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quarta-feira, 27 de junho de 2018

BREVES REFLEXÕES SOBRE OS MOVIMENTOS SOCIAIS NA ERA DA ACUMULAÇÃO INTEGRAL




BREVES REFLEXÕES SOBRE OS MOVIMENTOS SOCIAIS NA ERA DA ACUMULAÇÃO INTEGRAL


Gabriel Teles*




A análise histórica dos movimentos sociais, excetuando textos e obras descritivas (que são a grande maioria), ainda é bem incipiente e rudimentar. A importância do processo analítico a partir do método dialético, referente ao desenvolvimento dos movimentos sociais é um trabalho de suma importância que busca historicizá-los e inseri-los na totalidade das relações sociais. É certo que os movimentos sociais são uma totalidade; daí deriva que o desenvolvimento de sua teoria seja a partir de um universo conceitual. Mas é igualmente certo que a totalidade dos movimentos sociais está inserida numa totalidade mais ampla ainda, que é a da sociedade capitalista (o que deriva o modo de produção, Estado, cultura, sociedade civil, etc.). Portanto, qualquer análise que isole os movimentos sociais das determinações da sociedade no geral já nasce como uma proposta estéril de compreensão dos mesmos.
Nesse sentido, o que buscamos realizar no presente texto foi uma tentativa de análise dos movimentos sociais a partir do atual desenvolvimento da acumulação de capital, o regime de acumulação integral. Por este ângulo, estamos falando dos movimentos sociais contemporâneos, ou seja, a partir de meados da década de 80 até o presente atual.
Os movimentos sociais são mobilizações de determinados grupos sociais derivadas de certas situações sociais que geram insatisfação social, senso de pertencimento e determinados objetivos (VIANA, 2016). Cada um desses elementos é alterado e deslocado de acordo com a mudança da sociedade. Desse modo, os regimes de acumulação trazem grandes e importantes consequências para os movimentos sociais, já que suas determinações incidem direta e indiretamente na própria dinâmica dos movimentos, bem como seus surgimentos, mudança de objetivos, criação de ramificações, novas necessidades, novas organizações, etc.
O regime de acumulação integral
Assim como existe um desenvolvimento histórico da humanidade, há também um desenvolvimento histórico do capitalismo. Isto significa que o capitalismo possui uma história de vários séculos, com mudanças e permanências, mas sempre resguardando a sua essência que é a produção de mais-valor. Nesse sentido, o conceito de regime de acumulação é um instrumento preciso e correto para analisarmos as mudanças no interior da sociedade capitalista. É a partir das lutas de classes que esse desenvolvimento acontece, sendo os regimes de acumulação expressão da forma como o modo de produção capitalista, a partir da acumulação de capital, opera na sociedade. Em síntese, podemos definir regime de acumulação como um determinado estágio do desenvolvimento capitalista, marcado por determinada forma de organização de trabalho, determinada forma estatal e determinada forma de exploração internacional (VIANA, 2009). Devido ao espaço, não poderemos discutir sobre a periodização dos regimes de acumulação, o que faremos em outro trabalho, mas já partir do atual regime de acumulação, o integral.
O regime de acumulação integral iniciou-se no final do século XX (meados dos anos 80) e perdura até os dias atuais. No que tange à forma de organização de trabalho, o regime de acumulação integral se organiza através do toyotismo. Mas o que significa, em essência, o toyotismo? Para tanto, devemos nos remeter ao que se chama de “organização científica do trabalho”, que se inicia a partir do regime de acumulação intensivo onde ocorreu a criação do taylorismo, uma forma organizacional de controle da força de trabalho através de métodos “científicos”, em que o objetivo máximo era o aumento da produtividade e, por conseguinte, maior extração de mais-valor relativo.
A organização do trabalho também perpassa a questão da luta de classes, pois a sua mudança refere-se justamente às lutas operárias travadas contra a sua própria exploração (devido à resistência gerada pela exploração do trabalho alienado). Após o taylorismo outras formas de organização de trabalho, tais como o fordismo, fayolismo, etc., surgiram e centraram os seus objetivos em torno da disputa pelo mais-valor relativo. Portanto, não há grandes mudanças radicais que expressam uma ruptura marcante entre as diversas formas organizacionais do trabalho, e o toyotismo também não está fora deste esquema, apesar de alguns pesquisadores afirmarem que há sim uma diferença.
O toyotismo se diferencia do fordismo [...] devido à “flexibilização” que se encontra em oposição à rigidez daquele. Isso não contradiz, na verdade, as características do taylorismo, que estão presentes no fordismo. A grande mudança apresentada pelo toyotismo seria a produção submetida a este tipo de organização do trabalho estar voltada para a demanda do mercado, e não para a produção em massa, tal como no fordismo. (VIANA, 2009: pg. 68)
Em síntese, o toyotismo pode ser compreendido como uma adequação do taylorismo à nova fase do capitalismo; nova fase esta de integralidade da exploração capitalista, tanto através de maior extração da mais-valia relativa, quanto da mais-valia absoluta e uma ofensiva no curso de combate à queda da taxa de lucro médio.
Outro elemento constituinte dentro de um regime de acumulação é a sua forma estatal, que a partir da emergência do novo regime de acumulação integral, assume a forma do chamado neoliberalismo. A emergência do Estado Neoliberal se dá a partir da década de 80 do século XX. A farta literatura sobre o fenômeno do neoliberalismo possui um consenso a partir de alguns elementos gerais, tais como: predominância do mercado, venda das empresas públicas (privatizações), corte de gastos públicos, sobretudo os de cunho sociais, política repressiva e etc. (ANDERSON, 1998; ENZENBERGER, 1995; WACQUANT, 2001).
As consequências do neoliberalismo são as mais variadas. A primeira e mais perceptível é o aumento da pobreza e da desigualdade. Mesmo nos países mais ricos há um aumento da pobreza, da miséria, da fome, do desemprego e diminuição do poder aquisitivo de amplas parcelas da população. Isto tem efeito sobre o mercado consumidor, sendo que a faixa mais pobre acaba tendo sua capacidade de consumo reduzida. A desregulamentação do mercado permite o aumento da exploração (corrosão dos direitos trabalhistas) e perda de poder aquisitivo e de pressão por parte dos trabalhadores, bem como deixa as empresas mais livres para utilizar trabalho infantil e outras estratégias que geram mais desemprego e elevam o grau de exploração. Ao lado disso, o corte nos gastos estatais ocorre principalmente na diminuição das políticas sociais [...] gerando novas políticas sociais paliativas, que apenas amenizam superficialmente os graves problemas sociais existentes. (VIANA 2009, p. 89).
Como consequência, há uma massiva intensificação dos conflitos sociais, da violência urbana, etc. Essas consequências acabam legitimando aquilo que Wacquant expressa ao formular que o Estado Neoliberal é um Estado Penal (WACQUANT, 2001), ou o que o ideólogo Bobbio diz sobre como deve ser o estado ideal, um “estado simultaneamente mínimo e forte” (BOBBIO apud VIANA, 2009) – mínimo em sua interferência no mercado e nas formulações de políticas sociais e forte em seu papel repressivo e criminalizador. Assim, o Estado Neoliberal é um dos alicerces do regime de acumulação integral, servindo como um amortecedor de classes dado o caráter de integralidade da exploração e dominação capitalista em sua nova manifestação.
Outra característica dentro da concepção de regime de acumulação é a questão da exploração internacional que remete, por consequência, às relações internacionais. A mudança do regime de acumulação extensivo para o regime de acumulação intensivo provocou uma maior reprodução ampliada do capital, provocando também maior centralização e concentração do capital. Esse processo corroborou para a predominância do modo de produção capitalista por todo o mundo, integrando nações através da divisão internacional do trabalho, criando países de capitalismo imperialista (ou seja, em estágio de acumulação superior de capital) e países de capitalismo subordinado (subordinados aos países de capitalismo imperialista, devido à menor acumulação de capital, etc.). A formatação da exploração internacional no regime de acumulação de capital se dá através do neoimperalismo, que tem como finalidade aglutinar e generalizar a incessante busca de aumentar a acumulação de capital de forma integral, ou seja, intensificar a extração de mais-valor em nível internacional, explorando os países do bloco de capitalismo subordinado via mais-valor absoluto (conjugando, por ora, com o mais-valor relativo) e estendendo a exploração também nos países do bloco de capitalismo imperialista via mais-valor relativo.
Assim, o neoimperalismo produz um Estado neoliberal subordinado, que executa o papel de aumentar a exploração interna e, ao mesmo tempo, permitir o aumento da exploração externa. A proeminência de organismos internacionais na elaboração das políticas nacionais dos Estados subordinados (FMI, etc.) apenas revela esta subordinação e alguns dos mecanismos utilizados pelo bloco imperialista. [...] O neoliberalismo subordinado não só busca aumentar a exploração dos trabalhadores como também permite a transferência de parte do mais-valor ampliadamente extorquido para os países imperialistas. (VIANA, 2009, p. 105).
A compreensão do conceito de regime de acumulação e sua manifestação concreta contemporânea (regime de acumulação integral) são de suma importância para compreendermos as mudanças políticas e culturais que nos cercam cotidianamente. Apesar das determinações do regime de acumulação se realizarem através da organização de trabalho, da formatação do Estado e a questão da exploração internacional, mudanças em outras esferas, derivadas ou não destas determinações, como a cultural, ideológica, científica, cotidiana, etc., ocorrem e são fundamentais tanto para a legitimação e perpetuação da sociedade capitalista, quanto para a contestação da mesma, envolvidos na dinâmica das lutas de classe.
A questão que nos resta responder, nesse sentido, é: quais são os efeitos do regime de acumulação integral nos movimentos sociais? Há dezenas de determinações que podemos elencar que atingem direta ou indiretamente os movimentos sociais, mas focaremos em três delas que consideramos essenciais.
As três determinações que elencamos estão em consonância com as próprias determinações de um regime de acumulação que incidem diretamente nos movimentos sociais; ou seja, nos limitaremos a trazer alguns aspectos referente a mutação do processo de valorização e suas consequências sociais, da nova forma estatal, bem como a questão das relações internacionais.
O elemento do processo de valorização do capital que atinge diretamente os movimentos sociais é a crescente mercantilização existente derivada desse processo que, contemporaneamente, é chamada de hipermercantilização. A atual forma estatal é o neoliberalismo e este tem uma consequência direta nos movimentos sociais, tanto na relação do estado com os movimentos, quanto dos movimentos em relação ao estado. O atual tipo de relações internacionais é o neoimperalismo que terá consequências na questão espacial e na amplitude dos movimentos sociais.
Iniciaremos a nossa discussão com a questão da hipermercantilização.
Movimentos Sociais e a Onda da Hipermercantilização
O que nos interessa aqui é uma determinada forma histórica da mercantilização, denominada de hipermercantilização (VIANA, 2016). Ela corresponde a quinta e atual onda de mercantilização da sociedade capitalista. Antes de iniciarmos a relação entre os movimentos sociais e o atual desenvolvimento da mercantilização, faremos uma breve exposição dos elementos básicos da hipermercantilização.
A fala do atual presidente e ex-CEO da Nestlé[1], Peter Brabeck, em uma entrevista coletiva (COLLECTIVE EVOLUTION, 2016)[2], é sintomática sobre a distopia mercantil que se esboça com a hipermercantilização: para ele, a água não deveria ser um direito humano essencial, e sim tratada como qualquer outra mercadoria. Brabeck vem insistindo sobre essa ideia de “privatização” (no fundo, um processo de mercantilização) desde 2005, colocando em cheque, inclusive, elementos básicos para a sobrevivência humana em detrimento do lucro. A justificativa do ex-CEO é que o “subpreço” do produto faz com que a população mundial trate a água de forma negligenciada, aumentando exponencialmente o seu desperdício. Desmascarando esse discurso de legitimação para transformar a água como uma autêntica mercadoria, o que podemos ver é a existência de um movimento mundial que tem ambição de transformar tudo em mercadoria. Esse é o aspecto central da hipermercantilização encontrada na atual onda de mercantilização: a ampliação quase onipresente das relações mercantis.
A quinta onda de mercantilização inicia-se nos anos 80 e se estende até os dias atuais. Ela se dá em dois movimentos: o da intensificação do que já foi transformado em mercadoria/mercancia e o da criação de novas mercadorias/mercancias (e, por consequência, da criação de novas necessidades de consumo). O automóvel, que no regime de acumulação conjugado já começava a ter um crescente número de vendas, toma um nível quase generalizado nos países de capitalismo imperialista e uma inicial massificação nos países de capitalismo subordinado. O mesmo ocorre com os eletrônicos, especialmente celulares, computadores, e etc. O computador é também sintomático nesse sentido: esse bem material foi criado para a utilização em ações militares e ocupava salas imensas cheias de cabos e aparelhos que sustentassem o seu uso.
Com a necessidade de ampliação dos mercados consumidores para sustentar o moto-contínuo do desenvolvimento do capitalismo, o computador, ao longo do tempo, tornou-se uma mercadoria essencial, onde a tecnologia empregada em seu desenvolvimento tornou-o operacional para o conjunto sociedade. Atualmente, os computadores são utilizados para diversos fins: no controle de gastos de empresas, na sistematização e averiguação da burocracia estatal, na escrita de uma monografia, na confecção de um panfleto político, etc. O que antes tinha um fim tão-somente militar, acabou se tornando uma mercadoria fundamental na sociedade atual, criando outras mercadorias para o seu funcionamento ou ampliação de seu valor-de-uso (softwares, internet, etc.).
Além dos bens materiais tecnológicos, há também um exponencial aumento da mercantilização da cultura, sobretudo da música via “indústria cultural” (ADORNO, 1977), resultando na intensificação da cultura descartável (como por exemplo, a produção de hit’s que duram no máximo alguns meses em sucesso, que posteriormente é substituído por outro e assim sucessivamente, criando a necessidade de sempre estar comprando novos CD’s, baixar músicas, etc.).
Nesse contexto, há uma hipermercantilização. Novos espaços, produtos, processos, objetos, vão se tornando mercadorias ou mercancias. Até os seres humanos, vítimas de tráfico, órgãos do corpo humano, entre outros elementos que ninguém imaginaria que poderia ser mercantilizado há dois séculos, época de uma sociedade já mercantilizada, passam a ser mercadorias/mercancias (VIANA, 2016: p. 67-68).
O que colocamos acima são alguns elementos da hipermercantilização na sociedade capitalista contemporânea. Mas qual são seus efeitos para os movimentos sociais?
A primeira consequência desse processo para os movimentos sociais é o fortalecimento da hegemonia burguesa, sobretudo na época de constituição e legitimação do regime de acumulação integral (década de 80). Com o final da crise, lançada com os últimos suspiros da acumulação conjugada, o equilíbrio do capital é alcançado e, com ela, a estabilidade das lutas de classe em favor da classe dominante (burguesia).  Nesse sentido, os conflitos sociais acabam sendo realocados para questões e insatisfações específicas; as lutas de origem grupal tornam-se quase hegemônicas, em aparência, na dinâmica da sociedade, impulsionando ações que se mantêm tão-somente em níveis reivindicativos em diálogo com o Estado (neoliberal) ou com a sociedade civil, fator de grande desmobilização e cooptação dos movimentos sociais.
Com o crescimento do número de movimentos sociais, surge igualmente o crescimento de suas organizações, bem como necessidades de recursos financeiros e materiais. Isso traz consequências diretas na dinâmica da escala mercantil dos movimentos sociais.  Com a mercantilização às extremas, os movimentos sociais não escapam desse processo e a necessidade financeira torna-se um imperativo categórico em grande parte destes. Com a hipermercantilização, cresce exponencialmente o número de organizações mobilizadoras com escala máxima de mercantilização.
Nesse sentido, uma das grandes novidades dos movimentos sociais no regime de acumulação integral, no que tange ao estágio de mercantilização[3], é a autonomia de determinadas organizações mobilizadoras que vão se metamorfoseando em outra coisa. É no final dos anos 80 e início da década de 90 que vão surgir, de forma mais cristalizada e juridicamente estabelecidas, as Organizações Não-Governamentais (ONGs) derivadas, em grande parte, dos movimentos sociais. A expressão ONG surge pela primeira vez na década de 40, através da Organização das Nações Unidas (ONU), para designar entidades não-oficiais que recebiam ajuda financeira de órgãos públicos e privados para executar projetos de interesse social, dentro de uma filosofia de trabalho denominada desenvolvimento da comunidade. No Brasil, no entanto, essas entidades ficaram conhecidas como organizações de “cooperação internacional” (COUTINHO, 2011). Mas foi só a partir da década de 90 que as ONG’s começaram a cristalizar o seu verdadeiro caráter burocrático e mercantil, com o processo de captação de recursos via Estado, empresas privadas e fundações e instituições internacionais, bem como a sua ação regulada juridicamente.
As ONGs, nessa perspectiva, se apresentam como organizações derivadas ou relacionadas aos movimentos sociais[4], mas sua razão de ser é outra. Elas estão concatenadas ao próprio desmonte do Estado via neoliberalismo, relegando as obrigações e deveres estatais (de fomentar e garantir direitos básicos) para a sociedade civil. No entanto, esse engajamento da sociedade civil é feito de forma despolitizada:
Esse projeto arquiteta a sociedade civil em um espaço não político, livre de coerções e de restrições, como uma região autônoma das influências do poder estatal, marcada pela associação "voluntária" de indivíduos, "o reino da espontaneidade", ora como sujeito, ora como espaço. Uma abordagem que, ao contrário do que se pensa, é composta de ideologias e posição em defesa de uma classe - a dominante. É nesse espaço, de concepção tortuosa que são inseridas essas "novas" representações da mudança e da "sociedade civil", do no gerencialismo, do novo voluntariado, "sem fins lucrativos": as "organizações não governamentais", de origem privada, que surgem com a função de executar os "bens públicos", principalmente aqueles que o mercado ainda não ocupava: a educação, pesquisa, a assistência social etc. (RIOS JUNIOR, 2013: p. 121).
O desligamento entre as Organizações Não-Governamentais e os movimentos sociais se dá pela mudança de objetivos[5], já que pela crescente mercantilização (captação de recursos via estado ou empresas privadas) e burocratização (criação de um estatuto legalizado por órgãos estatais, assalariamento, relação entre dirigentes/dirigidos) essas ONG’s começam a se autonomizarem e ter objetivos próprios (como a sua manutenção, obtenção de maior captação de recursos, ampliação do espaço etc.) que não estejam ligados aos movimentos sociais que lhe deram origem. A captação de recursos financeiros é metamorfoseada para um objetivo em si mesmo, colocando as ONG’s, em sua quase totalidade, na escala máxima mercantil.
A hegemonia burguesa, nesse sentido, é reinante. Os diversos movimentos sociais, na era da acumulação integral, no que tange a mercantilização, exprimem seus respectivos vínculos de classe de acordo com a luta de classes atual.
Movimentos Sociais, Neoliberalismo e a atual onda de burocratização
Como colocamos anteriormente, o Estado é a principal forma de regularização da sociedade capitalista e tem uma grande influência e consequência para os movimentos sociais. Cada regime de acumulação possui uma forma estatal que orienta e regulariza a sociedade de acordo com os interesses da classe dominante e com o desenvolvimento da acumulação de capital. Na atualidade, isto é, na acumulação integral, a forma estatal é o neoliberalismo. Ou seja,
[...] se refere a um projeto de classe que surgiu na crise dos anos 1970. Mascarado por muita retórica sobre liberdade individual, autonomia, responsabilidade pessoal e as virtudes da privatização, livre-mercado e livre-comércio, legitimou políticas draconianas destinadas a restaurar e consolidar o poder da classe capitalista. Esse projeto tem sido bem-sucedido, a julgar pela incrível centralização da riqueza e do poder observável em todos os países que tomaram o caminho neoliberal (HARVEY, 2011, p. 16).
Esta nova forma estatal traz um conjunto de determinações que modificam as formas sociais e traz consequências na dinâmica da luta de classes e demais conflitos que são irradiados por ela, utilizando diversas estratégias:
Todas essas estratégias, assim como várias outras, exigiram uma série de alterações nas formas de regularização das relações sociais de forma geral - na totalidade da legislação de diversos países em todo o mundo, na totalidade das regras do sistema financeiro mundial, na totalidade da política econômica, na totalidade das políticas sociais que abandonaram de forma cruel as classes mais necessitadas, na política estatal repressiva etc. -, enfim, ocorre uma alteração estrutural na forma estatal, que deixa de ser integracionista para tornar-se neoliberal, adequando-se e fazendo outras classes sociais se adequarem, inclusive à base de uma repressão semifascista, às exigências dessa nova ofensiva burguesa e, por conseguinte, assegurando as melhores condições reprodutoras do capitalismo em escala mundial (BRAGA, 2016, p. 42-43)

