Rádio Germinal

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sábado, 22 de junho de 2019

EXCESSOS DO CULTURALISMO: PÓS-MODERNIDADE OU AMERICANIZAÇÃO DA ESQUERDA?


EXCESSOS DO CULTURALISMO: 
PÓS-MODERNIDADE OU AMERICANIZAÇÃO DA ESQUERDA?

J.A. LINDGREN ALVES


The Excesses of Culturalism: postmodernity or the americanization of the Left? 

Resumo: Assim como o neoliberalismo, as teorias da pós-modernidade espalharamse por todo o mundo, em um processo que teve início nos Estados Unidos. Os movimentos sociais, ao se tornarem culturalistas, incorporaram e desenvolveram o pósmodernismo, abandonando o universalismo que sempre caracterizara as posições de esquerda. Essa americanização dos movimentos sociais permitiu estabelecer firmemente as questões de gênero, sexualidade e etnicidade na agenda política, mas tal agenda se tornou tão exclusivista que deixou de contemplar conquistas sociais mais amplas. Tendo em conta a especificidade de cada situação, os movimentos sociais do Brasil precisam saber avaliar melhor os modelos que pretendem seguir. 

Palavras-chave MOVIMENTOS SOCIAIS – IDENTIDADES – CULTURALISMO – RAÇA – GÊNERO – PÓS-MODERNIDADE – ESTADOS UNIDOS – BRASIL.

Abstract Just like neoliberalism, postmodernity theories have spread out in the world in a process that has started in the United States. On becoming culturalist, social movements have incorporated and developed postmodernism, setting aside the universalism that has always characterized the Left. Such americanization of social movements has firmly established questions of gender, sexuality and ethnicity on the political agenda, but the agenda itself has become so exclusivist that it stopped addressing further social advancements. Bearing in mind the specificity of each situation, Brazilian social movements should better evaluate the models they intend to follow. Keywords SOCIAL MOVEMENTS – IDENTITIES – CULTURALISM – RACE – GENDER – POSTMODERNITY – UNITED STATES – BRAZIL.



















domingo, 9 de junho de 2019

SOBRE PANNEKOEK E OS CONSELHOS OPERÁRIOS


SOBRE PANNEKOEK E OS CONSELHOS OPERÁRIOS

Paul Mattick
Entrevista a J. J. Lebel[1]
        
J. J. Lebel: Qual relevância tem o livro de Pannekoek[2] na Europa de hoje? Você acredita que a memória analítica e a teoria da experiência passada do comunismo de conselhos, tal qual Pannekoek as expressam, podem ser “ouvidas” e compreendidas por trabalhadores de hoje, daqui?
           
Paul Mattick: Um livro como o de Pannekoek não precisa de relevância imediata. Ele lida com um período histórico: com ocorrências passadas bem como com experiências futuras, no qual o fenômeno dos conselhos operários, aparecendo e desaparecendo, apontam para uma tendência de desenvolvimento da luta de classe dos trabalhadores, e seus objetivos em mutação. Como qualquer outra coisa, formas de luta de classe são históricas no sentido de que fazem sua aparição muito antes de sua plena realização se tornar uma possibilidade real. Numa forma embrionária, por exemplo, os sindicatos surgiram espontaneamente como instrumentos da resistência da classe trabalhadora no começo do desenvolvimento do capitalismo, para desaparecer novamente devido a impedimentos objetivamente determinados a seu desenvolvimento posterior. Contudo, a sua irrelevância temporária não determinou seu caráter, possibilidades e limitações. De maneira, similar, os conselhos operários apareceram sob condições que impediam o desenvolvimento de todas as suas potencialidades revolucionárias. O conteúdo dos levantes sociais onde os conselhos operários sugiram inicialmente não era adequado à sua forma organizacional. Os conselhos operários russos de 1905 e 1917, por exemplo, lutaram por uma democracia burguesa constitucional e por objetivos sindicais como o período de oito horas e salários mais altos. Os conselhos operários alemães de 1918 abriram mão de seu poder político, ganho momentaneamente, em favor da Assembleia Nacional Burguesa[3] e o caminho de uma evolução ilusória da social-democracia alemã. De qualquer forma, os conselhos operários tiveram que se eliminar, já que sua forma organizacional contradizia seus propósitos políticos e sociais. Enquanto que, na Rússia, foi o despreparo objetivo para uma revolução socialista, na Alemanha foi a falta de vontade subjetiva para realizar o socialismo por meios revolucionários que levou à decadência, e finalmente, à destruição forçada do movimento dos conselhos. Ainda assim, foram os conselhos operários, e não as organizações operárias tradicionais, que asseguraram o sucesso dos levantes revolucionários, por mais limitados que fossem. Embora os conselhos revolucionários revelassem que o proletariado é capaz de desenvolver organizações revolucionárias próprias – em combinação com organizações operárias tradicionais, ou em oposição a elas – à época de sua formação eles tinham apenas vagos conceitos, ou nenhum, de como consolidar o poder e usá-lo para mudar a sociedade. Assim, voltaram às organizações políticas do passado. A questão de saber se a ideia do conselho, tal qual elaborada por Pannekoek, poderia ser compreendida e assumida pelos trabalhadores hoje, é bastante estranha, já que a ideia de conselhos operários implica nada mais, e também nada menos, que a auto-organização dos trabalhadores onde quer e quando quer que isso se torne uma necessidade inescapável na luta por seus objetivos imediatos, ou para propósitos mais distantes, que não podem ser alcançados, ou que de fato estão opostos, a organizações operárias tradicionais tais como sindicatos e partidos políticos. Para acontecer, uma luta particular dentro de uma fábrica, ou uma indústria, e a extensão da luta por áreas mais extensas e em números maiores, pode exigir um sistema de delegados de trabalhadores, comitês de ação ou conselhos operários. Tais lutas podem, ou não, encontrar o apoio das organizações operárias existentes. Se não, terão que ser levadas a cabo independentemente, pela luta dos próprios trabalhadores, e isso implica em sua auto-organização. Sob circunstâncias revolucionárias, isso pode muito bem levar à disseminação de um vasto sistema de conselhos operários, como base para uma total reorganização da estrutura social. É claro, sem uma situação revolucionária dessas, exprimindo uma condição de crise social, a classe trabalhadora não irá se ocupar com as implicações mais amplas do sistema de conselhos, embora possa se organizar para lutas particulares por meio de conselhos. A descrição de Pannekoek da teoria e prática dos conselhos operários, assim, não relata nada mais que as experiências dos próprios trabalhadores. Mas o que eles experimentam, eles também podem compreender e, sob condições favoráveis, aplicar em sua luta dentro e contra a sociedade capitalista.

J. J. Lebel: Como você acha que o livro de Pannekoek foi concebido e em que relação à sua prática na Alemanha ou na Holanda? Você acredita que seu livro e seu ensaio sobre o sindicalismo, em Living Marxism[4], se aplicam às condições presentes?

