dos “progressistas” e autodeclarados esquerdistas. O que selou o acordo, no entanto, foi o fato de tais acontecimentos terem sido simultâneos à ascensão do neoliberalismo. Um partido que apoie a liberalização da economia capitalista é o parceiro perfeito para o feminismo corporativo e meritocrático focado em “assumir riscos” e “superar as barreiras da discriminação de gênero no trabalho”.

O resultado foi um “neoliberalismo progressista” que misturou ideais truncados de emancipação com formas letais de financeirização. Foi esta a mistura que os eleitores de Trump rejeitaram. Dentre os que foram deixados para trás neste admirável mundo novo e cosmopolita estão os operários, mas também gerentes, pequenos empresários, e todos aqueles que dependem da indústria do cinturão da ferrugem e do sul, bem como as populações rurais devastadas pelo desemprego e pelas drogas. Para estas populações, os danos causados pela desindustrialização foram acrescentados aos insultos do moralismo progressista, que os acusa frequentemente de serem culturalmente atrasados. Rejeitando a globalização, os eleitores de Trump também repudiaram o cosmopolitismo liberal que a ela associavam. Para alguns (embora de maneira alguma isto se aplique a todos), não foi difícil culpar, pela deterioração de suas condições de vida, a cultura do politicamente correto, as pessoas negras e as latinas, os imigrantes e os muçulmanos. Aos olhos deles, as feministas e os poderosos de Wall Street são figuras semelhantes, perfeitamente reunidas na pessoa de Hillary Clinton.

O que tornou possível esta percepção foi a ausência de uma esquerda genuína. Apesar de comoções periódicas, como o Occupy Wall Street, que acabou não durando muito tempo, há décadas a esquerda não se apresenta como uma força estável na política dos Estados Unidos. Também não havia qualquer narrativa de esquerda compreensível, que poderia relacionar as queixas legítimas dos apoiadores de Trump a uma crítica abrangente da financeirização, por um lado, e a uma visão antirracista, antimachista e anti-hierárquica da emancipação, por outro. Igualmente devastador foi o fato de que as possíveis relações entre novos movimentos trabalhistas e sociais foram simplesmente ignoradas. Apartados um do outro, estes dois polos indispensáveis para uma militância viável de esquerda chegaram a ser vistos como antíteses.

Foi assim pelo menos até o início da notável campanha pelas primárias de Bernie Sanders, que lutou para reuni-los, embora tenha enfrentado certa resistência inicial da parte do movimento Black Lives Matter. Dinamitando o senso comum neoliberal em vigência, a revolta de Sanders foi o equivalente democrata ao que ocorria com Trump entre os republicanos. Enquanto Trump ainda estava lutando pela aprovação do establishment republicano, Bernie chegou muito perto de derrotar a sucessora ungida de Obama, cujos lacaios controlavam todas as alavancas do poder no Partido Democrata. Entre si, Sanders e Trump obtiveram a aprovação da grande maioria dos eleitores americanos, mas apenas o populismo reacionário de Trump sobreviveu. Trump venceu com facilidade seus rivais republicanos, incluindo os que eram favorecidos por grandes doadores e chefes do partido, mas a insurreição pró-Sanders foi efetivamente minada por um Partido Democrata muito menos democrático. No momento das eleições gerais, uma alternativa de esquerda havia sido efetivamente solapada. O que sobrou foi o “pegar ou largar” da escolha entre o populismo reacionário e o neoliberalismo progressista. Quando a chamada esquerda se resolveu em prol de Hillary Clinton, o rumo dos acontecimentos já estava traçado.

Esta é uma alternativa que a esquerda teria de recusar. Em vez de aceitar os termos apresentados a nós pelas classes políticas, que opõem emancipação a proteção social, deveríamos trabalhar no sentido de redefini-los, tendo como apoio a crescente repulsa da sociedade contra a ordem atual. Em vez de nos aliarmos ao ideal da financeirização-com-emancipação contra a proteção social, deveríamos construir uma nova aliança entre emancipação e proteção social, contra a financeirização. Neste projeto, que se alinha ao de Sanders, emancipação não significaria diversificar a hierarquia corporativa, mas antes aboli-la. Da mesma forma, prosperidade não significaria aumento de valor acionário ou lucro corporativo, mas a disponibilização a todos os cidadãos dos requisitos materiais necessários para uma vida confortável. Esta combinação continua sendo a única resposta digna e vitoriosa na conjuntura atual.

Eu não derramo lágrimas pela derrota do neoliberalismo progressista. Certamente, há muito o que temer de uma administração Trump racista, anti-imigrantes e antiecológica. No entanto, não deveríamos entrar em luto nem pela implosão da hegemonia neoliberal, nem pelo desmantelamento do poder do clintonismo sobre o Partido Democrata. A vitória de Trump foi uma derrota para a aliança entre emancipação e financeirização. Mas sua presidência não oferecerá nenhuma resposta à crise atual, nenhuma promessa de um novo regime, nenhuma hegemonia segura. O que veremos, em vez disso, é um interregnum, uma situação instável de abertura em que novas mentes e corações poderão ser conquistados. Nesta situação, não há apenas perigo, mas também oportunidade: é a chance de construir uma nova nova esquerda.