Nesse sentido, no presente tópico, analisaremos a relação entre os movimentos sociais contemporâneos e neoliberalismo a partir das três formas de atuação do Estado para com os movimentos sociais: cooptação, repressão e burocratização.
A cooptação no neoliberalismo traz algumas especificidades importantes que incidem diretamente nos movimentos sociais e na dinâmica de sua hegemonia, tanto no que chamamos de cooptação direta quanto indireta. Com a reconfiguração do Estado e a diminuição drástica de gastos e funções “sociais” (assistencialistas), muitas dessas funções são relegadas à sociedade civil, sobretudo às organizações mobilizadoras, que ora podem ser ramificações dentro dos movimentos sociais, ora fora ou já desvinculadas a eles (como o caso da grande maioria das grandes ONG’s) enquanto burocracias formais. É neste contexto que surgem as medidas paliativas estatais:
O Estado neoliberal, ao contrário do seu antecessor, não possui um conjunto de políticas estatais voltadas para o chamado “bem-estar social” e sim uma forte política repressiva e um conjunto de paliativos que buscam amenizar as contradições sociais da cooptação e responsabilização da sociedade civil. É neste contexto que há a expansão do “terceiro setor”, das ONG’s, etc., bem como novas ideologias e ações que jogam para a sociedade civil as antigas responsabilidades estatais (voluntariado, amigos da escola etc.). Assim, as políticas estatais neoliberais são políticas paliativas, isto é, não visam à resolução de problemas sociais e sim sua amenização, não estruturam um conjunto de políticas estatais voltadas para áreas chaves, mas sim para legitimar e desmobilizar reinvindicações sociais mais intensivas e resolutivas. Isto está de acordo com o princípio neoliberal de diminuir os gastos sociais, já que tais políticas possuem custos muito mais baixos (VIANA, 2009, p. 286).
Estas medidas paliativas, também chamadas de “políticas públicas”, são uma forma de amortecimento das lutas de classes que atingem os movimentos sociais. O chamado microrreformismo (BRAGA, 2007; VIANA, 2009) é uma grande fonte de cooptação de diversos grupos sociais. A cooptação direta contemporânea se dá de diferentes formas, dependendo do país (neoliberalismo protecionista ou não), da configuração, do governo neoliberal (populista ou discricionário), etc. No Brasil, por exemplo, diversos movimentos sociais foram cooptados a partir de suas lideranças, onde o Estado, ou seu aparato, forneceram cargos e vantagens competitivas. Isso contribui para que os movimentos sociais não entrem em conflito com os respectivos governos do Estado, já que há uma certa domesticação dos mesmos, buscando oferecer medidas paliativas a todo esse processo, sendo legitimado e almejado pelas lideranças.
As universidades oferecerem dezenas de ideologias para justificar e legitimar todo o processo de aceitação e criação de bandeiras de “lutas” em torno do microrreformismo e das medidas políticas paliativas. É assim que surge a discussão em torno da exclusão/inclusão social (sobretudo na França) e os estudos referente às “ações afirmativas” (inicialmente nos Estados Unidos e posteriormente “exportado” para o Brasil), por exemplo. Grupos sociais tornam a se fundir e desenvolver ramificações de movimentos sociais em torno dessas ideologias, buscando financiamento no Estado, sendo presas fáceis para a cooptação.
É aqui que entra também a cooptação indireta, via financiamento indireto do Estado, a partir de ONG’s, Grupos de Pesquisa de Universidades, etc. Rios de dinheiro são despejados para fomentar a ação política de determinadas organizações mobilizadoras que buscarão ampliar e aprofundar o microrreformismo, passando ao largo das medidas que podem realmente transformar e ir à raiz do problema e da insatisfação social reivindicado. Determinados setores do movimento negro, no que tange a aceitação e mobilização em relação às “ações afirmativas de cotas” são sintomáticas nesse sentido no Brasil. Bourdieu e Wacquant (2001) observaram bem essa questão, ao demonstrar que esse tipo de medida não se restringe a um só país, mas à própria dinâmica das políticas mundiais, relacionando divisão internacional do trabalho e sua regularização via Estado:
Poder-se-ia invocar, evidentemente, o papel motor que desempenharam as grandes fundações americanas de filantropia e pesquisa na difusão da doxa racial norte-americana no seio do campo universitário brasileiro, tanto no plano das representações, quanto das práticas. Assim, a Fundação Rockfeller financia um programa sobre “Raça e etnicidade” na Universidade Federal do Rio de Janeiro, bem como o Centro de Estudos Afro-Asiáticos (e sua revista Estudos Afro-Asiáticos) da Universidade Cândido Mendes, de maneira a manter intercâmbio de pesquisadores e estudantes. Para a obtenção de seu patrocínio, a Fundação impõe como condição que as equipes de pesquisa obedeçam aos critérios de affirmative action à maneira americana (BOURDIEU & WACQUANT, 2001, p.25)
Este é só um exemplo concreto do Brasil, país de capitalismo subordinado. Cada país terá uma especificidade e uma forma de cooptação diferente, mas resguardando-se nas medidas neoliberais.
A cooptação atinge, sobretudo, os movimentos sociais reformistas e sua tendência hegemônica pelo próprio caráter reivindicativo endereçado ao Estado, bem como a sua composição de classe estar mais ligado ao bloco dominante e ao bloco progressista.
E como opera a repressão no neoliberalismo em relação aos movimentos sociais? Sabemos que a repressão pode ser aplicada de forma preventiva ou seletiva e/ou generalizada. No regime de acumulação integral, a repressão toma uma dimensão de grande importância, já que o aumento da pobreza derivada da maior extração de mais-valor, tanto absoluto quanto relativo (ou seja, exploração), cria condições de maior revolta e resistência por parte das classes desprivilegiadas. Nesse sentido, se o Estado deve ser mínimo em seus gastos sociais, deve ser máximo e forte em combater e reprimir o descontentamento social, sobretudo das classes trabalhadoras (em especial o operariado) e de determinados setores dos movimentos sociais.
Quanto mais a erradicação da pobreza for relegada a um futuro indefinidamente longínquo, mais se considerará a repressão política como uma tarefa de longo prazo. Porque só a repressão política é que permite uma longa convivência com a pobreza. O Estado-Nação anterior é assim substituído pelo Estado autoritário policial [...] Por conseguinte, começa-se a falar de uma “nova democracia”, que é simplesmente a declaração sistemática do fim da democracia liberal. A nova democracia é o estado policial (HINKELAMMERT, 1979, p. 103).
Quanto à questão da repressão, Wacquant (2003), por exemplo, vai chamar o Estado norte-americano de Estado-Centauro:
[...] nem “protetor” no sentido que o termo assume nos países do Velho Mundo, nem “mínimo” e não-intervencionista como sonham os turiferários do mercado. Seu lado social e os benefícios que distribui são cada vez mais monopolizados pelos privilegiados; sua vocação disciplinar se afirma principalmente na direção das classes inferiores e das categorias étnicas dominadas. Este Estado-Centauro, guiado por uma cabeça liberal montada sobre um corpo autoritarista, aplica a doutrina do “laissez faire, laissez passer” a montante em relação às desigualdades sociais, mas mostra-se brutalmente paternalista a jusante no momento em que se trata de administrar suas consequências (WACQUANT, 2003, p. 20-21).
Nesse sentido, os movimentos sociais são bombardeados pela repressão em todas as suas modalidades (preventiva, seletiva, generalizada) e sua criminalização (a principal forma de legitimar a repressão) é facilitada pela legislação rígida e penal àqueles que contestam e ousam combater as medidas neoliberais. A tendência revolucionária dos movimentos sociais reformistas são os mais atingidos pela repressão, posto que suas ações confrontam a lógica neoliberal e ameaça, em determinados elementos, alguns interesses econômicos ou políticos da classe dominante.
Por fim, temos a questão da burocratização. A burocratização pode ser gerada tanto a partir do Estado quanto da sociedade civil. Mas o que é afinal, esse processo de burocratização?
Compreende-se como burocratização o processo de transformação de relações não burocráticas em relações burocráticas, que implicam na existência de uma classe - a burocracia - cuja função primordial é servir à reprodução da ordem social classista, tanto por sua atuação na administração estatal quanto na gestão do capital e do trabalho, assim como na direção de organizações e instituições da sociedade civil (SILVA, 2014, p. 45).
Apesar da concordância na quase da totalidade da conceituação de Santana da Silva sobre o processo de burocratização, temos só um ponto de discordância: o referido autor discorre que a função primordial da burocracia é servir à reprodução da ordem social classista. No entanto, devemos nos atentar as especificidades históricas das classes sociais existentes. A burocracia surge com o processo de burocratização das relações sociais, que é específico do modo de produção capitalista. Ou seja, não se pode relegar a burocracia a gestão da ordem social classista, de forma universal. Já que em outros modos de produção, também classistas, foram outras classes sociais que fizeram esse papel de “gestão” (no caso dominação). É necessário se atentar ao princípio da especificidade histórica. Entendemos burocratização então como criação ou o aumento de organizações burocráticas e a intensificação do controle social (pela classe burocrática).
Nesse sentido, burocratização gerada pelo Estado está umbilicalmente atrelada à questão da cooptação. O que podemos acrescentar, nesse aspecto, é que a cooptação gerada por financiamentos e repasse de outros recursos gera a necessidade de formalização, devido às exigências legais dos editais, etc. O neoliberalismo gera diversas barreiras para a legitimação dos movimentos que não estejam formalizados e/ou ancorados pela lei:
[...] toda e qualquer resolução dos conflitos sociais devem se restringir à ordem constitucional, mediada pelos tribunais e conforme o direito burguês, isto é, a única “contestação” aceitável é aquela que percorre passivamente os canais institucionais (brigas judiciais, disputas eleitorais, o voto consciente e outras farsas mais) domesticados para não comprometerem o fluxo da acumulação integral e a sociabilidade burguesa necessária para ela (BRAGA, 2016, p. 43).
Os movimentos sociais, portanto, são coagidos ou forçados a desenvolver sua burocratização para conseguirem captar recursos, financiamentos, etc. Mas isso está ligado também a questão da hegemonia interna, geralmente sendo os movimentos sociais reformistas a caírem nesse “canto da sereia”.
Quanto a burocratização dos movimentos sociais a partir da sociedade civil, podemos observá-la a partir da questão das ondas de burocratização (que acompanha, simultaneamente, as ondas de mercantilização). As ondas de burocratização também seguem o desenvolvimento da acumulação de capital[6], e tem seu ponto de partida do nosso interesse aqui quando surge a sociedade civil organizada na época do capitalismo oligopolista (VIANA, 2016).
O neoliberalismo gera à quarta onda de burocratização, trazendo consequências para os movimentos sociais que o crescimento exponencial da inserção do fenômeno burocráticos nas organizações mobilizadoras dos movimentos sociais. A escala máxima de mercantilização junta-se agora com a questão do grau de burocratização, determinando o desligamento de várias organizações dos movimentos sociais que lhe deram origem. Nesse sentido, começam a surgir as burocracias formais no bojo desse processo, como as ONG’s que discutimos em páginas anteriores. Atualmente, muitas dessas burocracias formais, surgidas inicialmente como ramificações de movimentos sociais, mas autonomizadas depois da burocratização e mercantilização, utilizam várias formas de ofuscar o seu desligamento dos movimentos. Um exemplo dessas formas é o ofuscamento dos verdadeiros objetivos da organização:
Quando uma organização (o que vale também para tendências, indivíduos, etc.) deixa de ser mobilizadora e se torna burocrática, ela pode manter o discurso anterior. Essa manutenção do discurso visa se legitimar apesar de já não ser mais o seu objetivo real, verdadeiro. Nesse caso, temos a dicotomia entre objetivo real (verdadeiro, mas oculto) e objetivo declarado (falso) (VIANA, 2016, p. 119).
Também podemos observar que a sociedade civil, no processo de burocratização, pode indiretamente influenciar os movimentos sociais. Esse é o caso das organizações como as igrejas, partidos políticos, clubes, etc. Os partidos políticos são as organizações que mais tem influência dentro dos movimentos sociais, geralmente fazendo o processo de aparelhamento[7]. Mas como não é o foco de nosso trabalho, só deixaremos como umas das possibilidades da sociedade civil organizada influenciar os movimentos sociais.
Movimentos Sociais e o Neoimperialismo
O capitalismo é fundamentado na busca incessante do aumento da taxa de exploração. Com isso, existe uma necessidade, por essência, de sua expansão. É nesta dinâmica e nesta determinação do capital que o neoimperialismo é constituído:

Ele cumpre o papel de generalizar a busca de acumulação integral em todo o mundo e reproduzir o processo de exploração intensificado nas relações internacionais, o que é complementar, pois quanto maior é a exploração nos países de capitalismo subordinado, maior é o quantum de mais-valor produzido, o que possibilita, por sua vez, um maior índice de transferência de mais-valor dos países subordinados para os países imperialistas. [...] Por conseguinte, a generalização mundial do neoliberalismo e da reestruturação produtiva são partes da estratégia do capital visando combater a queda da taxa de lucro (VIANA, 2009, p. 104).

Desde o seu início, foram criadas e desenvolvidas diversas ideologias para ofuscar esse processo de maior exploração que é efetuada pelo capitalismo contemporâneo. Uma delas é a ideologia da globalização (VIANA, 2009).
A discussão acerca do neoimperalismo aqui, no entanto, versa sobre sua relação com os movimentos sociais. Como podemos efetuar esta análise? Trataremos de algumas consequências políticas e econômicas que o neoimperialismo traz para os grupos sociais que se fundem e tornam a virar movimentos sociais.
Com a necessidade de extração de mais-valor tanto absoluta quanto relativa, medidas que intensificaram a exploração capitalista no mundo todo foram aprofundadas e trouxeram consequências para as classes e grupos sociais. A divisão internacional do trabalho se complexifica de tal forma que as formas de regularização da sociedade tiveram que acompanhar esse processo (sobretudo o estado, que se tornou o neoliberalismo) assim como a lógica de produção (“reestruturação produtiva”). As organizações internacionais, tais como a Organização das Nações Unidas (ONU), Fundo Monetário Internacional (FMI), entre outros, começam a legitimar todo esse processo a partir de um discurso “globalista”, se colocando como os mediadores políticos e econômicos de uma “nova ordem mundial” que brotou no mundo chamada “globalização”.
A intensificação e ampliação da exploração (que agora se tornou literalmente mundial, ou seja, ocupando todo o globo terrestre, tornando o modo de produção capitalista onipresente em todos os lugares possíveis) possibilitou também a resistência e luta contra esse processo de forma intensa e ampliada. Com o avanço das tecnologias de comunicação, sobretudo com a popularização da internet, impulsionou a integração do capital de forma nunca vista antes (sobretudo do capital financeiro, atualmente com quase suas transações feitas via rede). Da mesma forma, a internet serviu como um grande catalisador dos conflitos sociais, tornando-se uma plataforma onde movimentos sociais trocavam experiências e intercambiavam pautas que englobava todos eles.
         As medidas de austeridade que o FMI, Banco Mundial, BIRD, coagiram os países de capitalismo subordinado a implementarem em seus territórios em troca de “ajuda financeiro”, “subsídio”, etc., trouxeram consequências indeléveis para as classes desprivilegiadas, aumentando pobreza, desigualdade social, criminalidade e etc. Todo esse processo, uniformizador, unem grupos sociais que, sem outras escolhas, resistem e buscam sanar suas insatisfações sociais.
Os movimentos que ficaram conhecidos como Movimento “Antiglobalização” é fruto desse processo, de recusa e resistência contra o avanço da exploração e dominação feita pelo regime de acumulação integral. O movimento antiglobalização é uma constelação de movimentos sociais diversos, bem como outras organizações (burocráticas ou não), com pautas difusas, mas que se portam como uma das respostas dos movimentos sociais a diversas consequências que e o neoimperialismo (junto com o neoliberalismo) trouxe para as classes e grupos desprivilegiados.
Começando com a emergência da rebelião dos zapatistas no Sul do México (1994) e continuando com as batalhas de Seattle (1999), Washington, D.C. e Praga (2000), Quebec (2001), Gênova (2002) - estas por ocasião de protestos durante reuniões de cúpula da OMC, do FMI ou Banco Mundial - aparece em cena uma nova forma de luta popular contra a globalização: as redes mundiais de movimentos sociais antiglobalização (SIQUEIRA, C. E. et al., 2003, p. 853).