Paul Mattick: Pannekoek escreveu seu livro sobre os conselhos operários durante a Segunda Guerra Mundial. Foi um resumo de sua experiência de vida na teoria e na prática do movimento operário internacional e do desenvolvimento e transformação do capitalismo dentro de várias nações e como um todo. Termina com o triunfo temporário de um capitalismo redivivo, ainda que transformado, e com a total sujeição dos interesses da classe trabalhadora às necessidades competitivas de sociedades capitalistas rivais[5] se preparando para novos conflitos imperialistas. Ao contrário da classes dominante, que se adaptam muito rápido a condições diferentes, a classe operária, ao ainda aderir a ideias e atividades tradicionais, encontra-se numa situação impotente e aparentemente desesperançosa. E, à medida que as mudanças socioeconômicas mudam as ideias apenas gradualmente, ainda pode levar um tempo considerável até que um novo movimento operário – adaptado às novas condições – surja. Embora a existência continuada do capitalismo, em sua forma de capitalismo privado ou de capitalismo estatal, provou que as expectativas de crescimento de um novo movimento operário após a Segunda Guerra Mundial eram prematuras, a resistência continuada do capitalismo não remove suas contradições imanentes e, portanto, não desonerará os trabalhadores de ter que lhe pôr um fim. É claro, com o capitalismo ainda em seu berço, as velhas organizações operárias, os partidos parlamentares e os sindicatos também podiam ser mantidos. Mas já são reconhecidos, e reconhecem a si mesmos, como parte do capitalismo, destinados a afundar com a sociedade da qual sua existência depende. Muito antes de se tornar um fato óbvio, ficou claro a Pannekoek que o velho movimento operário era um produto histórico do capitalismo ascendente, preso a esse tipo particular de desenvolvimento ao passo que a questão da revolução e do socialismo só podia ser posta, mas não respondida. Nesse período, essas organizações operárias estavam destinadas a se degenerar em ferramentas do capitalismo. O socialismo depende agora da ascensão de um novo movimento operário, capaz de criar as precondições para o autogoverno do proletariado. Se os trabalhadores tomarem o processo de produção e determinarem a distribuição de produtos, eles precisarão, mesmo antes dessa transformação revolucionária, funcionar e se organizar de uma forma inteiramente diferente do que no passado. Em ambas as formas de organização, nos partidos parlamentares e nos sindicatos, os trabalhadores delegam seu poder a grupos especiais de líderes e organizadores, que supostamente agiriam em prol deles, porém de fato apenas fomentam seus próprios interesses separados. Os trabalhadores perderam controle sobre sua própria organização. Mas mesmo que isso não tivesse acontecido, essas organizações eram totalmente incapazes de servir como instrumentos para a revolução proletária ou para a construção do socialismo. Partidos parlamentares foram um produto da sociedade burguesa, uma expressão da democracia no capitalismo laissez-faire e significante apenas nesse contexto. Eles não têm lugar no socialismo, que deve acabar com a disputa política ao terminar com os interesses específicos e as relações sociais de classe. Como não há espaço, nem necessidade para partidos políticos numa sociedade socialista, sua superfluidade futura já explica sua ineficiência como instrumento de mudança revolucionária. Os sindicatos não têm, tampouco, função alguma no socialismo, que desconhece relações de salários e que organiza sua produção sem preocupação com ramos e indústrias específicos, mas de acordo com as necessidades sociais. À medida que a emancipação da classe operária só pode ser feita pelos próprios operários, eles têm que se organizar como classe, para tomar e se assenhorar do poder. Com relação às condições presentes, contudo, que ainda não são de natureza revolucionária, as atividades da classe operária sob a forma de conselhos ainda não exibem diretamente suas potencialidades revolucionárias mais amplas, mas é uma simples expressão da integração das organizações operárias tradicionais à sociedade capitalista[6]. Os partidos parlamentares e os sindicatos perdem sua eficácia limitada quando não é mais possível combinar uma melhora dos padrões de vida dos trabalhadores com uma expansão progressiva do capital. Sob condições que impedem uma acumulação capitalista suficiente, isso é, sob condições de crise econômica, as atividades reformistas dos partidos políticos e sindicatos deixam de ser operativas e essas organizações de abstêm de suas supostas funções, já que ameaçariam a própria sociedade capitalista. Eles tentarão, antes, ajudar a sustentar essa sociedade, ao ponto de sabotar diretamente as aspirações dos trabalhadores por melhores condições de vida e de trabalho. Eles ajudarão o capitalismo a vencer sua crise a custo dos trabalhadores. Em tal situação, os trabalhadores, indispostos a se submeterem aos ditames do capital, são forçados a recorrerem a atividades que não são sancionadas pelas organizações operárias oficiais, como greves ilegais, ocupações de fábricas e outras formas de ações diretas fora do controle das organizações operárias estabelecidas. Essas atividades autodeterminadas, com sua estrutura temporária de conselhos, indicam a possibilidade de sua aplicação radical sob situações revolucionárias emergentes, substituindo as formas de organização tradicionais, que se tornaram um embaraço tanto para a luta imediata quanto para os propósitos revolucionários.

J. J. Lebel: Você poderia dar alguns exemplos práticos e concretos de como os conselhos operários funcionaram na Rússia, Alemanha, Hungria etc.? Como diferiam do partido tradicional ou das organizações sindicais? Quais são as diferenças básicas? Como o conselho e o partido, ou sindicato, colidem?

Paul Mattick: Assim como toda greve (ocupação ou outro tipo de atividade anticapitalista que ignora as organizações operárias oficiais e foge de seu controle) assume o caráter de uma ação da classe operária independente – que determina sua própria organização e procedimentos, pode ser encarada como um movimento de conselhos –, assim também numa escala maior, como aconteceu na Rússia em 1905 e 1917, na Alemanha em 1918 e posteriormente – contra autoridades do capitalismo de estado – na Hungria, Tchecoslováquia e Polônia, valem-se dos conselhos operários como a única forma das ações da classe trabalhadora possível sob condições nas quais todas as instituições e organizações estabelecidas se tornaram defensoras do status quo. Esses conselhos surgem da necessidade, mas também por causa da oportunidade oriunda dos processos de produção capitalista, que já são as formas “naturais” das atividades da classe operária e sua organização. Aqui os trabalhadores são “organizados” como classe contra a classe capitalista: o lugar de exploração é também o veículo para sua resistência contra a dominação capitalista. “Organizados” por seus senhores nas fábricas, indústrias, exércitos ou em distritos separados da classe operária, os trabalhadores se tornam essas “organizações” suas próprias, utilizando-as para empreendimentos independentes e sob sua própria liderança. Essa última foi eleita de seu meio, e era a qualquer momento passível de ser chamada de volta. Assim a divergência que evoluiu historicamente entre as organizações operárias institucionalizadas e a classe operária em grande medida foi abolida, e a contradição aparente entre organização e espontaneidade foi resolvida. Até agora, na verdade, os conselhos operários encontraram suas limitações nos limites das ações espontâneas sob condições desfavoráveis. Foram a expressão esporádica de movimentos esporádicos, ainda incapazes de transformar seu potencial de se tornar uma estrutura organizacional de relações não-exploradoras em realidade. A diferença básica entre o movimento de conselhos e as organizações operárias tradicionais é que, enquanto estas últimas perdem sua função num capitalismo em decadência e nada têm a contribuir para a construção do socialismo, os primeiros não assumem a única forma das ações efetivas da classe operária independentemente do estado em que o capitalismo se encontre, mas são, ao mesmo tempo, a prefiguração da estrutura de organização de uma sociedade socialista.

J. J. Lebel: Você vê alguma semelhança (em intenção, resultado ou forma) entre o comunismo de conselhos e a atual luta dos trabalhadores nos EUA e Europa? Você acha que eventos recentes indicam uma evolução significante e qualitativa rumo a um tipo diferente de sociedade? Ou você acha que lutas recentes que se sobressaíram (Maio de 68, Lordstown, LIP etc.) são mais dos mesmos velhos programas de modernizações do capitalismo?

Paul Mattick: Há, sem dúvida, uma conexão entre as recentes expressões de ações autodeterminadas da classe operária, tais como o movimento francês do Maio de 1968, a ocupação da LIP, mas também as rebeliões dos trabalhadores na Alemanha Oriental, Polônia e mesmo Rússia, e o reconhecimento “instintivo”, bem como consciente, de que as formas de ação representadas pelo conceito e pela realidade dos conselhos operários é a exigência necessária para a luta dos trabalhadores sob as atuais condições. Mesmo greves sem apoio oficial nos EUA podem ser encaradas como uma primeira expressão de uma consciência de classe em desenvolvimento, dirigindo-se não apenas contra o óbvio inimigo capitalista, mas também contra o movimento operário oficialmente integrado. Contudo, as tradições ainda são poderosas e as instituições nutridas por elas constituem parte da resistência do capitalismo. Isso aparece exigir situações muito mais catastróficas para liberar todo o poder de ações de massa espontâneas, sobrepujando não apenas os defensores do capitalismo mas a própria sociedade capitalista. Na medida em que lutas recentes e vindouras dos trabalhadores escaparam ou escapam da influência e do controle das autoridades capitalistas, ao qual a liderança do movimento operário oficial também pertence, houve a haverá momentos que não podem ser integrados à sociedade capitalista e, portanto, constituem verdadeiros movimentos revolucionários.
           
J. J. Lebel: Se novas greves gerais (como em Maio de 68) ou outros movimentos revolucionários de massa surgirem, você acredita que eles podem se desenvolver rumo aos conselhos operários, distanciando-se de partidos e sindicatos? Como? O que você acha que pode ser feito para dar cabo de partidos e sindicatos que impedem a auto-organização e a democracia direta?