Se isso ocorrerá ou não depende, em parte, de uma reflexão profunda da parte dos progressistas que apoiaram a campanha de Hillary Clinton. Eles terão de deixar de lado a cômoda, mas falsa narrativa de que perderam para um “grupo de deploráveis” (racistas, misóginos, islamofóbicos e homofóbicos) ajudados por Vladimir Putin e pelo FBI. Eles terão de reconhecer que têm sua parcela de culpa, ao sacrificar a causa da proteção social, do bem estar material e a dignidade da classe trabalhadora em prol de uma falsa compreensão de emancipação, definida em termos de meritocracia, diversidade e empoderamento. Eles terão de refletir profundamente sobre como podemos transformar a economia política do capitalismo financeiro, revivendo o chamado de Sanders por um “socialismo democrático” e descobrindo o que isto pode significar no século 21. Terão, acima de tudo, de se dirigir às massas que elegeram Trump – ao menos àquela parcela que não é composta por racistas ou extremistas de direita, mas é igualmente vítima de um sistema efetivamente “fraudado”. Estes cidadãos podem e devem ser recrutados para um projeto antineoliberal de uma esquerda renovada.

Isto não significa que teremos de nos calar sobre as urgentes questões colocadas pelo racismo e pelo machismo. O que teremos de fazer é mostrar como estas antiquíssimas formas de opressão encontram nova expressão e terreno nos dias de hoje por meio do capitalismo financeiro. Rebatendo a falsa noção de uma cisão irreconciliável, devemos relacionar os preconceitos sofridos pelas mulheres e por minorias étnicas às dificuldades enfrentadas pelos eleitores de Trump. Desta forma, uma esquerda revitalizada poderia lançar as bases de uma nova e poderosa coalizão, comprometida com a luta em prol de todos os oprimidos.






* *Nancy Fraser é professora de filosofia e política na New School for Social Research (Nova York) e autora, mais recentemente, de "Fortunes of Feminism: From State-Managed Capitalism to Neoliberal Crisis" ("Fortunas do Feminismo: do Capitalismo de Estado à Crise Neoliberal", em tradução livre) pela editora Verso em 2013. Artigo publicado originalmente na revista Dissent Magazine.
Tradução: Henrique Mendes

sábado, 21 de setembro de 2019

A União Operária contra Partidos e Sindicatos - Otto Rühle

Linhas de Orientação para a AAU-E* 

Otto Rühle

junho de 1921

A. AAU-E [1] é uma organização unitária política e econômica do proletariado revolucionário.
A AAU-E luta pelo comunismo, socialização da produção das matérias primas, dos meios de produção e das forças produtivas, assim como dos bens de consumo que deles são produto. A AAU-E quer estabelecer a produção e a repartição planificadas em substituição da produção e da repartição capitalistas atuais.
O fim último da AAU-E é a sociedade em que todo o Poder foi abolido, o caminho para esta sociedade passa pela ditadura do proletariado, que é a vontade dos operários determinando exclusivamente a organização política e econômica da sociedade comunista graças à organização dos conselhos.

4. As tarefas mais urgentes da AAU-E são:

a) destruição dos sindicatos e partidos políticos, principais obstáculos à unificação da classe proletária e ao ulterior desenvolvimento da revolução social, que não pode ser tarefa de partido ou sindicato;
b) união do proletariado revolucionário nas empresas, células de produção, fundamento da sociedade futura. A forma de toda a união é a organização de empresa;
c) desenvolvimento da consciência de si e da solidariedade dos trabalhadores;
d) preparação de todas as medidas que serão necessárias para a edificação política e econômica do comunismo.

5. A AAU-E rejeita todos os métodos reformistas e oportunistas de combate, opõe-se a qualquer participação parlamentarista e aos conselhos de empresa legais, pois tal participação significa sabotagem da ideia dos conselhos.

6. A AAU-E rejeita fundamentalmente todos os chefes profissionais. Tais chefes funcionaram só como conselheiros.

7. Todas as funções nas AAU-E são voluntárias.

8. A AAU-E considera o combate de libertação do proletariado não como um assunto nacional, mas como uma tarefa internacional. Por isso se esforça por conseguir a reunião do conjunto do proletariado mundial numa internacional dos conselhos.


Notas:

* Estas teses foram apresentadas pelos distritos de Saxe Oriental e de Hamburgo à 4ª Conferências da AAUD (União Geral dos Trabalhadores da Alemanha) - Junho de 1921. Foram adoptadas como definitivas pela 1ª Conferência Autônoma da Oposição em Outubro de 1921.

[1] AAU-E - União Geral dos Trabalhadores - Organização Unitária. Ela foi uma das duas uniões operárias que reuniam conselhos operários durante a Revolução Alemã. A AAU era ligada ao KAPD (Partido Comunista Operária da Alemanha), do qual Rühle fez parte e redigiu seu programa (incluindo a crítica dos partidos políticos em geral e por isso ele se autodeclarava um "não-partido), apesar do nome. Devido a divergência sobre a ação que deveria ser efetivada na Rússia no encontro da Internacional Comunista (a posição de Gorter e da maioria é que era preciso participar do congresso e articular uma oposição internacional ao bolchevismo e Rühle, depois de um debate com Lênin, que leu trechos do seu livro O Esquerdismo, A Doença Infantil do Comunismo, resolver retornar da Rússia e não participou do congresso), houve uma cisão entre Gorter (que era um dos mais destacados militantes do KAPD) e Rühle, que foi expulso do partido e aglutinou conselhos operários numa nova União Operária, a AAU-E. Após a derrota da Revolução Alemã, Gorter e Rühle voltam a se reunir numa organização revolucionária de comunistas de conselhos.