O impacto do regime de acumulação integral nos movimentos sociais
Os movimentos sociais conservadores, devido a sua composição de classe ser quase sempre das classes dominantes, tendem a reforçar a hegemonia burguesa para a conservação do capitalismo e busca, a partir de uma escala máxima de mercantilização (já que os indivíduos que os compõe possuem recursos financeiros altos ou são financiados por empresas, multinacionais, etc.) reproduzir e ampliar seus objetivos. A aloctonia e a intolerância dos movimentos sociais conservadores contemporâneos estão ligadas, por exemplo, às relações de poder que imperam na divisão internacional do trabalho no capitalismo imperialista e subordinado (movimentos nacionalistas, xenófobo, fundamentalismo religioso, etc.). Os movimentos sociais conservadores contemporâneos possuem, dependendo de seus objetivos e aceitação de suas reivindicações pela população em geral, uma maior facilidade de angariar recursos em nível não só nacional, mas internacional, já que com o desenvolvimento dos meios de comunicação e das facilidades de transferência de dinheiro via internet para qualquer lugar do mundo, estes podem se conectar e estabelecer vínculos de aliança, formas de financiamento mútua, etc.
Um exemplo concreto de movimentos sociais conservadores forjados no regime de acumulação integral seria os movimentos xenófobos da Europa Ocidental, que se inicia na década de 90, mas se consolida nos anos 2000 em diante. Com a dissolução do Estado Integracionista (“Estado de Bem Estar Social”) europeu devido à crise de acumulação conjugada, a população europeia vê direitos de assistência serem desmantelados e o número de empregos caírem. A crise atinge não só os países de capitalismo imperialista, mas os países de capitalismo subordinado também de forma mais intensa, coexistindo a exploração simultânea do mais-valor absoluto e relativo. Nesse sentido, o processo migratório atinge números altíssimos, onde latino-americanos, africanos e asiáticos procuram uma melhor perspectiva de vida e trabalho nos países europeus. Esse fenômeno migratório cria resistência por parcela da população europeia, já que ela se vê ameaçada, na possibilidade de perda de emprego, identidade, etc. Os movimentos sociais xenófobos buscam combater esses migrantes em seus vários aspectos: culturais, econômicos, religiosos e etc. Organizações mobilizadoras como Bloc Identitaire na França, CasaPound na Itália e English Defence League no Reino Unido, vão crescendo nos últimos anos. A hipermercantilização os impele a se estruturarem e buscarem cada vez mais recursos financeiros para fazerem o processo de luta cultural e ações que exigem muitos materiais. Alguns desses movimentos podem se autonomizar e virarem verdadeiras organizações burocráticas, inclusive virando partidos políticos, como no caso do exemplo grego de 2009 (O partido político “Aurora Dourada” que antes era uma ramificação do movimento social xenófobo).
Os movimentos sociais reformistas, por serem os que possuem o maior volume de indivíduos e organizações em seu bojo, têm uma maior ressonância nos conflitos sociais contemporâneos. Nesse sentido, é necessário percebê-los e analisá-los a partir de suas tendências (conservadora, reformista e revolucionária). A tendência conservadora dos movimentos sociais reformistas é ampliada no regime de acumulação integral, sobretudo nos grupos sociais orgânicos, onde existe uma tendência maior a expressarem aloctonismo[8] (mais exaltado) e autoctonismo[9] (de tendências mais moderadas). A origem do aloctonismo e autoctonismo é geralmente o ressentimento provocado pela opressão ou desiquilíbrios psíquicos de indivíduos que podem se coletivizar. Mas no regime de acumulação integral, é desenvolvido e consolidado uma forma sistemática de justificativa desses processos. É a partir do pós-estruturalismo que o aloctonismo e o autoctonismo tomam legitimidades ideológicas, o que contribuiu para a sua expansão em números de adeptos, já que, devido aos altos recursos e financiamentos recebidos de grandes fundações e universidades, ela torna-se hegemônica no meio acadêmico e intelectual do mundo. Assentado no irracionalismo, o pós-estruturalismo torna-se uma verdadeira contrarrevolução preventiva[10] na sociedade, desviando os conflitos para questões pontuais e específicas, sem relacioná-las com a totalidade das relações sociais capitalistas, amortecendo as lutas de classes. Uma parcela dos movimentos sociais orgânicos (sobretudo os que estão inseridos na Universidade e demais espaços influenciados por ela) é influenciado ou cooptado por essas ideologias e reproduzem em suas práticas mobilizadoras. Exemplos desse processo seriam determinados setores do movimento negro e movimento das mulheres. Em síntese, os movimentos sociais reformistas de tendência conservadora se fortaleceram no regime de acumulação integral. Atualmente é uma grande força política no mundo, ditando determinadas agendas políticas, mobilizando milhões de reais e contribuindo para o ofuscamento das verdadeiras causas que tomam suas insatisfações sociais.
Já a tendência reformista, após a estabilidade na acumulação de capital que cada mudança de regime traz, e com o novo rearranjo da organização de trabalho (taylorismo), forma estatal (neoliberalismo) e relações internacionais (neoimperalismo) e o aprofundamento da exploração, trouxeram significativas mudanças, sobretudo em sua relação com o Estado. Mas essas mudanças, evidentemente, dependem da composição social dos movimentos sociais reformistas. Se a composição é predominante de origem das classes exploradas, as contradições serão maiores. Esses movimentos sociais ficaram conhecidos como “movimentos sociais populares”. Suas reinvindicações estão relacionadas a necessidades imediatas, com à saúde, educação, moradia, etc. No Brasil, por exemplo, muitos movimentos sociais populares após a redemocratização do país, que antes tinham uma perspectiva de confronto direto ao Estado (na época, governado por uma ditadura militar), pós-1988, começam a mudar suas mobilizações e sua maneira de agir com o Estado. Se antes a forma de atuação era o confronto, começa a se esboçar uma relação de negociata a partir das regras institucionalizadas, sem muita fissura com os arranjos estatais e governamentais. Muitas ramificações desses movimentos começam a aumentar a suas escalas mercantis, procurando formas de financiamentos em editais de fundações, políticas públicas e etc., o que faz essas ramificações perderem sua autonomia e independência financeira. É o processo de institucionalização e burocratização desses movimentos sociais. A partir de 2002, com o Governo de Luís Inácio Lula da Silva, que teve a sua vitória com contribuições dos movimentos sociais originadas da relação com o Partido dos Trabalhadores (PT), determinadas ramificações começam a participar da gestão do governo e são paulatinamente cooptadas, tornando os objetivos do governo como seus próprios objetivos, criando um distanciamento entre os dirigentes desses movimentos com sua base, amortecendo qualquer tipo de conflito que venha a ter com o governo. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) é sintomático nesse sentido. Considerado uma ramificação do movimento de reforma agrária no Brasil, na gestão dos governos do Partido dos Trabalhadores, teve um baixíssimo índice de novos assentamentos, não criando complicações com o agronegócio (Inclusive se aliando ele, em determinados projetos, como o da Fibria[11]) grande aliado do governo.
A tendência revolucionária dos movimentos sociais reformistas é a mais marginal das tendências, mas possui relativa relevância a partir de meados dos anos 2000, recheada de contradições mas presentes nos conflitos políticos dentro do regime de acumulação integral. O movimento que ficou conhecido como “Antiglobalização” que aglutinou um conjunto de movimentos e organizações (e alguns deles, de tendência revolucionária) é sintomático nesse sentido. No Brasil, por exemplo, a reemergência das lutas autônomas (MAIA, 2016) forjou ramificações de movimentos sociais, bem como organizações mobilizadoras, que aglutinaram perspectivas políticas contra o Estado e tendo um projeto (ao menos discursivamente) de transformação social. Ou seja, demandas de determinados movimentos sociais estavam ligadas não só a uma insatisfação social específica (como a questão do transporte, educação, etc.), mas na própria totalidade das relações sociais capitalista. O movimento estudantil, a partir da dualidade reivindicatória e entrelaçamento reivindicativo (VIANA, 2016) estabelecidas nas novas organizações estudantis, esboçaram avanços nas Jornadas de Junho de 2013 (sobre a questão do transporte e passe livre) e nas Ocupações das Escolas Secundárias em diversos Estados brasileiros (fechamentos das escolas em São Paulo, implementação das Organizações Sociais em Goiás, etc.). Estas experiências estão em constante processo de recuos e avanços e inicialmente de forma isolada e incipiente.
Por fim, os movimentos sociais revolucionários não se apresentaram ainda no regime de acumulação integral, são quase inexistentes. Isso se dá devido a não hegemonia do proletariado na sociedade no geral.
Assim, as tendências revolucionárias se encontram num contexto desfavorável quando é momento de estabilidade ou de acirramento da luta de classes sem o respectivo fortalecimento do proletariado e do bloco revolucionário. É nesse contexto que emerge um processo de maior receio e mais cuidado, o que também ocorre quando aumenta a repressão (regimes ditatoriais, etc.) (VIANA, 2016, p. 79).
 O movimento operário ainda está adormecido e não se apresentou enquanto classe autodeterminada nas lutas de classes contemporânea. E isso traz enormes dificuldades na constituição de um movimento social revolucionário.
Considerações Finais
Em síntese, os movimentos sociais na era da acumulação integral estão perpassados e são respostas também ao neoliberalismo, à hipermercantilização e ao neoimperialismo (para ficar só nas determinações que analisamos aqui, já que existem outras). Isto significa também dizer que centenas de movimentos sociais, milhares de ramificações estão perpassado também às lutas de classe no capitalismo. Como demonstramos, os movimentos sociais não possuem objetivos tão-somente emancipatórios, mas em sua grande maioria, suas mobilizações estão mais próximas à reprodução da lógica das relações sociais capitalistas do que um vislumbre de contribuir[12] com projeto político emancipador, no sentido revolucionário do termo. É sintomático que os movimentos sociais reformistas sejam hegemônicos e possuam o maior número de adeptos atualmente. Mas esse quadro pode mudar de acordo com a dinâmica das lutas de classe.
O regime de acumulação integral é a atual fase do capitalismo, mas isso não significa que ele se perpetuará para sempre. Devido à própria tendência da crise cíclica do capital de ter de se reinventar ciclicamente para poder continuar existindo, em algum momento a acumulação integral irá ruir, como os anteriores regimes de acumulação. A crise de acumulação de capital leva a intensificação das lutas de classes, clarificando os interesses de cada classe social bem como uma maior percepção dos blocos sociais. Nesse sentido, se aponta duas possibilidades históricas: a vitória da classe dominante (burguesia), e com isso a instauração de um novo regime de acumulação ou a vitória do proletariado, onde ocorre um processo de revolução via transformação social, possibilitando, enfim, a emancipação humana.
Os movimentos sociais estão inseridos nessa lógica. Cada um deles terá um papel de contribuição ou para reproduzir e legitimar a sociedade capitalista ou se unir ao proletariado e contribuir para a emancipação humana e a transformação social. Só o tempo para nos fornece o rumo e fortalecimentos dos movimentos sociais, bem como suas funções na dinâmica nas lutas de classes.

Referências

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RESUMO:
O presente texto tem como objetivo trazer uma análise da dinâmica dos movimentos sociais no regime de acumulação integral, ou seja, analisá-los em seu desenvolvimento na contemporaneidade. Não pretendemos aqui esgotar o assunto, tampouco mostrar todas as suas determinações, mas sim trazer alguns elementos que buscam contribuir com o processo analítico do mesmo. Nesse sentido, apresentaremos uma breve descrição acerca do regime de acumulação integral e uma análise dos os movimentos sociais a partir de algumas de suas determinações.
Palavras-Chave: Movimentos Sociais, Acumulação Integral, Contemporaneidade.