Paul Mattick: Numa crise geral do capitalismo sempre há a possibilidade e de que os movimentos sociais resultantes transcenderão os obstáculos colocados em seu caminho pelas formas tradicionais de atividades econômicas e políticas, e procederão de acordo com as novas necessidades que incluem a de formas efetivas de organização. Contudo, assim como o capitalismo não abrirá mão por conta própria, as organizações operárias existentes tentarão ao máximo manter o controle desses movimentos sociais e dirigi-los rumo a propósitos mais favoráveis para si mesmos. No “melhor” dos casos – caso não consigam ajudar a sustentar o status quo – eles dirigirão um possível levante revolucionário para os canais do capitalismo de Estado, para manter as relações de produção que lhes permitiriam não só a existência prolongada, mas também transformariam suas organizações em instrumentos de uma sociedade capitalista reformada, e suas burocracias numa classe dominante. Em resumo, eles tentariam transformar uma potencial revolução socialista numa revolução capitalista-estatal, com os resultados apresentados tais quais nas nações do assim chamado “socialismo”. Eles podem ter sucesso nessas tentativas. Contudo, essa é a razão mais premente para defender e estabelecer conselhos operários em qualquer situação revolucionária, e para tentar concentrar todo o poder necessário para a autodeterminação dos trabalhadores. O controle social através dos conselhos operários é uma possibilidade futura entre outras. A probabilidade de sua realização talvez seja menor do que a da transformação para um capitalismo de Estado. Porém, como esse último não é uma solução para o problema inerente às relações sociais de exploração, uma possível revolução capitalista-estatal iria apenas adiar, mas não eliminar, a necessidade de outra revolução tendo o socialismo como propósito.

J. J. Lebel: Você acredita que os conselhos são, ainda, hoje, o padrão básico para uma sociedade comunista ou devem ser atualizados para se adaptar às condições presentes?

Paul Mattick: O comunismo será um sistema de conselhos operários ou não existirá. A “associação de produtores de livres e iguais”, que determina sua própria produção e distribuição, só pode ser pensada como uma sociedade de autodeterminação no processo de produção, e a ausência de qualquer autoridade além da vontade coletiva dos próprios produtores. Significa o fim do Estado, ou qualquer forma de exploração baseada no Estado. Deve ser uma produção planejada, sem a intervenção de relações de troca e as vicissitudes do mercado. A regulamentação do caráter social de produção deve descartar as relações de preço e o fetichismo do valor e deve ser realizada em termos da economia do tempo, como tempo de trabalho vivo como medida de cálculo, onde o cálculo ainda for requerido. Uma pressuposição para tal desenvolvimento é a ausência de um governo central com poderes políticos próprios. As instituições centrais do sistema de conselhos são simplesmente empresas entre outras, sem um aparelho especial para assegurar sua vontade fora do consentimento de outros conselhos ou de outras empresas. A estrutura da sociedade deve se organizar de tal modo que combine a regulamentação central com a autodeterminação dos produtores. Enquanto que, sob as condições de subdesenvolvimento que defrontaram os primeiros conselhos após uma revolução política bem-sucedida (a referência é a Rússia de 1917), onde era praticamente impossível fazer valer uma sociedade comunista baseada nos conselhos operários, as condições que prevalecem nas nações capitalistas desenvolvidas permitem a realização do socialismo por meio do sistema de conselhos. É precisamente a forma mais avançada do capitalismo, com sua tecnologia avançada, sua alta produtividade, e redes de comunicação, que oferece uma base material para o estabelecimento do comunismo baseado num sistema de conselhos operários. A ideia do conselho não é uma coisa do passado, mas a proposição mais realista para o estabelecimento de uma sociedade socialista. Nada do que tenha acontecido durante as últimas décadas lhe tirou sua possibilidade de realização – pelo contrário, apenas substanciou o caráter não-utópico dos conselhos operários e a probabilidade da emergência de uma sociedade verdadeiramente comunista.  




[1] A entrevista original foi realizada em 1975 e nunca havia sido publicada. Inicialmente, ela foi parte de um programa de rádio sobre os Conselhos Operários que nunca foi ao ar. Logo depois, fizeram uma transcrição da entrevista que foi adicionada na segunda edição francesa do livro Conselhos Operários (Spartacus, novembro de 1982). Na versão norte-americana do livro de Pannekoek, a entrevista foi acrescentada como um dos apêndices. A versão inglesa do livro pode ser conferida em https://libcom.org/files/Pannekoek%20-%20Workers'%20Councils.pdf, e a entrevista em inglês pode ser acessada em https://www.marxists.org/archive/mattick-paul/1975/lebel.htm. A presente tradução portuguesa foi publicada na edição recente do livro Pannekoek realizado pela editora L-Dopa, com o título de Conselhos de Trabalhadores (2018). A tradução foi revista, inclusive substituindo no texto “conselhos de trabalhadores” por uma versão mais fiel e adequada, que é “conselhos operários” e, mais ainda, “organizações trabalhistas” por “organizações operárias”, entre outras alterações. A revisão da tradução foi necessária pelo fato de que a tradução portuguesa foi realizada a partir da inglesa, que já é problemática (ao que tudo indica, o original é francês), bem como por ser perceptível que o tradutor desconhece termos clássicos do marxismo e do movimento operário e as distintas concepções políticas próximas de tal movimento (tal como colocar o termo “trabalhismo” ao invés de operário, devido a tradução inglesa ser uma mera tradução formal, sendo que isso não só é equivocado como pode gerar, nos leitores com pouca familiaridade, a sua confusão com o trabalhismo, uma concepção burguesa infiltrada nas lutas dos trabalhadores). Por outro lado, trocamos o termo “sistema” por sociedade, pois Mattick realiza uma reprodução inercial de um termo em voga na época. Só mantivemos o termo sistema no caso da referência aos conselhos (sistema de conselhos), devido à tradição do uso de tal expressão, como equivalente a uma sociedade comunista fundada nos conselhos operários. A recente tradução da L-Dopa ainda tem o problema adicional de não constar o Livro III, O Pensamento, tal como na edição inglesa. O livro III contém os textos, "As ideologias", "A religião", "O nacionalismo", "A democracia", "comunismo e socialismo" e "pensamento e ação". O item "A democracia" foi traduzido e publicado na revista Enfrentamento (disponível também em: https://www.marxists.org/portugues/pannekoe/1946/mes/democracia.htm (Nota Mutadis Mutandis - NMM).
[2] Refere-se ao livro Os Conselhos Operários, publicado originalmente em 1937 (NMM).
[3] Que gerou a chamada “República de Weimar”, mas isso ocorreu em Berlim e algumas cidades, sendo que em outras regiões da Alemanha foram geradas “repúblicas de conselhos operários” e, no caso de Berlim, houve setores dissidentes, a começar pela Liga Spartacus, cuja resistência resultou na morte de Rosa Luxemburgo e Karl Liebneckt (NMM).
[4] Referência ao artigo publicado na Revista Living Marxism, em 1936. A revista era publicada por comunistas de conselhos com o nome International Council Correspondence, publicada de 1934 a 1943, mudando em 1938 para o nome Living Marxism, e, depois, em 1942, para New Ensays. Na verdade, o artigo foi publicado quando a revista ainda tinha o primeiro nome. O artigo de Pannekoek pode ser acessado em português, apesar de problemas de tradução (como quase todos os textos dele em português, com raras exceções), no seguinte link: https://www.marxists.org/portugues/pannekoe/1936/mes/sindicalismo.htm. Uma tradução de textos de Pannekoek de melhor qualidade e fidelidade pode ser vista em https://drive.google.com/file/d/1kFI9lZVy_pGA5uPJhaYFwu3TMgNdF71H/view?usp=sharing.
[5] Mattick se refere ao processo da guerra fria, que se fundamentava nas duas potências capitalistas rivais, EUA e URSS, uma oposição interimperialista entre capitalismo privado e capitalismo de estado (Nota MM). A evolução do pensamento de Pannekoek sobre o sindicalismo (que avança depois deste texto de 1936) pode ser vista nesse link: https://www.marxists.org/portugues/pannekoe/1936/mes/sindicalismo.htm. (NMM).
[6] Mattick se refere aqui a formação de comissões ou conselhos sob iniciativa de sindicatos ou empresas (NMM).

sexta-feira, 7 de junho de 2019

CRÍTICA AO ANARQUISMO




CRÍTICA AO ANARQUISMO*


GUY DEBORD


É na própria luta histórica que é preciso realizar a fusão do conhecimento e da ação, de tal modo que cada um destes termos coloque no outro a garantia da sua verdade. A constituição da classe proletária em agente ativo é a organização das lutas revolucionárias e a organização da sociedade no momento revolucionário: é aqui que devem existir as condições práticas da consciência, nas quais a teoria da práxis se confirma tomando-se teoria prática. Contudo, esta questão central da organização foi a menos considerada pela teoria revolucionária na época em que se fundava o movimento operário, isto é, quando esta teoria possuía ainda o carácter unitário vindo do pensamento da história (e que ela se tinha justamente dado por tarefa desenvolver até uma prática histórica unitária). É, pelo contrário, o lugar da inconsequência para esta teoria, ao admitir o retomar de métodos de aplicação estatais e hierárquicos copiados da revolução burguesa. As formas de organização do movimento operário desenvolvidas sobre esta renúncia da teoria tenderam por sua vez a interditar a manutenção de uma teoria unitária, dissolvendo-a em diversos conhecimentos especializados e parcelares. Esta alienação ideológica da teoria já não pode, então, reconhecer a verificação prática do pensamento histórico unitário que ela traiu, quando uma tal verificação surge na luta espontânea dos operários; ela pode somente concorrer para reprimir-lhe a manifestação e a memória. Todavia, estas formas históricas aparecidas na luta são justamente o meio prático que faltava à teoria para que ela fosse verdadeira. Elas são uma exigência da teoria, mas que não tinha sido formulada teoricamente. O soviete não era uma descoberta da teoria. E a mais alta verdade teórica da Associação Internacional dos Trabalhadores, era já a sua própria existência na prática.

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Os primeiros sucessos da luta da Internacional levavam-na a libertar-se das influências confusas da ideologia dominante que nela subsistiam. Mas a derrota e a repressão que ela cedo encontrará fizeram passar ao primeiro plano um conflito entre duas concepções da revolução proletária, ambas contendo uma dimensão autoritária, pela qual a auto- emancipação consciente da classe é abandonada. Com efeito, a querela tornada irreconciliável entre os marxistas e os bakuninistas era dupla, tendo ao mesmo tempo por objeto o poder na sociedade revolucionária e a organização presente do movimento, e ao passar dum ao outro destes aspectos, as posições dos adversários invertem- se. Bakunin combatia a ilusão de uma abolição das classes pelo uso autoritário do poder estatal, prevendo a reconstituição de uma classe dominante burocrática e a ditadura dos mais sábios, ou dos que serão reputados como tal. Marx, que acreditava que um amadurecimento inseparável das contradições econômicas e da educação democrática dos operários reduziria o papel de um Estado proletário a uma simples fase de legalização de novas relações sociais, impondo-se objetivamente, denunciava em Bakunin e seus partidários o autoritarismo duma elite conspirativa que se tinha deliberadamente colocado acima da Internacional, e que formulava o extravagante desígnio de impor à sociedade a ditadura irresponsável dos mais revolucionários, ou dos que se teriam a si próprios designado como tal. Bakunin recrutava efetivamente os seus partidários sob tal perspectiva: «Pilotos invisíveis no meio da tempestade popular, nós devemos dirigi-la, não por um poder ostensivo, mas pela ditadura coletiva de todos os aliados. Ditadura sem faixa, sem título, sem direito oficial, e quanto mais poderosa menos terá aparências de poder». Assim se opuseram duas ideologias da revolução operária, contendo cada uma delas uma crítica parcialmente verdadeira, mas perdendo a unidade do pensamento da história e instituindo-se, a si próprias, em autoridades ideológicas. Organizações poderosas, como a social-democracia alemã e a Federação Anarquista Ibérica, serviram fielmente uma e outra destas ideologias; e em toda parte o resultado foi grandemente diferente do que era desejado.

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O fato de olhar a finalidade da revolução proletária como algo imediatamente presente constitui, ao mesmo tempo, a grandeza e a fraqueza da luta anarquista real (porque nas suas variantes individualistas, as pretensões do anarquismo permanecem irrisórias). Do ponto de vista do pensamento histórico da moderna luta de classes, o anarquismo coletivista retém unicamente sua conclusão, e sua exigência absoluta desta conclusão traduz-se igualmente no seu desprezo deliberado pelo método. Assim, sua crítica da luta política permaneceu abstrata, enquanto sua escolha da luta econômica não se afirmou, ela própria, senão em função da ilusão de uma solução definitiva arrancada de uma só vez nesse terreno, no dia da greve geral ou da insurreição. Os anarquistas têm um ideal a realizar. O anarquismo é a negação ainda ideológica do Estado e das classes, isto é, das próprias condições sociais da ideologia separada. É a ideologia da pura liberdade que iguala tudo e que afasta toda a ideia do mal histórico. Este ponto de vista da fusão de todas as exigências parciais deu ao anarquismo o mérito de representar a recusa das condições existentes no conjunto da vida, e não em torno de uma especialização crítica privilegiada, mas esta fusão, ao ser considerada no absoluto, segundo o capricho individual, antes da sua realização efetiva condenou também o anarquismo a uma incoerência demasiado fácil de constatar. O anarquismo não tem senão a redizer e a repor em jogo, em cada luta, a sua simples conclusão total, porque esta primeira conclusão era desde a origem identificada com a concretização integral do movimento. Bakunin podia, pois, escrever em 1873, ao abandonar a Federação do Jura: «Nos últimos nove anos desenvolvemos no seio da Internacional mais ideias do que o necessário para salvar o mundo, [como] se as ideias por elas mesmas pudessem salvá-lo, e desafio quem quer que  seja a inventar uma nova. O tempo já não está para ideias, mas para fatos e atos». Sem dúvida, esta concepção conserva do pensamento histórico do proletariado a certeza de que as ideias devem tornar-se práticas, mas ela abandona o terreno histórico ao supor que as formas adequadas a esta passagem à prática já estão encontradas e não variarão mais.

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Os anarquistas, que se distinguem explicitamente do conjunto do movimento operário pela sua convicção ideológica, vão reproduzir entre si esta separação das competências, ao fornecer um terreno favorável à dominação informal, sobre toda a organização anarquista, pelos propagandistas e defensores da sua própria ideologia, especialistas, via de regra, medíocres na medida em que sua atividade intelectual se reduz principalmente à repetição de algumas verdades definitivas. O respeito ideológico da unanimidade na decisão favoreceu antes de mais nada a autoridade incontrolada, na própria organização, dos especialistas da liberdade; e o anarquismo revolucionário espera do povo liberto o mesmo gênero de unanimidade, obtida pelos mesmos meios. De resto, a recusa de considerar a oposição das condições entre uma minoria agrupada na luta atual e a sociedade dos indivíduos livres alimentou uma permanente separação dos anarquistas no momento da decisão comum, como o mostra o exemplo de uma infinidade de insurreições anarquistas na Espanha, limitadas e esmagadas no plano local.

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A ilusão, sustentada mais ou menos explicitamente no anarquismo autêntico, é a iminência permanente de uma revolução que deverá dar razão à ideologia, e ao modo de organização prático derivado da ideologia, ao realizar-se instantaneamente. O anarquismo conduziu realmente, em 1936, uma revolução social e o esboço, o mais avançado de todos os tempos, de um poder proletário. Nesta circunstância, é preciso ainda notar, por um lado, que o sinal de uma insurreição geral tinha sido imposto pelo pronunciamento do exército. Por outro lado, na medida em que esta revolução não se concluiu nos primeiros dias, pela existência de um poder franquista em metade do país, apoiado fortemente pelo estrangeiro no momento em que o resto do movimento proletário internacional já estava vencido, e pela sobrevivência das forças burguesas ou de outros partidos operários estatistas no campo da República, o movimento anarquista organizado mostrou-se incapaz de alargar as meias-vitórias da revolução, e até mesmo de defendê-las. Os seus reconhecidos chefes tornaram-se ministros e reféns do Estado burguês que destruía a revolução para perder a guerra civil.
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Trecho do livro "A Sociedade do Espetáculo".