ABSTRACT:
The present text aims to bring an analysis of the dynamics of social movements in the regime of integral accumulation, that is, to analyze them in their development in the contemporaneity. We do not intend here to exhaust the subject, nor to show all its determinations, but to bring some elements that seek to contribute with the analytical process of the same. In this sense, we will present a brief description of the regime of integral accumulation and an analysis of social movements from some of their determinations.
Key-words: Social Movements, Integral Accumulation, Contemporaneity.

RESUMEN:
El presente texto tiene como objetivo traer un análisis de la dinámica de los movimientos sociales en el régimen de acumulación integral, o sea, analizarlos en su desarrollo en la contemporaneidad. No pretendemos aquí agotar el asunto, tampoco mostrar todas sus determinaciones, sino traer algunos elementos que buscan contribuir con el proceso analítico del mismo. En ese sentido, presentaremos una breve descripción acerca del régimen de acumulación integral y un análisis de los movimientos sociales a partir de algunas de sus determinaciones.
Palabras clave: Movimientos Sociales, Acumulación Integral, Contemporaneidad.





* Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Goiás; Mestrando em Sociologia na Universidade Federal de Goiás. Pesquisador do NEMOS – Núcleo de Estudos e Pesquisa em Movimentos Sociais (FCS/UFG).
[1] A Nestlé é líder em vendas no que tange ao engarrafamento de água, representando 8% de todo seu lucro (em 2011 totalizou aproximadamente 68,5 bilhões de dólares).
[3] E também à burocratização (que será tratada no próximo item), mas aqui estamos tratando apenas da mercantilização.
[4] [...] são consideradas Organizações Não Governamentais – ONGs, as entidades que, juridicamente constituídas sob a forma de fundação, associação e sociedade civil, todas sem fins lucrativos, notadamente autônomas e pluralistas, tenham compromisso com a construção de uma sociedade democrática, participativa e com o fortalecimento dos movimentos sociais de caráter democrático, condições estas, atestadas pelas suas trajetórias institucionais e pelos termos dos seus estatutos (cf. <http://www.abong.org.br>. Acesso em 16/11/2016).
[5] No plano concreto, já que no plano do discurso ainda pode existir a ligação para legitimar suas ações.
[6]Sinteticamente podemos dizer que no capitalismo concorrencial há a consolidação, fortalecimento e formalização das burocracias estatais e empresariais (período que vai aproximadamente da revolução industrial até metade do século 19), constituindo a primeira onda de burocratização; no capitalismo oligopolista (período que vai aproximadamente de 1870 a 1945) temos a ampliação da burocracia estatal e empresarial e a emergência da burocracia civil, o que caracteriza a segunda onda de burocratização. No capitalismo oligopolista transnacional (cujo período aproximado é entre 1945 e 1980), ocorre a terceira onda de burocratização, no qual a burocracia invade novos setores da sociedade civil que ainda era pouco presente. No capitalismo neoliberal, ocorre a quarta onda de burocratização, com o aparecimento de novas burocracias civis (ONGs, entre outras) e maior rigidez no controle social” (VIANA, 2016, p. 117).

[7] É neste fenômeno que muitos pesquisadores se confundem. O processo de aparelhamento é feito pelos partidos políticos, já a cooptação é feito pelo Estado ou pelos seus aparelhos que lhe dão sustentação.
[8] “O aloctonismo é uma tendência conservadora por desviar a questão das raízes sociais e da totalidade das relações sociais, isolando o fenômeno (relação entre brancos e negros, homens e mulheres, religiosos e ateus, etc.) e criando um inimigo imaginário que é responsabilizado pelos males do grupo e/ou da sociedade em geral, indistintamente, o que gera um certo maniqueísmo e essencialismo” (VIANA, 2016, p. 70).
[9] O autoctonismo enfatiza “[...] a busca por privilégios e benefícios sem entrar em confronto direto com os grupos autóctones, a não ser em situações específicas. A aloctonia, nesse caso, tem como motivação, ao invés da intolerância (proveniente das classes privilegiadas), o ressentimento, mais comum nas classes dominadas” (VIANA, 2016, p. 71-71).
[10] “A contrarrevolução é predominantemente preventiva e, no mundo ocidental, inteiramente preventiva. Aqui, não existe qualquer revolução recente a desmantelar nem nenhuma existe em gestação. E, no entanto, é o medo da revolução que gera o interesse comum e cria os vínculos entre as várias fases e formas de contrarrevolução. Esta percorre toda a gama desde a democracia parlamentar à ditadura declarada, passando pelo Estado policial. O capitalismo reorganiza-se para enfrentar a ameaça de uma revolução que seria a mais radical de todas as revoluções históricas. Seria a primeira revolução histórica verdadeiramente mundial” (MARCUSE, 1981, p. 11-12).
[11] Ver artigo “MST S/A”: < http://passapalavra.info/2013/04/75172> Acesso em 24 de janeiro de 2016.
[12] Os movimentos sociais, devido as suas características, não possuem condições em suas determinações que aponte para um projeto de transformação social. Nesse sentido, eles não são o sujeito da revolução, já que grande parte dos movimentos sociais são policlassistas (e mesmo sendo monoclassistas, eles agem a partir de interesses grupais, não de classe).
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Publicado originalmente em:

sexta-feira, 22 de junho de 2018

LINGUAGEM “PÓS-MODERNA” E MOVIMENTOS SOCIAIS: O caráter burguês do feminismo culturalista


LINGUAGEM “PÓS-MODERNA” E MOVIMENTOS SOCIAIS:

O caráter burguês do feminismo culturalista


Rubens Vinicius da Silva*
Diego Pereira Marques dos Anjos*




No presente texto pretendemos demonstrar como a linguagem utilizada por determinadas tendências nos movimentos sociais próximos e/ou simpatizantes das ideias “pós-modernas” (para evitar confusões, substituiremos pós-moderno por pós-estruturalismo; tal escolha será justificada ao longo do texto) expressa um determinado projeto político e, por conseguinte, de sociedade. O título do trabalho remete às relações estabelecidas entre os adeptos desta concepção e sua atuação em determinadas organizações dos movimentos sociais.
O foco da crítica será o feminismo culturalista. Contudo, com nossa produção buscamos evidenciar que a influência dos termos vinculados à linguagem “pós-moderna” não se limita a este último, o qual possui grande influência no movimento feminino. Buscaremos comprovar as razões pelas quais tais estratagemas são largamente utilizados por indivíduos, coletivos e movimentos em diversas esferas de nossa sociedade, servindo para justificar determinados interesses, práticas, valores e perspectivas de classe conservadoras.
A pós-modernidade e sua discussão são temas candentes e polêmicos dentro e fora das universidades. Os debates sobre sua existência, a influência das concepções e práticas vinculadas ao termo são objeto de diversas produções intelectuais. Pretendemos explicitar ao longo de nossa jornada que além da inexistência de uma sociedade “pós-moderna” ser uma realidade concreta, sua denúncia remete ao combate efetivo de elementos de uma linguagem hegemônica no seio de diversas tendências nos movimentos sociais.
Assim, a crítica aqui realizada percorrerá o seguinte itinerário: num primeiro momento, iremos realizar uma breve discussão sobre o significado histórico do pós-estruturalismo e os reais interesses de classe dos produtores e reprodutores destas concepções. Para tanto, iremos nos valer das contribuições do marxismo, a partir do método dialético como recurso mental para análise do real e da teoria da sociedade elaborada por Marx e seus autênticos continuadores. Num segundo momento, iremos nos debruçar em torno das relações entre o feminismo culturalista e a linguagem característica do pós-estruturalismo, através da descrição e explicação de alguns termos-chave, evidenciando a perspectiva de classe que perpassa os seus respectivos usos.
A “pós-modernidade” existe?
Para responder a pergunta colocada acima, primeiramente temos de considerar o que é a sociedade moderna e o que a caracteriza. A partir daí, surge a necessidade de verificar se há efetivamente sua superação manifesta na condição “pós-moderna”. O que caracteriza a sociedade moderna? Dentre as mais variadas características (ideologias, opções políticas e tendências relacionadas à luta de classes) podemos afirmar sem erro que a essência da modernidade é a produção capitalista de mercadorias. Tal processo se manifesta nas relações sociais de exploração, dominação e alienação, que surgem nos locais de trabalho, expandem-se e se generalizam ao conjunto da vida em sociedade (VIANA, 2011).
O processo de produção capitalista de mercadorias é fundado na produção e extração de mais-valor. Esta é a relação social fundamental da nossa sociedade. O conjunto da classe capitalista (apropriadores de mais-valor produzido pelo proletariado) compra a força de trabalho da classe proletária (trabalhadores assalariados produtivos, dos quais é extraído o mais-valor) e a utiliza no processo de produção de mercadorias. A força de trabalho (conjunto das energias físicas e psíquicas que são empregadas pelos seres humanos no processo de produção e reprodução da vida material) acrescenta valor às mercadorias, sendo que apenas uma parte desse valor volta para o proletariado, na forma de salário, que é o preço pago pela classe capitalista (VIANA, 2011).
Cabe recordar que o fundamento da modernidade (a produção capitalista de mercadorias, fundada na exploração via extração de mais-valor) vem acompanhado de uma miríade de determinações que são desdobramentos das relações de produção capitalistas. O referido processo não ocorre sem resistência e luta dos (as) operários (as), invadindo o conjunto das relações sociais. Este processo se expande e se complexifica com o aumento da divisão social do trabalho, que na sua gênese era fundada no sexo e na faixa etária. Com o aprofundamento da divisão do trabalho, notoriamente a partir da cisão entre trabalho manual e trabalho intelectual, surgem as classes sociais e a luta de classes.  A propriedade dos meios de produção e reprodução da vida material passa a ser monopolizada na forma da extração de mais-trabalho, tal como se deu nas sociedades fundadas no escravismo antigo e no feudalismo. No modo de produção capitalista, a especificidade da produção de mercadorias se manifesta na produção de mais-valor pelo proletariado e na sua apropriação por parte da burguesia. Essa dinâmica constitui as duas classes fundamentais da sociedade moderna.
Deste modo, temos um conjunto complexo de transformações que ocorrem na sociedade atual: dentre elas é possível citar a dominação, ideologização, mercantilização, institucionalização, etc. Ao mesmo tempo, temos a manutenção destas relações sociais fundamentais: basta olhar a nossa volta e perceber que todos os produtos, bens e serviços são perpassados pelas relações capitalistas de produção e reprodução da vida em sociedade (VIANA, 2011). Negar isso significa, em última análise, negar o real. E negar a realidade, numa sociedade dividida em classes sociais em conflito permanente, serve a interesses de classe específicos. Com isso, uma pergunta persiste: se não superamos as relações sociais fundamentais e nem o modo de produção capitalista, em que consiste a pós-modernidade?
As ideologias[1] pós-modernas (aliás, este termo é uma auto ilusão, pois a sociedade moderna é a sociedade burguesa: somente a sua superação poderá constituir uma pós-modernidade; por isso o termo pós-estruturalismo é o mais adequado, por resgatar o caráter social e histórico das produções intelectuais que fornecem a base ideológica para as concepções expressas por muitos movimentos sociais contemporâneos e suas respectivas tendências) são um produto direto do processo de contrarrevolução cultural preventiva produzida pelo capitalismo a partir da segunda metade do século passado, com a emergência das lutas operárias e estudantis na França no ano de 1968.
Em síntese, a produção de ideologias é obra de indivíduos reais e concretos, com interesses, mentalidade e determinada função desenvolvida na divisão social do trabalho. No caso do pós-estruturalismo, o vínculo estabelecido entre os intelectuais, estado e a manutenção da sociedade burguesa é explícito: a emergência dessas produções intelectuais está diretamente relacionada à necessidade da classe burguesa em combater, deformar e atacar as teorias revolucionárias, retirando seu caráter original, como bem evidenciado nas lutas sociais de Maio de 1968 na França e seus desdobramentos. Com a derrota deste movimento, tais ideólogos foram financiados pelo estado e frações da burguesia, dando início a um processo de contrarrevolução cultural preventiva. No plano da produção intelectual, isso se manifestou na crítica às “metanarrativas”, recusa da totalidade concreta e da historicidade, postulando o fim da história e, fundamentalmente, das classes sociais. Deste modo, uma leitura mais crítica e numa perspectiva revolucionária aponta para reconhecer que o tal pós-modernismo é produto da reação dos intelectuais hegemônicos[2] num contexto de acirramento e radicalização da luta de classes.
 Os elementos principais que unificam as distintas concepções pós-estruturalistas (recusa da totalidade e da historicidade, fim da história e das classes sociais, etc.) possuem enorme ressonância no conjunto das lutas específicas em nossa sociedade, notoriamente nas que tangem às questões da mulher, da homossexualidade e dos negros (as). Segundo a perspectiva defendida pelos ideólogos do pós-estruturalismo e dos movimentos sociais sobre sua influência, tais lutas possuem um fim em si mesmo: isso se manifesta na negação da necessidade de sua articulação com o movimento das classes exploradas e oprimidas. Ademais, elas apontam para microrreformas e políticas públicas com efeito anestésico e paliativo, reforçando a integração desses grupos sociais à lógica estatal. Tais políticas só consolidam e mascaram as relações de classes, que são fundamentadas na exploração, dominação e alienação.
 Ora, cabe recordar que o estado é a principal forma criada pelos capitalistas para tornar regulares e passíveis de reprodução contínua as relações de produção fundamentais da sociedade burguesa (VIANA, 1997). Não é possível disputar o estado: ele é a mais forte e poderosa instituição a serviço da manutenção das relações sociais capitalistas. As experiências históricas de conquista do poder estatal, seja pela via eleitoral ou pela via insurrecional, demonstram cabalmente que houve o reforço e a manutenção do capitalismo em vez de sua efetiva superação. A sociedade capitalista como um todo deve ser abolida, dando lugar a novas formas sociais correspondentes a uma sociedade efetivamente emancipada de todas as formas de dominação e exploração. Nesse sentido, a perspectiva que defende o reconhecimento das “identidades[3]” (da mulher, do gay e do negro) joga o problema para uma simples solução individual, ou então de grupos e culturas isoladas da totalidade histórica e do conjunto das relações sociais. Nunca é demais lembrar que o indivíduo (apesar de sua singularidade) é acima de tudo um ser histórico e social. Por conseguinte, nas sociedades de classes ele é membro de uma das várias classes sociais em permanente conflito.
Acreditamos ter reunido argumentos suficientes para evidenciar a emergência das concepções pós-estruturalistas e os vínculos dos intelectuais defensores de tais concepções com a reprodução do modo de produção capitalista. Iremos agora realizar uma discussão sobre a relação entre o feminismo culturalista e os termos-chave usados por adeptos desta variante da ideologia feminista. O referido itinerário nos fornecerá elementos para entender como há, por detrás de uma suposta crítica, a defesa implícita da sociedade capitalista: embora revestidos de um tom aparentemente contestador, o feminismo culturalista e os termos-chave que expressam a linguagem utilizada pelos adeptos desta tendência manifestam um conjunto de valores, sentimentos e mentalidade que não apontam para a luta pela emancipação total da humanidade dos grilhões da sociedade moderna.
Linguagem dominante e feminismo culturalista
No tópico anterior desenvolvemos uma breve síntese acerca das determinações histórico-sociais que evidenciam os limites, interesses e perspectiva de classe presentes nos defensores do pós-estruturalismo. Nosso objetivo nesta seção consiste em explicitar como a influência pós-estruturalista se manifesta no plano da linguagem, através da reprodução indiscriminada e acrítica de termos-chave, cuja ressonância é notória no seio do feminismo culturalista. Este será analisado tendo como fundamento a crítica ao termo genérico culturalismo.
 Antes de iniciar este procedimento, algumas considerações sobre a linguagem são necessárias. A este respeito, cumpre apresentar uma definição que seja coerente com a proposta metodológica evidenciada em nosso percurso. Partindo do pressuposto de que a linguagem é essencialmente portadora de um caráter histórico e social, é possível defini-la como um conjunto de recursos simbólicos constituídos pelos seres humanos visando satisfazer as necessidades de comunicação. Estes recursos simbólicos são aqueles provenientes da fala e, derivado dela, da escrita (VIANA, 2009).
Obviamente que com a complexificação da divisão social do trabalho, através do surgimento das sociedades de classes, assistimos a um processo de complexificação da linguagem. Neste sentido, a linguagem dominante expressa os interesses da classe dominante, o que revela uma luta de classes em torno do significado das palavras. Assim, a veiculação e difusão de determinados signos é uma forma de ocultar as relações de exploração e dominação, fundamentos da sociedade capitalista. A luta em torno da linguagem manifesta a luta cultural pela transformação social (VIANA, 2009). Neste sentido, o uso e criação de conceito, a ressignificação de palavras e expressões, bem como a crítica radical às deformações do pensamento revolucionário constituem e evidenciam que a luta de classes se alastra para todas as esferas sociais. Isso se dá inclusive na linguagem, que é tão antiga quanto a consciência: sendo as duas produzidas histórica e socialmente, portanto transitórias e passíveis de transformação, para o desenvolvimento da consciência revolucionária o desenvolvimento da linguagem revolucionária é uma tarefa das mais urgentes, árduas e imediatas.
No que tange à luta de classes em torno do signo, um exemplo retirado da dinâmica das classes fundamentais do modo de produção capitalista pode ilustrar melhor o que estamos tratando: o uso da palavra empregado, em detrimento do vocábulo operário. Tal procedimento busca diluir as relações de classe em interações entre os indivíduos. Nesse caso, temos a simplificação e redução do trabalho produtivo alienado ao emprego, de forma a ocultar o processo de controle efetivado pelo não-trabalhador no conjunto de sua atividade e da exploração da força de trabalho, na forma de extração de mais-valor. O uso do signo empregado (e seu correlato, o empregador) sugere uma relação harmoniosa, na qual o antagonismo de classe aparece diluído em interações entre pessoas. A criação e veiculação deste signo (além de outra palavra, ainda mais recente e perniciosa, colaborador) expressa a tentativa de não identificar mais na figura do capitalista um inimigo de classe.
 Portanto, alguns temos manifestam a utilização da linguagem com o intuito de amortecer o conflito de classes. As palavras não criam a realidade: ao contrário, o constrangimento das relações sociais conduz ao esforço de constituir signos que expressem, seja de modo deformado (o que é de interesse da classe dominante) ou corretamente o real em toda sua complexidade e múltiplas determinações. A partir da perspectiva do proletariado, é possível perceber que a linguagem dominante e sua reprodução acrítica revela, em muitos momentos, a necessidade de criação de neologismos ou mesmo a ressignificação de alguns termos, visando explicitar uma perspectiva de classe que não coadune com os valores, sentimentos e interesses vinculados à mentalidade burguesa. Tudo o que pontuamos conduz à conclusão de que a linguagem é transitória, produto histórico e social, manifestando a riqueza e complexidade do real, na forma de expressão dos interesses das diversas classes sociais. Contudo, o uso deformado e a descontextualização de conceitos revela um procedimento comum no que tange ao pensamento complexo: trata-se do fetichismo da linguagem. O caso de Marx é um destes exemplos. A ressignificação dos termos alienação e ideologia feita por ele (a partir das contribuições de Hegel e Destutt de Tracy) foi também produto do mesmo processo, desta vez por parte de intelectuais conservadores e progressistas. Deste modo, para os intelectuais defensores do capitalismo, o combate e deformação da linguagem que expressa os interesses do proletariado revolucionário (ou seja, da humanidade) é uma tarefa essencial, para a qual são muito bem remunerados.
Após estes esclarecimentos, passemos ao foco de nossa discussão. Ou seja, a partir de agora a análise se dará acerca do feminismo culturalista. Em princípio, faremos uma digressão e crítica acerca do termo genérico culturalismo. Depois, iremos identificar no feminismo culturalista uma das vertentes mais fortemente influenciadas pelo pós-estruturalismo, expressando um obstáculo na luta pela emancipação feminina. A expressão culturalismo revela a ênfase na cultura no sentido de limitar-se a ela, na tentativa de torna-la autônoma frente aos demais fenômenos sociais. Tal crítica se faz necessária, visto que o conteúdo da linguagem é manifesto no seio de muitas tendências atuantes nos movimentos sociais, em especial no movimento das mulheres.
Antes de qualquer coisa, precisamos pontuar algumas questões relativas à necessidade de reconhecimento de determinadas opressões e sua relação com os desejos e possibilidades de luta pela superação da sociedade moderna, capitalista. Sem dúvida, o combate e denúncia da opressão e da violência contra a mulher (por ser um desdobramento das relações de produção capitalistas) é uma tarefa de todos aqueles comprometidos com a emancipação humana. Contudo, o isolamento fantástico da noção de cultura[4] se revela inapropriado para o real entendimento das múltiplas determinações envolvidas no processo de opressão e violência da mulher em nossa sociedade. Isso porque não há uma contribuição efetiva para explicitar os fundamentos, a raiz destas relações. Do mesmo modo, inexiste uma tentativa ou combate efetivo no sentido da superação total e completa das mesmas: de superficialidade em superficialidade, a opressão, a alienação e a exploração vão, por assim dizer, se perpetuando, uma vez que sequer são tangenciadas.
A luta contra a violência contra a mulher é antiga, anterior ao próprio feminismo. Todavia, em nossa sociedade temos a adoção de novos discursos e práticas sociais relativas à questão da mulher, sendo um deles o feminismo culturalista. A complexidade das múltiplas determinações do concreto é substituída de modo arbitrário pela questão “cultural”. Ou seja, ao isolar e com isso relegar para a questão da cultura (e também do comportamento), a solução se torna meramente uma mudança de cultura e comportamento. Tal conjunto de práticas produz posições moralistas, conservadoras, as quais têm como complemento necessário a repressão e punição legais, reforçando a lógica capitalista de resolução falsa e imediata de problemas mais profundos.
Assim, permanecem intactas as relações sociais que permitem a violência contra a mulher: o que se observa é um conjunto de poucas alterações que no fundo nada alteram. O isolamento fantástico das relações sociais entre os sexos é o complemento de tal perspectiva. E tal impossibilidade de mudança se dá pelo fato de que as bases e fundamentos reais deste processo permanecem inalterados. Ou seja, é muito mais fácil e até cômodo culpar determinados grupos e indivíduos (os homens malvados e cruéis, como o querem muitas feministas culturalistas e “radicais”). O principal procedimento ideológico adotado para a sustentação de tais posições é o uso do construto[5] gênero, unidade no interior da ideologia do gênero.
Sobre os limites desta ideologia, mais uma vez nos valemos das contribuições do sociólogo e filósofo marxista Nildo Viana:
Não se pode pensar o homem (sexo masculino) e a mulher (sexo feminino) como construções culturais arbitrárias. As representações, reais ou ilusórias, segundo Marx, se dão a partir de relações sociais concretas. As representações cotidianas e as ideologias acerca do sexo feminino (e do masculino) não são produtos arbitrários da “cultura” ou do “poder”, estas duas entidades metafísicas que dominam o discurso contemporâneo antropológico ou pós-estruturalista, já que tanto a cultura quanto o poder nesta ideologia aparece como algo a-histórico, indeterminado, a-social. A visão do sexo feminino é constituída histórica e socialmente, mas é preciso discutir em que período histórico e em que contexto social isto ocorre, bem como entender qual é a posição de classe de quem a apresenta. (...) Outra característica que se reproduz na ideologia do gênero é a falta de referências a seres humanos concretos, relações sociais concretas. Os livros das ideólogas do gênero estão recheados de referências a outras obras, ou seja, ficamos num mundo livresco, no qual um livro remete a diversos outros livros (não para deles extrair relações sociais concretas, mas apenas outras teses), e uma tese a diversas outras teses, num círculo vicioso e autorreferente do mundo ideológico. (VIANA, 2006, p. 48-52, grifos nossos).