segunda-feira, 27 de maio de 2019

A Comuna Revolucionária II - Karl Korsch


A Comuna Revolucionária II


Karl Korsch




Para compreender a posição tardia de Marx sobre a comuna revolucionária dos operários parisienses em seu autêntico significado, é preciso partir da visão marxista inicial da relação histórica existente entre as formas de organização da moderna luta de classes proletária e as da luta burguesa de classes, anterior àquela no tempo. Marx, ao celebrar estava nova comuna – resultante da luta da classe produtora contra a classe exploradora e capaz de destruir em um ato revolucionário a anterior máquina estatal burguesa – como a forma finalmente encontrada para levar a cabo a emancipação do trabalho, não se propunha, absolutamente – diferentemente do que fizeram alguns de seus seguidores, depois de sua morte e inclusive nos dias atuais – assinalar uma forma determinada de organização política, chame-se comuna revolucionária ou sistema revolucionário de conselhos como única forma válida patenteada da ditadura revolucionária de classe do proletariado. Na frase imediatamente anterior alude expressamente à “diversidade de interpretações que se fizeram da comuna e a diversidade de interesses que nela estavam expressos” e, conseqüentemente, o caráter extraordinariamente flexível da forma política representada por esta nova modalidade de governo. Precisamente esta ilimitada flexibilidade das novas formas de poder político criada pelos comunardos de Paris no ardor da luta e pelas quais esta veio diferenciar-se da “clássica evolução do governo burguês” – do poder estatal centralizado da moderna república parlamentar – constitui para Marx o pressuposto mais importante da possibilidade de utilização em última instância dessa forma, mantendo-se rigorosamente fiel aos verdadeiros interesses da classe operária, como alavanca inclusive para derrubar os fundamentos econômicos sobre os quais repousa a existência das classes, em suma, a dominação estatal e classista. O regime revolucionário comunal acaba convertendo-se assim, em determinadas condições históricas, na forma política de um processo de evolução, isto é, expressando de forma mais clara, de uma ação revolucionária cujo objetivo essencial não consiste já na manutenção de uma determinada forma de dominação estatal, nem na realização, tampouco, de um novo tipo “superior” de estado, mas, muito mais, na definitiva criação dos pressupostos materiais para a dissolução de todo tipo de estado. “Sem esta última condição, o regime comunal não passaria de uma impossibilidade e um erro”, disse Marx, nesse contexto com toda a clareza desejável.
Contudo, entre a caracterização marxista da Comuna de Paris como “forma política” finalmente encontrada para a autoemancipação econômica e social da classe operária e a ênfase que simultaneamente coloca ao sublinhar que se a comuna revolucionária ajustava-se a este fim, era devido, fundamentalmente, à indeterminação e ambigüidade desta forma política, isto é, em sua carência de forma, não deixa de existir uma contradição não resolvida. Só em um ponto parece estar totalmente clara a posição adotada por Marx nesta época, sob a impressão de determinadas teorias políticas com as quais foi tomando contato e incorporando à sua concepção política inicial e como reação prática, e não em pequena medida, à poderosa experiência da Comuna parisiense: se no Manifesto Comunista de 1847-1848 e no Manifesto Inaugural da Associação Internacional dos Trabalhadores de 1864 fala da necessidade da conquista do poder político pelo proletariado, após as experiências da Comuna de Paris aprendeu claramente que “a classe operária não pode limitar-se apenas a apoderar-se da máquina estatal em sua organização atual, colocando-a em movimento de acordo com seus próprios fins, mas deve aniquilar revolucionariamente a máquina estatal burguesa existente”. Desde então e, mais especialmente, a partir de Lênin em 1917, ao desenvolver estas manifestações no plano teórico – em seu escrito O Estado e a Revolução – e na prática – com a Revolução de Outubro – convertendo-se assim no novo intérprete desta teoria marxista do estado, ainda não falsificada, tais manifestações foram aceitas como elemento nuclear e medular da teoria política do marxismo, globalmente considerada.
Pois bem, não deixa de resultar evidente que com esta determinação puramente negativa da essência do novo poder estatal revolucionário do proletariado, de acordo com o qual dito poder não pode ser “a máquina estatal já organizada”, do anterior estado burguês, “assumida, apenas, pela classe operária e posta em movimento de acordo com seus próprios fins”, não afirma, em realidade, nada positivo acerca do caráter formal deste novo poder estatal proletário. Temos que perguntar, em virtude de quê a “comuna” representa, em sua forma específica, tal como Marx a definiu em sua A Guerra Civil na França e vinte anos depois Engels voltou a descrevê-la em sua detalhada introdução à terceira edição desta obra como “a forma política enfim encontrada de governo da classe operária”? Como Marx e Engels, os ardentes admiradores do sistema centralista da ditadura burguesa revolucionária edificada pela Convenção da grande Revolução Francesa, chegaram a considerar como “forma política” da ditadura revolucionária do proletariado precisamente a “comuna”, isto é, algo total e evidentemente oposto aquele sistema?
Na realidade, uma análise medianamente rigorosa dos programas políticos e dos objetivos apresentados por ambos fundadores do socialismo científico, tanto na época anterior a sublevação da Comuna de Paris como também depois do mesmo, evidencia a insustentabilidade da tese de que a forma da ditadura proletária elaborada em 1871 pela Comuna de Paris resulta de certo modo conciliável com ditas teorias políticas. Parece muito mais, pelo contrário, que neste ponto concreto a verdade histórica correspondia ao grande adversário de Marx na Primeira Internacional, Mikhail Bakunin, quando acerca da adesão posterior do marxismo à Comuna de Paris se expressa nos seguintes termos não pouco jocosos:
“A impressão que causou esta sublevação comunista foi tão poderosa, que inclusive os marxistas, cujas ideias haviam sido lançadas ao mar, em virtude precisamente de tal sublevação, se viram obrigados a tirar o chapéu para ela. E mais, contra toda lógica e contra seus mais íntimos sentimentos fizeram seus o programa e os objetivos da comuna. Era um disfarce cômico e forçado. Porém, não tinha mais como remediar, pois, caso contrário, teriam sido repudiados e abandonados por todos, tão forte era a paixão que esta revolução havia despertado em todo o mundo” (citado segundo Brupbacher, Marx e Bakunin, p. 114-115).
As ideias revolucionárias dos comunardos parisienses de 1871 derivavam, por um lado, do programa federalista de Bakunin e Proudhon, e, por outro lado, da acumulação de ideias jacobinas sobreviventes sob o nome de blanquismo, porém, só em medida muito escassa do marxismo. Quando Friedrich Engels, vinte anos depois, afirmou que os blanquistas, a maioria da Comuna parisiense, foram obrigados pela força dos fatos a proclamar, no lugar do seu próprio programa de “centralização ditatorial rigorosa de todo o poder em mãos do novo governo revolucionário” justamente o contrário, isto é, a livre federação de todas as comunas francesas com a Comuna de Paris, estava aludindo a uma contradição bastante familiar ao que ocorreu com Marx e Engels e seu incondicional reconhecimento da comuna como “a forma finalmente encontrada” do governo da classe operária. Quando Lênin, em seu escrito O Estado e a Revolução, expõe a evolução da teoria marxista do estado, como se, já em 1852, Marx tivesse dado a sua abstrata formulação – apresentada no Manifesto Comunista de 1847-1848 – da tarefa política do proletariado revolucionário no período de transição, cujo conteúdo concreto seria a destruição e aniquilação do velho poder estatal burguês por parte da classe operária vitoriosa, comete um erro. Contra esta tese leninista pode-se, inclusive, lançar mão do próprio testemunho de Marx e Engels, que declararam repetidas vezes que foi precisamente as experiências da Comuna de Paris de 1871 o que proporcionou a prova incontrovertida de que “a classe operária não podia limitar-se a apenas apoderar-se da máquina estatal em sua organização atual, colocando-a de acordo com os seus próprios fins”. O próprio Lênin revela um salto lógico que neste ponto incorre sua exposição do processo evolutivo da teoria marxista revolucionária do estado em virtude, precisamente, desse salto extremo de todo um período de vinte anos que simplesmente efetua em sua análise do conjunto dos escritos e considerações de Marx e Engels sobre o tema. Análise extraordinariamente exata, tanto no plano histórico quanto no filológico. Do 18 Brumário de Luís Bonaparte (1852) passa diretamente para A Guerra Civil na França (1871), esquecendo-o – ou passando por alto – entre outras coisas, que, inclusive no Manifesto Inaugural da Primeira Internacional de 1864, Marx havia sintetizado o “programa político” global da classe operária na seguinte frase lapidar: “conquistar o poder político é agora, portanto, a grande tarefa da classe operária”.
Não obstante, nem sequer depois de 1871 – uma vez feita sua, de maneira muito mais clara e unívoca, depois da experiência da Comuna de Paris, a necessidade indispensável da aniquilação da máquina estatal burguesa e da edificação da ditadura de classe do proletariado – decidiu postular como forma política de dita ditadura proletária uma forma de governo do tipo da Comuna revolucionária de Paris. Toma posição, segundo parece, a favor deste ponto de vista unicamente no momento histórico preciso em que em seu Manifesto do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores sobre a guerra civil na França, escrito com sangue e fogo, se depara contra a reação triunfante em nome desta primeira organização do proletariado revolucionário, isto é, a favor dos heróicos lutadores e das vítimas da Comuna. Graças à essência revolucionária da Comuna de Paris, sufocou a crítica que, a partir de suas bases teóricas, deveria ter feito a esta forma histórica específica da mesma. Se apesar de tudo ainda avançou um passo a mais, chegando a celebrar a forma política do regime comunal revolucionário com a “forma finalmente encontrada” de ditadura proletária, isso não é coisa que possa ser explicada em virtude, simplesmente, da óbvia solidariedade de Marx em relação aos operários revolucionários de Paris, mas, sobretudo, graças a um objetivo secundário realmente importante. Com este Manifesto do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores, escrito por ele imediatamente após a gloriosa luta e derrota dos comunardos de Paris, Marx não propunha unicamente aproximar o marxismo da comuna, mas, sobretudo e simultaneamente, aproximar a comuna do marxismo. Se se pretende compreender adequadamente seu sentido e alcance, este escrito singular não deve ser lido tão só como um documento histórico clássico, como um simultâneo canto épico e elegíaco, mas como um escrito polêmico e comprometido de Marx contra seu mais próximo inimigo, um inimigo contra o qual já então tinha se empenhado em uma série de lutas sem quartel que logo levariam a Primeira Internacional ao seu desmoronamento definitivo. Este objetivo tão declaradamente faccioso fez com que Marx não apreciasse em seu escrito com a necessária exatidão histórica esse coerente movimento revolucionário do proletariado francês que começou com as sublevações comunais Lyon e Marselha em 1870 e culminou em 1871 com a sublevação da Comuna de Paris. Este objetivo lhe obrigou também a apresentar o regime comunal revolucionária, saudada como a “forma política finalmente encontrada” da ditadura da classe proletária, ao modo de um governo centralista, violentando assim sua essência
Já em Marx e Engels, e mais ainda em Lênin, encontramos, pois, que o caráter essencialmente federalista da Comuna de Paris é deixado de lado. Embora Marx não pudesse dar-se conta, em sua breve interpretação do Esquema de constituição comunal panfrancesa elaborado pela Comuna de Paris, dos traços inequivocamente federalistas deste regime, não deixa, contudo, de sublinhar premeditadamente o fato (por outra parte de nenhum modo negado, obviamente, por federalistas do tipo de Proudhon e Bakunin) de que por meio deste regime “não só não deveria ser destruída a unidade da nação, mas que deveria ser, ao contrário, reorganizada”. Subscreve as “escassas, porém importantes funções” que até em um regime comunal como esta segue correspondendo-lhe um “governo central”. E acrescenta que de acordo com o plano da comuna, estas funções “não deveriam ser abolidas, como se afirmou falsamente, mas que, pelo contrário, deveriam ser encomendadas a funcionários comunais, isto é, a funcionários rigorosamente responsáveis”. Lênin explica depois, sobre esta base, que nos estudos de Marx sobre a tentativa da comuna “não resulta sequer perceptível nenhum traço de federalismo”. "Marx é centralista, e nos seus escritos que acabamos de citar não se vê contido o menor desvio em relação ao centralismo”. Completamente certo, porém, precisamente por isso – e embora Lênin se esqueça de aludir a isso neste ponto – esta exposição marxista da Comuna de Paris é tudo menos uma caracterização historicamente válida do regime comunal revolucionário à que aspiravam os comunardos parisienses e que chegaram a realizar nos primeiros momentos.
Com o fim de se opor, na medida do possível, ao caráter federalista e anticentralista da Comuna de Paris, tanto Marx e Engels, mas sobretudo Lênin, sublinharam a dimensão negativa da Comuna, isto é, sua ideia da destruição do velho poder estatal burguês. No tocante a esse ponto não há disputa alguma entre os revolucionários. Marx, Engels e Lênin insistiram, com toda razão, na necessidade de revelar o motivo determinante do caráter proletário e revolucionário da forma de poder político representado pela Comuna em sua essência social como realização da ditadura de classe do proletariado. Diante seus oponentes “federalistas” insistiram várias vezes que a forma federal e descentralizada do estado é, em si, tão burguesa como a centralista própria do moderno estado burguês. De toda forma, não deixa de resultar perceptível neles um erro bastante similar ao que combateram sempre em seus inimigos com tanta energia, na medida em que, apesar de sua postura de reserva em relação do caráter “federalista” do regime comunal, não deixaram de conceder excessiva importância a certas diferenças formais existentes entre a Comuna de Paris e a constituição estatal parlamentar e outras formas próprias de governo da burguesia. Por exemplo, a substituição do exército pela milícia, a unificação efetuada entre os poderes legislativo e executivo e a responsabilidade e possibilidade de destituição dos funcionários “comunais”. Com isso eles deram lugar a uma considerável confusão conceitual, que não só reportou graves danos no que se refere à postura dos marxistas em relação à Comuna de Paris, mas também, e sobretudo, precisamente diante da ulterior posição da linha marxista revolucionária em relação ao novo fenômeno histórico do estado revolucionário dos conselhos.
Se é inexato pensar como Proudhon e Bakunin que a forma “federalista” é uma superação do estado burguês, não o é menos acreditar, como fazem hoje alguns marxistas partidários da comuna revolucionária – isto é, do sistema revolucionário dos conselhos, influenciados pelas exposições confusionistas de Marx, Engels e Lênin – que um deputado com mandato breve, revogável a qualquer momento e com funções perfeitamente delimitadas, ou um funcionário estatal vinculado mediante contrato privado e com um “salário” ordinário, constituem uma instituição menos burguesa que a de um parlamentar eleito.
É totalmente errôneo, por um lado, acreditar que existe algum tipo de regime “comunal” ou “conselhista” em virtude da qual sua execução por um estado comandado pelo partido proletário revolucionário possa resultar factível a eliminação do caráter, consubstancial a todo estado, de instrumento de opressão classista. Toda a teoria de Marx e Engels acerca da morte do estado na sociedade comunista, herdada da tradição do socialismo utópico e aperfeiçoada sobre a base da experiência prática das lutas proletárias de classe de sua época, perde seu sentido revolucionário, se, com Lênin, acredita-se que há um estado no qual a minoria deixa de oprimir a maioria, de tal modo que, antes de tudo, é a maioria do próprio povo” que “oprime os seus próprios opressores” e que semelhante estado de ditadura do proletariado pode converter-se, por sua própria natureza, no realizador da verdadeira democracia, isto é, da democracia proletária, devido ao que já pode ser considerado como “um estado em processo de desaparição”.
Urge chamar novamente a atenção, com toda clareza, acerca dos dois ensinamentos básicos da autêntica teoria proletária e revolucionária, que devido sua adequação temporal às exigências práticas de fases da luta com as da sublevação da Comuna de Paris de 1871 e da revolução russa de outubro de 1917 acabaram por cair no perigo de perder toda sua vigência. A autêntica meta final da luta proletária de classes não é um determinado estado, por “democrático”, “comunal” ou “conselhista” que seja, mas a sociedade comunista sem classe e sem estado, cuja forma de conjunto não é representada por tal ou qual poder político, mas por essa “associação na qual o livre desenvolvimento de cada um é condição necessária para o livre desenvolvimento de todos” (Manifesto Comunista).
Até esse momento, esse estado só se diferenciará do estado burguês, no período de transformação revolucionária da sociedade capitalista em comunista, em virtude de sua essência de classe e de sua função social, porém, não de sua forma política. Isso tanto no caso da classe proletária “conquistar”, com maiores ou menores variações, o aparato estatal anterior, de acordo com a ilusão dos reformistas, quanto no caso de, segundo a teoria marxista revolucionária, só poder apropriar-se dele verdadeiramente com base em seu “aniquilamento” sem resíduos da forma anterior, “substituindo-a” por uma nova forma, constituída revolucionariamente. Neste conteúdo social da forma política, e não em tal ou qual peculiaridade artificialmente elaborada ou implantada em momentos ou circunstâncias bastante especiais, enraíza o “verdadeiro segredo” da comuna revolucionária, do sistema revolucionário dos conselhos e de qualquer outra forma histórica de realização do governo da classe operária”.  
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Publicado originalmente em:
VIANA, Nildo (org.). Escritos Revolucionários sobre a Comuna de Paris. Rio de Janeiro: Rizoma, 2011.