Para tanto, não apenas nas universidades temos a hegemonia destas posições (no caso concreto de nossa análise, do culturalismo). Tais ideologias se expandem e invadem diversas tendências atuantes nos movimentos sociais, em especial o movimento feminista de matiz culturalista. É possível perceber manifestações desta forma de pensamento ilusório através do uso de diversos termos-chave, tais como “sororidade”, “vivência”, “lugar de fala”, “desconstrução”, dentre outros. Essas palavras são deslocadas das ideologias de onde surgiram, sendo difundidas, popularizadas e reforçando a hegemonia existente. Em muitos debates e conversas elas aparecem como mágica, cuja pronúncia resolveria as coisas fantasticamente ou fariam coisas aparecerem do nada.
 Tais expressões são produtos sociais e históricos, forjados nas relações sociais concretas, num dado regime de acumulação e inseridas num determinado paradigma hegemônico e ideologias derivadas do mesmo. De maneira muito sintética, é possível definir regime de acumulação como uma forma estabilizada da luta de classes, marcada pelo predomínio de determinada configuração do processo de valorização (formas assumidas pelo processo de extração de mais-valor), determinada formação estatal e determinada configuração da exploração entre os estados (relações internacionais).
As mudanças no interior de um regime de acumulação são acompanhadas por mutações culturais e ideológicas. O capitalismo contemporâneo se caracteriza pelo regime de acumulação integral, marcado pela intensificação da extração de mais-valor absoluto e relativo, pelo estado neoliberal e pelo neoimperialismo (VIANA, 2009b). No capitalismo da era da acumulação integral, o subjetivismo torna-se a matriz paradigmática de diversas ideologias (pós-estruturalismo, seus derivados e assemelhados) e isso é perceptível no seu reducionismo ao “sujeito”, essa entidade metafísica, separada das relações sociais concretas e da história. Tal procedimento revela uma posição política, vinculada ao pertencimento de classe, portanto eivada de valores, interesses, concepções e sentimentos dos que a produziram. Não há neutralidade, muito menos no que tange às produções intelectuais na sociedade capitalista.
 Conforme mencionado, nossa crítica está focada no feminismo culturalista. Porém, nossa análise procura explicitar que a influência e hegemonia dos termos vinculados ao pós-estruturalismo gera práticas sociais idênticas em outros movimentos sociais[6]. Voltando ao foco da discussão, o fragmento do texto A quem interessa o feminismo culturalista?, produzido pelo coletivo de mulheres 8 de Março, sintetiza a correspondência havida entre a postura da organização e a tese que estamos a defender. Fazemos isso por conta do argumento (muitas vezes desonesto) de que homens não poderiam dar contribuições e se posicionarem com relação à questão da mulher na nossa sociedade:
O feminismo culturalista compartilha não somente os limites do feminismo em geral, como agrega valor ideológico ao mesmo. O culturalismo é um mal da sociedade capitalista "pós-moderna". O feminismo culturalista é apenas um remendo mal feito desse mal. Os problemas do feminismo culturalista, na sua parte culturalista, podem ser destacados e divididos em dois principais: a) a cultura passa a ser o centro da ação feminina, isolado do mundo circundante. O feminismo em si tem a tendência de isolar as relações entre os sexos e esse "novo feminismo" aprofunda isso tornando essa relação meramente cultural. E transforma o cultural em essencial. (...) O social é expulso pelo cultural e nesse campo, a ideologia reina totalmente. Sempre foi papel da ideologia autonomizar as ideias. b) a história da cultura é esquecida. A sua produção e sua lógica de produção é abandonada e naturalizada. A cultura passa a ser produto dos homens machistas por serem homens (e naturalmente e essencialmente "machistas"). A cultura é produto dos homens machistas por causa da essência masculina (e, contraditoriamente, afirmam que não existem "essências" ou "essências femininas"). (...) A história é esquecida, a formação das sociedades de classes é esquecida, o capitalismo é esquecido. Só restam homens e mulheres e fora da história. (COLETIVO 8 DE MARÇO, 2016).
Assim, apesar de algumas diferenças internas, temos uma unidade no discurso do feminismo culturalista. Tal unidade se manifesta num isolamento fantástico da cultura frente à totalidade das relações sociais, no abandono da historicidade e dos conflitos (de classe, de sexo, de raça, etc.) na gênese da sociedade moderna, além do triunfo da “guerra dos sexos”, em contraposição à luta de classes como fundamento das sociedades classistas. Tais produções servem a quais interesses de classe? Será mesmo que a equivalência da divisão sexual do trabalho, com sua consequente manutenção, pode dar conta de uma “igualdade social”? Nossa conclusão é justamente o contrário: são na realidade tendências conservadoras nos movimentos sociais, que reforçam o processo cotidiano de exploração, dominação, alienação e opressão, que se estendem a todos os sexos e formas de vida em nossa sociedade.
 É extremamente importante explicitar que nenhum fenômeno surge do nada, nem pode ser entendido isoladamente. Não podemos tomar a parte pelo todo, muito menos a floresta pela árvore. Todos nós somos constituídos pela sociedade da qual fazemos parte, tanto homens quanto mulheres. A socialização feminina não ocorre em separado da masculina: ambas são fundadas na repressão (impedimento da manifestação de determinado comportamento) e na coerção (imposição de um determinado tipo de comportamento). Somos seres sociais e as relações que nos formam são materiais, concretas e não algo restrito à esfera “cultural”. Quando se luta por uma transformação radical da sociedade em que vivemos, certas cartas precisam ser postas na mesa. A libertação feminina (e a superação da divisão sexual do trabalho é sua pré-condição) não está desligada da necessidade de superação da sociedade de classes. Se isso fosse explicitado, não teríamos tantas pessoas defendendo por aí que se trata apenas de algo cultural. E algo cultural se resolveria culturalmente, sem necessariamente superarmos o capitalismo.
Em nossa perspectiva, a discussão não passa pelo simples uso ou desuso dos termos gênero e sexo, bem como sua expressão no seio das universidades. Trata-se de uma luta cultural, que expressa perspectivas e interpretações de classes distintas com relação à questão da mulher na sociedade moderna. Deste modo, consideramos que a questão da mulher está inserida na totalidade das relações sociais capitalistas. Estas relações são marcadas pela alienação, dominação, opressão, exploração, etc.
Desta forma, a “mulher” em geral não existe: o que existem são mulheres reais, vivas, de carne e osso, as quais ocupam funções distintas na divisão sexual e social do trabalho, originando interesses, valores, mentalidade e sentimentos opostos. Os interesses das mulheres burguesas são muito diferentes dos das mulheres proletárias e os interesses das mulheres burocratas são distintos das mulheres submetidas à burocracia. Isso quer dizer que os interesses de mulheres pertencentes às classes privilegiadas (por exemplo: Dilma Rousseff e Michele Bachelet, ex-presidentas do Brasil e Chile, respectivamente) são antagônicos aos interesses das mulheres pertencentes às classes desprivilegiadas.
Ademais, as mulheres possuem origens sociais, culturais, religiosas e profissionais distintas. Neste sentido, a questão da mulher não está separada da luta de classes, mais especificamente da luta entre as classes fundamentais do modo de produção capitalista (burguesia e proletariado).  Para explicitar melhor nossas afirmações, utilizaremos um excerto da produção da antropóloga estadunidense Evelyn Reed, Sexo Contra Sexo ou Classe contra Classe. Embora a citação seja longa, fundamenta de modo preciso nossa argumentação sobre o tema:
Existem duas maneiras distintas de tratar este aspecto da liberação da mulher. Uma é a marxista. Sabemos que as mulheres estão subjugadas e humilhadas em uma sociedade dominada pelo homem, e também que estão plenamente capacitadas para se organizarem ativamente contra estes males. Ao mesmo tempo, o marxismo nos ensina que a subordinação de um sexo é parte e consequência de uma pressão mais ampla e da exploração da massa trabalhadora por parte dos capitalistas, detentores do poder e da propriedade. Portanto, a luta pela liberação das mulheres é inseparável da luta pelo socialismo. E outro ponto de vista sustenta que todas as mulheres, como sexo, estão no mesmo barco e têm objetivos e interesses idênticos independentemente de sua posição econômica e da classe a que pertençam. Portanto, para obter a emancipação, todas as mulheres deveriam se unir e levar a cabo uma guerra baseada na diferença de sexo contra os machos chauvinistas, seus inimigos acérrimos. Esta conclusão, unilateral e distorcida, pode causar um grande dano à causa da liberação da mulher. É certo que as mulheres em geral, inclusive as de classes superiores, sofrem de alguma forma com o chauvinismo masculino. Em algumas ocasiões e para alguns objetivos é útil e necessário que as mulheres pertencentes a estratos sociais distintos constituam organizações próprias e atuem unitariamente para eliminar injustiças e desigualdades impostas a seu sexo. Um exemplo é o movimento para a legalização do controle de natalidade e do direito ao aborto. Sem dúvida, nem sequer a garantia de ver realizadas estas reformas urgentes eliminará as causas fundamentais da opressão da mulher, que se encontram na estrutura de classe de nossa sociedade. Em relação a todas as questões fundamentais, concernentes à propriedade privada, as mulheres ricas estão a favor da manutenção do status quo e de sua posição privilegiada, exatamente igual aos homens ricos. Quando isto acontece, traem seu sexo em favor de seus interesses e de seus privilégios de classe. Portanto, classe contra classe deve ser a linha mestra da luta pela libertação da humanidade em geral, e da mulher em particular. Somente uma vitória revolucionária sobre o capitalismo, dirigida pelos homens e mulheres trabalhadoras e apoiadas por todos os oprimidos, pode resgatar as mulheres de seu estado de opressão e garantir-lhes uma vida melhor numa nova sociedade. (REED, 2008, p. 103-105, itálicos no original).
Desta forma, o que defendemos é a articulação (e isso significa rejeitar quaisquer anacronismos, hierarquizações ou etapismos; a história da humanidade é aberta, permeada por tendências e possibilidades) desta luta específica com a luta operária, dos homens e mulheres desta classe, no sentido de fornecer as condições de possibilidade para o fim da opressão feminina, que é um produto da dinâmica social do capitalismo: esta estratégia deve ser adotada também com relação às demais lutas específicas em nossa sociedade. Somente com o fim do capitalismo, das classes, do estado e demais formas de dominação é que será possível avançar na luta pelo fim de todas as manifestações concretas da opressão feminina.
Com relação ao vínculo entre linguagem e perspectiva de classe, temos a presença de expressões ou frases que são utilizadas de modo recorrente, configurando mais um modismo ao invés de categorias analíticas ou noções que podem contribuir com a explicação da realidade. Tais gírias são dominantes nos círculos estudantis, especialmente no ensino superior: em casos mais extremados, são utilizadas quando se quer deslegitimar os argumentos de determinado ser humano, evitando suas reais posições, despolitizando e abolindo de modo fantástico determinadas partes de sua intervenção da totalidade desta, dentre outras formas. Com isso, temos o surgimento de famosas afirmações, tais como: “temos que ter o protagonismo”. Ou então, quando há um acirramento na discussão, outra pérola aparece: “não dê pitaco no que não conhece”.
E, quando as discordâncias estão explícitas e não há a preocupação em avançar, chega o momento da exposição ao ridículo: “é melhor parar migx, tá ficando feio”. Mais uma vez, há o esquecimento de que a cultura não paira acima de nossas cabeças, como o sol que nos aquece e a chuva que nos molha. Esta é um produto social e histórico, um conjunto de relações sociais que têm por objetivo fundamental reforçar as relações sociais dominantes no seio de um modo de produção, visando torná-las regulares, aceitáveis e com isso reproduzi-las para o conjunto da vida em sociedade.
Por mais que muitos vejam autonomia das ideias e da linguagem frente ao real, isso não é o que acontece na concretude: na realidade esta é mais uma estratégia da classe dominante e de suas classes auxiliares para manter a reprodução da sociedade existente. Por mais que muitos vejam “rupturas linguísticas” e “revoluções culturais”, nestas e noutras expressões, bem como deixar de escrever eles para escrever “elxs/el@s”, as relações sociais concretas em nada foram transformadas. Pelo contrário: continuam havendo estupros, violência e exploração dos seres humanos pelos seus semelhantes. E ninguém “parou porque tá feio...”. Segundo a sapiência universitária, somente a vivência importa: dito de outra forma, só pode falar de assassinato quem já foi morto...
No fundo, estamos diante da demonstração de que estas expressões e ideias são equivocadas e prejudiciais para um movimento real que tenha como projeto político a busca por unificar as diferenças e não fragmentar as diversidades. É muito curioso reter que os pós-estruturalistas que pedem para ressaltar e respeitar as “diferenças” são os mesmos que se esforçam em negar e ocultar os antagonismos de classe. Por “incrível que pareça”, são os mesmos que se aliam a um “projeto popular” e defendem a democracia. São os que negam a necessidade de ruptura radical com a ordem burguesa e suas instituições, os que dizem para “evitar o enfrentamento”. Assim, vão influenciando e levando muita gente honesta e sincera no seu “canto de sereia”. Uma vez que, com isso, seus interesses de classe permanecem intocados. Assim, estes intelectuais reproduzem acriticamente discursos de seus professores e orientadores. Como se todos estivéssemos “no mesmo barco”...
Considerações finais
Procuramos ao longo do texto estabelecer a relação entre o surgimento do pós-estruturalismo como uma das determinações histórico-sociais para a emergência do feminismo culturalista, na forma de uma linguagem que se utiliza de termos-chave visando expressar um projeto político que não aponta para a transformação radical da sociedade capitalista. Ademais, nossas considerações revelam os vínculos existentes entre a linguagem hegemônica nas tendências dos movimentos sociais, a função da intelectualidade neste processo e a manifestação da miséria intelectual dentro e fora das universidades. Diante disso, qual proposta de alternativa deve ser levantada como complemento da crítica anteriormente aludida? A resposta pode ser dada partindo do pressuposto segundo o qual os revolucionários não defendem a filantropia ou a integração das classes exploradas no capitalismo e sim o fim da sociedade existente. Não queremos remediar suas relações desumanas e inautênticas, mas acima de tudo superá-las por novas e superiores relações sociais. Por isso criticamos radicalmente quem as defenda, desde seus supostos críticos até seus adoradores. Ambos advogam, com maior ou menor ardor, pela manutenção e reprodução da ordem social burguesa:
Para nós, não se trata de modificar a propriedade privada, mas de aniquilá-la, não se trata de camuflar as contradições de classe, mas de abolir as classes, não se trata de melhorar a sociedade vigente, mas de fundar uma nova. (...) O proletariado perderia de vez sua posição autônoma, conquistada a duras penas, e ficaria novamente relegado à condição de penduricalho da democracia burguesa oficial.  (MARX & ENGELS, 2010, p.64-65). 
O que tem de ser questionado é o caráter fragmentário, isolacionista e conservador desta estratégia de luta: para além das “invenções identitárias”, o elemento fundamental é a unificação de todas as classes e grupos sociais oprimidos e explorados. Essa unificação só pode ocorrer por meio da perspectiva comunista de transformação radical de todas as relações sociais, e não somente de um ou mais grupos sociais. Cumpre ressaltar que os grupos sociais não possuem como objetivo a superação da sociedade capitalista em sua totalidade. Neste sentido, perguntas como estas devem ser feitas: por que categorias fundamentais não aparecem nos discursos acima criticados, tais como totalidade, contradição, conflito, transformação? Ou ainda: por que os conceitos que explicam a realidade e geram esta situação não são utilizados, tais como capital, mercantilização, lucro, poder, classes sociais e etc.?
A linguagem é expressão da luta de classes, sendo perpassada pela dinâmica dos conflitos sociais (BAKHTIN, 2014). As palavras expressam interpretações e perspectivas de classe conflitantes. Todo discurso expressa os valores, ideias, sentimentos e interesses de seu locutor, de modo que não existem neutralidade e imparcialidade na análise do real. Para nós este é o conteúdo fundamental que os termos-chave acima comentados e sua manifestação concreta no feminismo culturalista transmitem. Ao demonstrar qual é o real sentido por detrás do vocabulário "pós-moderno", autoimagem ideológica de frações da intelectualidade (classe social auxiliar da burguesia) que surge exatamente no bojo das lutas radicais do final dos anos 60 na França, desmistificam-se suas preocupações fundamentais, quais sejam: negar a totalidade das relações sociais, a historicidade das sociedades humanas e a impossibilidade de uma transformação radical do conjunto das relações sociais.
As derrotas das lutas estudantis e operárias nos fins dos anos 60 e início dos anos 70 fizeram emergir o “pós-modernismo” e sua linguagem hegemônica em diversas vertentes dos movimentos sociais que, ao contrário do que é veiculado na esfera intelectual, não se configuram em conquistas dos movimentos sociais. Tais ideias fazem parte de um processo de contrarrevolução cultural preventiva, através da apropriação conservadora do que foi iniciado como crítica nos movimentos de contracultura daquele período. Este movimento se complexificou e sua hegemonia se manifesta não somente no interior das universidades, mas também nas próprias lutas que se desenvolvem na prática, bem como no cotidiano. No caso da sociedade brasileira, mais recentemente muitos termos-chave e seus portadores têm sido disseminados por determinadas frações do capital comunicacional com o objetivo manifesto de amortecer os conflitos de classe, diluindo-os em questões de ordem individual e identitária.
 Esse processo revela a presença de um vocabulário conservador que se quer passar por crítico, e como tal precisa ser combatido. Ademais, a veiculação por parte dos meios oligopolistas de comunicação demonstra em que medida a cooptação e integração de grupos sociais oprimidos pode reforçar a competição, que juntamente da mercantilização e burocratização das relações sociais é um dos elementos constituintes da sociedade capitalista. No que se refere à influência no interior de tendências e organizações dos movimentos sociais, é sabido que são inúmeros casos de denúncia dos indivíduos que, ao serem desmascaradas em debates ou assembleias e não encontrando mais saída, apelam para um possível olhar intimidador contra o “esquerdo-macho”; aliás, porque essa ênfase de denunciar que na “esquerda” existe opressor? Porque não combater os casos concretos? Porque não desmascarar os limites políticos da “esquerda” e vinculá-los como extensão do autoritarismo bolchevique? As contribuições dessa perspectiva são inexistentes, é uma novidade recheada de velhos preconceitos de classe. Além disso, temos a predominância de uma determinada prática política na maioria destes grupos: ao invés de unificar a luta contra todas as formas de exploração e opressão, estes preferem limitar-se aos seus problemas específicos.
 Os termos-chave acima criticados, bem como sua hegemonia no seio do feminismo culturalista, expressam uma linguagem que é apropriada e usada por seus adeptos, manifestando práticas sociais que em nada contribuem para a emancipação humana. Se esta linguagem é oriunda deste ou daquele grupo, aqueles que buscam resgatar os valores autênticos da humanidade (respeito mútuo, solidariedade, fraternidade) têm de combatê-la. E não importa de quem vier (seja negro, gay, mulher, etc.). Os meios que devem ser coerentes com os fins últimos são aqueles que expressam a necessidade da transformação radical do conjunto das relações sociais em sua totalidade, e não microrreformas particulares, as quais têm por objetivo amortecer e institucionalizar as lutas de classes, com o intuito de integrar as classes e grupos sociais explorados e oprimidos na dinâmica da reprodução das relações sociais capitalistas.
Referências