A Comuna Revolucionária I - Karl Korsch



A Comuna Revolucionária I


Karl Korsch


 O que deve saber sobre a “Comuna Revolucionária” todo operário com consciência de classe neste momento histórico em que vivemos e no qual a autolibertação revolucionária do jugo capitalista por parte da classe operária se coloca na ordem do dia? E o que sabe dela hoje inclusive a parte politicamente mais preparada e, conseqüentemente, relativamente autoconsciente do proletariado?
Existem a este respeito alguns fatos históricos e algumas palavras de Marx, Engels e Lênin relacionadas com eles que, na conjuntura atual, depois de meio século de propaganda social-democrata – durante todo o período do pré-guerra – e da série de acontecimentos verdadeiramente transcendentais dos últimos quinze anos, passaram a tomar parte decidida da consciência proletária, por muito que nas escolas da atual república “democrática” se fale, apesar de tudo, tão escassamente dessas questões como nas escolas da velha monarquia imperial. Trata-se da história e do significado profundo da gloriosa Comuna de Paris, que desfraldou a bandeira vermelha da revolução proletária em 18 de março de 1871 e a manteve desfraldada durante setenta e dois dias de lutas encarniçadas contra um mundo exterior armado até os dentes e empenhado em um ataque de morte contra ela. Trata-se, enfim, da comuna revolucionária do proletariado parisiense de 1871, da qual Marx disse no Manifesto do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores de 30 de maio de 1871 sobre a guerra civil na França, que “seu verdadeiro segredo” foi ter sido, fundamentalmente, um governo da classe operária, “o resultado da luta da classe produtora contra a classe que se apropria do trabalho alheio, a forma política finalmente encontrada que permitia realizar a emancipação econômica do trabalho”. Friedrich Engels, de maneira similar, vinte anos depois, jogava na cara dos filisteus aterrorizados, no momento em que a fundação da Segunda Internacional e a instituição da comemoração proletária do primeiro de maio[1] como forma de ação direta de massas a nível internacional voltava a encher de temor as classes proprietárias, as seguintes frases cheias de orgulho: “Querem saber a forma dessa ditadura? Olhem a Comuna de Paris, eis a ditadura do proletariado”. E mais de duas décadas depois, o maior político revolucionário de nossa época, Lênin, retornou a este tema, levando a cabo, na parte central da mais importante de suas obras políticas, O Estado e a Revolução, uma detalhada análise das experiências da Comuna de Paris e da luta contra a deformação oportunista e a mistificação dos importantes ensinamentos que já Marx e Engels souberam extrair daquele período histórico. E quando, poucas semanas depois da revolução russa de 1917, que começou em fevereiro como revolução nacional e burguesa e acabou por converter-se, superando suas limitações de cunho nacional e burguês e ampliando e aprofundando suas perspectivas, em primeira revolução proletária do mundo, tanto Lênin e Trotski como as massas operárias da Europa ocidental e os setores mais progressistas da classe operária de todo mundo saudaram a nova forma de governo criada por essa ação revolucionária de massas, isto é, o sistema revolucionário dos conselhos, como o prolongamento direto da comuna revolucionária gestada meio século pelos operários de Paris.
Até aqui está tudo bem. Por mais confusa que tenha sido a ideia que os operários revolucionários, no período de ascensão e impulso revolucionários que seguiu em toda Europa as comoções políticas e econômicas desencadeadas pelos quatro anos de guerra mundial, sustentaram ao pronunciar a fórmula “todo o poder aos conselhos” e por muito profundo que tenha sido o abismo que já começava a abrir-se entre dita imagem e a realidade que ia forjando-se na nova Rússia sob o rótulo de “República socialista dos conselhos”, não cabe dúvida de que naqueles anos a luta pelos conselhos representava uma forma de evolução política da vontade política de uma classe proletária e revolucionária em plena urgência de realização. Na verdade, unicamente os filisteus amargurados podiam protestar então contra a indefinição que inevitavelmente cercava essa ideia, tal como toda ideia não realizada, e só os pedantes triviais podiam investir na tentativa de remediar esta deficiência através de “sistemas” artificialmente elaborados no terreno da imaginação, como o desacreditado “sistema de caixinhas” de Däumig e Richard Müller. Em todos aqueles lugares nos quais, da mesma forma tão efêmera na Hungria e Baviera em 1919, o proletariado constituiu sua ditadura revolucionária de classe, a concebeu, denominou e constituiu como “governo da classe operária”, governo que era o resultado da luta da classe produtora contra a classe que explora o trabalho alheio, e cujo objetivo último se consolidava na plena realização da “libertação econômica do trabalho”, um governo definido, enfim, como “governo revolucionário de conselhos”. E se o proletariado tivesse triunfado naquela época em algum dos grandes países industriais – na Alemanha, por exemplo, quando a grande greve da primavera de 1919 ou em resposta ao putsch de Kapp em 1920, ou ainda, na seqüência, da greve de 1923 contra a ocupação do Ruhr e a inflação; ou na Itália durante a época das ocupações de fábricas, em Outubro de 1923 – teria constituído seu poder sob a forma duma república dos conselhos e se unido à “república federativa socialista soviética da Rússia”, já existente, no quadro duma confederação mundial das repúblicas revolucionárias dos conselhos.
Nas atuais circunstâncias, contudo, a ideia dos conselhos e a existência de um governo dos conselhos pretensamente "socialista" e "revolucionário" têm um significado completamente distinto. Hoje – em que a superação da crise econômica mundial de 1921 e as conseqüentes derrotas dos operários alemães, poloneses e italianos, ao que se seguiu uma série de novas derrotas proletárias até a greve dos mineiros e greve geral inglesa de 1926 e o capitalismo europeu inaugurou um novo ciclo de sua ditadura sobre uma classe operária derrotada – quando, portanto, nos encontramos diante de novas condições objetivas, os lutadores da classe proletária e revolucionária de todo o mundo não podem seguir agarrando-se de maneira acrítica e estática à nossa velha fé na importância revolucionária da ideia dos conselhos e no caráter revolucionário do governo dos conselhos como manifestação recente e evoluída da forma política da ditadura proletária “encontrada” há meio século pelos comunardos franceses.
Hoje, frente às contradições flagrantes que existem entre o nome e a realidade efetiva da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, não podemos dar-nos por satisfeitos com a constatação, por exemplo, de que os atuais mandatários russos “traíram” o primitivo princípio revolucionário dos conselhos, de forma similar como Scheidemann, Müller e Leipart “traíram” seus princípios socialistas “revolucionários” do pré-guerra. Limitar-se a isso seria ao mesmo tempo superficial e errôneo. É obvio que se trata de uma dupla verdade inquestionável. Os Scheidemann, Müller e Leipart traíram, sem dúvida, seus princípios socialistas. E, por outro lado, a “ditadura” que hoje é exercida pela cúpula máxima do aparato de um partido governamental extremamente exclusivista – e que apenas o nome recorda o primitivo partido “comunista” e “bolchevique” – sobre o proletariado e toda a Rússia soviética com a ajuda de uma burocracia extremamente desenvolvida, tem em comum com as ideias revolucionárias dos conselhos de 1917 e 1918 exatamente a mesma coisa que tem com elas a ditadura do partido fascista do velho social-democrata revolucionário Mussolini na Itália. Porém, em ambos os casos é tão pouco o que se explica falando de “traição”, que é muito mais o fato da própria traição que necessita ser explicado.
A verdadeira tarefa que esta evolução contraditória – que levou do velho lema revolucionário de “todo o poder aos conselhos” ao atual regime capitalista e fascista do pretenso “estado socialista soviético” – coloca para todos nós, socialistas revolucionários com consciência de classe, de uma forma realmente urgente, não é, na verdade, senão uma tarefa de autocrítica revolucionária. Temos que reconhecer que não só para as ideias e instituições do passado feudal e burguês, mas também para as diversas formas de pensamento e organização engendradas pela própria classe operária nos anteriores e sucessivos períodos de sua luta pela autolibertação histórica, tem validade essa dialética revolucionária em virtude da qual “o bem de ontem se converte no mal de hoje”, para utilizar palavras de Goethe, ou, como Karl Marx veio a dizer de forma mais clara e incisiva, todo estágio histórico de uma forma evolutiva das forças produtivas revolucionárias e da ação revolucionária, assim como a evolução da consciência, pode converter-se, em um determinado ponto do seu processo evolutivo, em um obstáculo para o mesmo. A esta contradição dialética da evolução revolucionária estão submetidas, tal como as demais ideias e produções históricas, também essas formações na ordem do pensamento e na da organização próprias de uma determinada fase histórica da luta revolucionária de classe, como a forma política “finalmente encontrada” à quase sessenta anos pelos comunardos franceses e estruturada como forma de governo próprio da classe operária ao modo da comuna revolucionária e seu herdeiro, o “poder revolucionário dos conselhos”, oriundo de um novo período histórico de luta através dos impulsos do movimento revolucionários dos operários e camponeses russos.
Ao invés de lamentarmos a “traição” à ideia dos conselhos e a degeneração dos conselhos, devemos realizar uma síntese, de maneira sóbria, serena e historicamente objetiva, da evolução da totalidade desse processo, elaborando uma visão histórica de conjunto que dê conta de suas fases sucessivas, fazendo-nos, por último, a pergunta crítica: qual é, de acordo com essa experiência histórica, o significado real da ordem histórica e classista desta nova forma de governo, cristalizada inicialmente na comuna revolucionária de 1871, aniquilada pela força ao fim de setenta e dois dias de vida, e que encontrou sua expressão mais concreta e recente na revolução russa de 1917.
Procurar uma nova imagem, muito mais profunda e orientadora, do caráter histórico e classista da comuna revolucionária e sua continuação no sistema revolucionário dos conselhos, resulta duplamente necessário se se pensa que inclusive a crítica histórica mais superficial mostra o totalmente infundado dessa concepção tão divulgada hoje entre os revolucionários. Dita concepção, apesar de depreciar teoricamente o parlamento como instituição burguesa por sua origem e sua função e praticamente indica a necessidade de “aniquilá-lo”, no chamado “sistema de conselhos” e em sua forma precedente, a “comuna revolucionária”, vislumbra, ao mesmo tempo, uma forma de governo total e essencialmente proletária, oposta, por sua própria natureza, de maneira inconciliável e contraditória ao estado burguês. Na realidade, a “comuna” representa, ao longo de sua evolução quase milenar, não só uma forma de governo burguês mais antiga que o parlamento, mas que constitui – desde seus começos no século XI até seu ponto culminante no momento auge do movimento revolucionário da burguesia, isto é, na grande revolução francesa de 1789-1793 – a forma mais pura, precisamente, na ordem da luta de classes que, sob distintas modalidades, levou a cabo durante todo este período histórico a então revolucionária classe burguesa para conseguir a transformação da ordem social feudal existente até o momento e edificar a nova ordem social de cunho burguês.
Quando, na frase que citamos anteriormente – tomada de A Guerra Civil na França –, Marx celebrava a comuna revolucionária dos operários parisienses do ano de 1871 como “a forma finalmente encontrada que permitia realizar a emancipação econômica do trabalho” era, ao mesmo tempo, consciente de que a forma herdada das seculares lutas burguesas de libertação da “comuna” só podia assumir este caráter novo ao preço de uma transformação radical de sua essência anterior. Toma posição expressamente contra as falsas concepções de todos que queriam ver, em seu tempo, nesta “nova comuna, aniquiladora do poder de estado” uma “versão renovada das comunas medievais anteriores a dito poder estatal e que assentaram, na realidade, as bases do mesmo”. E estava muito longe, portanto, de esperar qualquer tipo de efeitos milagrosos para a luta de classes do proletariado da forma política do regime comunal enquanto tal, considerada independentemente do conteúdo classista específico com o qual, em sua opinião, haviam preenchido os operários de Paris esta forma política por eles conquistada e posta ao serviço de sua autolibertação econômica em um determinado momento histórico. De acordo com sua análise desse problema, os operários de Paris fizeram de sua forma herdada da “comuna” um instrumento de seus fins revolucionários – opostos radicalmente à finalidade histórica original da mesma – em virtude, precisamente, de seu caráter pouco evoluído e relativamente indeterminado. Enquanto que no estado burguês plenamente desenvolvido, tal e como foi formando-se – na França, por exemplo – em sua versão clássica, isto é, como estado representativo moderno centralizado, o poder estatal não é mais do que, de acordo com a conhecida expressão do Manifesto Comunista, outra coisa que “um comitê de administração do conjunto de negócios da burguesia”, nas formas provisórias e pouco desenvolvidas da estrutura estatal burguesa, entre as quais é preciso situar a comuna “livre” medieval, este caráter classista especificamente burguês, consubstancial a todo estado, exige uma fisionomia completamente diferente. Frente ao posterior e cada vez mais evidente e cada vez mais elaborado caráter do poder estatal burguês de “instrumento público repressivo para a opressão da classe operária”, de “máquina para o domínio classista” (Marx), nesta fase primitiva de sua evolução pesa, todavia, mais a finalidade original da organização burguesa de classe como órgão da luta revolucionária de libertação da classe burguesa oprimida contra o domínio feudal medieval. Por muito pouco que esta luta da burguesia medieval tinha em comum com a luta proletária de emancipação da época histórica contemporânea, era, não obstante, uma luta de classes histórica, e nesta medida – ainda que, desde já, somente nela – os instrumentos criados pela burguesia de acordo com as necessidades de sua luta revolucionária não deixam de oferecer também um ponto de partida puramente formal para a luta de emancipação revolucionária que atualmente, sobre bases totalmente distintas, em condições extremamente diferentes e com vista a outros objetivos, protagoniza a classe proletária.
Marx chamou prontamente a atenção sobre a especial importância que essa série de experiências e conquistas provisórias da luta de classes realizada pela burguesia, cuja expressão mais importante pode ver-se nas diversas fases evolutivas da comuna revolucionária burguesa da Idade Média, foi-lhe correspondendo na formação tanto da moderna consciência proletária de classe como da luta de classe do proletariado, e o fez muito antes, inclusive, do que o grande acontecimento histórico da sublevação dos comunardos parisienses de 1871 lhe induzira a saudar esta nova comuna revolucionária dos operários de Paris como a forma política finalmente encontrada da emancipação econômica do trabalho. Devemos a Marx, a este respeito, a demonstração da analogia histórica existente entre a evolução política da burguesia como classe oprimida e em luta por sua libertação no seio do estado feudal medieval e a evolução do proletariado na moderna sociedade capitalista. Uma analogia da que se serviu, por certo, como importante ponto de partida em sua teoria dialética e revolucionária sobre a importância dos sindicatos e das lutas sindicais – uma teoria ainda não compreendida plena e adequadamente, nem sequer em nossos dias, por um bom número de marxistas tanto de inspiração esquerdista como direitista. Marx, nessa teoria, comparou as modernas coalizões de operários com as comunas da burguesia medieval, sublinhando o fato histórico de que também a classe burguesa começou sua luta contra a ordem social feudal com a formação de coalizões. Já em seu escrito polêmico contra Proudhon encontramos a seguinte referência, hoje verdadeiramente clássica, sobre esta questão:
“Fizeram-se não poucos estudos para apresentar as diferentes fases históricas percorridas pela burguesia desde a comunidade urbana (comuna) até sua constituição com classe. Porém, quando se trata de tomar boa nota das greves, coalizões e outras formas das que os proletários se servem para culminar ante nós sua organização como classe, alguns são presa de verdadeiro espanto e outros fazem gala de um desdém transcendental” (A Miséria da Filosofia, cap. 2, parágrafo 5).
O que aqui expressa o jovem Marx em meados dos anos quarenta, quando ainda é recente sua evolução ao socialismo proletário, e repete sem maiores variações anos depois em sua exposição dos diversos estágios evolutivos da burguesia e do proletariado no Manifesto Comunista, volta novamente a expressá-lo vinte anos depois na conhecida Resolução do Congresso de Genebra da Associação Internacional dos Trabalhadores concernente aos sindicatos. Ali se afirma destes que já em sua anterior evolução, e sem ser conscientes disso, mas além de suas tarefas cotidianas imediatas de defesa dos salários e da jornada de trabalho dos operários contra as incessantes investidas do capital, “haviam chegado a converter-se em pontos verdadeiramente culminantes da organização da classe operária, de maneira similar a como as municipalidades e comunidades medievais haviam sido para a burguesia”, de tal modo que no futuro haveriam de trabalhar já de maneira consciente como bases da organização do conjunto da classe operária.



[1] A chamada Segunda Internacional, acatando proposta de Raymond Lavigne, em 20 de junho de 1889, convoca uma manifestação anual com o objetivo de lutar pela redução da jornada de trabalho a oito horas diárias. O dia escolhido foi o 1º de Maio, em homenagem às lutas dos trabalhadores de Chicago/EUA, quando pelo mesmo motivo e no mesmo dia, os trabalhadores norte-americanos fizeram manifestações de ruas que se desdobraram em conflitos e mortes no dia seguinte.
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Publicado originalmente em:
VIANA, Nildo (org.). Escritos Revolucionários sobre a Comuna de Paris. Rio de Janeiro: Rizoma, 2011.