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovitch. Marxismo e Filosofia da Linguagem. 16ª ed. São Paulo: Hucitec, 2014.

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______. As Esferas Sociais: A Constituição Capitalista da Divisão do Trabalho Intelectual. Rio de Janeiro: Rizoma, 2015.

______. Os Movimentos Sociais. Curitiba: Prismas, 2016.

RESUMO: No presente texto pretendemos demonstrar como a linguagem utilizada por determinadas tendências nos movimentos sociais próximos e/ou simpatizantes das ideias “pós-modernas” (ao longo da leitura, para evitar confusões, substituiremos esta expressão com o uso do termo pós-estruturalismo; tal escolha será justificada ao longo do texto) expressa um determinado projeto político e, por conseguinte, de sociedade.
PALAVRAS-CHAVE: pós-estruturalismo; culturalismo; feminismo.

ABSTRACT: In the present text we intend to demonstrate how the language used by certain tendencies in the near social movements and / or sympathizers of the "postmodern" ideas (throughout the reading, to avoid confusion, we will substitute this expression with the use of the term post-structuralism; Such choice will be justified throughout the text) expresses a certain political project and, therefore, society.

KEY WORDS: poststructuralism; culturalism; feminism.




* FURB, Fundação Universidade Regional de Blumenau, SC.
* UnB - Universidade de Brasília/DF.
[1]As ideologias são formas complexas de pensamento ilusório, uma falsa consciência sistematizada produzida pelos especialistas no trabalho intelectual, os intelectuais ou ideólogos (MARX & ENGELS, 1992).
[2]Os intelectuais hegemônicos são aqueles que expressam a maior autonomia da intelectualidade como classe social, explicitando seu caráter como uma classe auxiliar da burguesia, a qual busca se autonomizar e manter sua posição privilegiada no interior da sociedade moderna (VIANA, 2015).
[3] Acerca dos autores que defendem a perspectiva do reconhecimento e constituição das identidades, conferir (HALL, 2004) e (DUBAR, 1997).
[4] Entendemos por cultura o conjunto das produções intelectuais de uma determinada sociedade. Nas sociedades sem classes a cultura é homogênea, ao passo que nas sociedades classistas ela se torna heterogênea. Neste sentido, a produção artística, científica, filosófica, as representações sociais em geral, os valores, sentimentos, a manifestação do inconsciente, etc. compõem a cultura da sociedade moderna (VIANA, 2016).
[5] Os construtos são elaborações sistematizadas de noções que falseiam e deformam da realidade. Os construtos são produzidos no interior de uma ideologia, expressando os interesses de classes que não conseguem atingir uma consciência correta da realidade. Já os conceitos expressam a realidade em sua complexidade: são unidades que emergem no seio da teoria, manifestando os interesses da classe proletária, cujo interesse é o desenvolvimento de uma consciência correta da realidade (VIANA, 1997).
[6]Partimos da definição expressa por Nildo Viana no livro Os Movimentos Sociais: Os movimentos sociais são mobilizações de grupos sociais que produzem senso de pertencimento e objetivos gerados por insatisfação social (demandas, necessidades, interesses, etc.) com determinada situação social. (VIANA, 2016, p.48, itálicos no original).
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Publicado originalmente em Revista Movimentos Sociais:

quinta-feira, 21 de junho de 2018

OS MOVIMENTOS JUVENIS E OS LIMITES DO PRESENTISMO



OS MOVIMENTOS JUVENIS E OS LIMITES DO PRESENTISMO
      
Marcus Gomes

Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB).




Os movimentos sociais juvenis sempre tiveram a fama e promoveram a expectativa de serem a esperança de mudanças radicais e necessárias na sociedade e vistos como força propulsora nesse processo. No entanto, o grupo social a que muitos atribuem um caráter de futurismo, muitas vezes fica limitado ao presentismo. As lutas juvenis na contemporaneidade, por sua vez, parecem presas ao paradigma hegemônico e não ultrapassa o discurso progressista. Os movimentos juvenis perderam o seu significado utópico e sua radicalidade?

Essa é uma questão complexa, pois existem, no interior dos movimentos juvenis, contradições, limites, avanços, divisões, que dificultam uma resposta unívoca. Porém, a juventude hoje não pode ser considerada uma “vanguarda” do movimento futurista, ou seja, daqueles que apontam para a transformação social radical e total. Alguns setores dela se alinham com tal perspectiva, sendo minoritários, pois a maioria reproduz a sociedade existente e vê alterações apenas no seu interior. Uma pequena parte fica ao lado do conservadorismo assumido e a maior parte tende ao progressismo, um conservadorismo reformista e esclarecido. Assim, a nossa tese é a de que os movimentos juvenis perderam sua radicalidade por causa da conformidade geracional dominante na contemporaneidade, que gera um presentismo que é limitador de tais movimentos.

Isso pode ser visto no processo contemporâneo e nos limites das lutas juvenis. As lutas juvenis na contemporaneidade se reduzem, na maioria dos casos, a lutas “imediatistas”, “estilistas”, “institucionais” e raramente lutas “autônomas” ou “revolucionárias”[1]. As lutas imediatistas ganham espaço e força na contemporaneidade, mais do que qualquer outras. Isso tem a ver com os processos sociais mais amplos, especialmente a constituição de um novo regime de acumulação e uma nova conformidade geracional dominante. O regime de acumulação integral emerge com o neoliberalismo, toyotismo e hiperimperialismo e faz emergir um novo paradigma, o subjetivista.

Assim, essa convergência de processos sociais e culturais constitui uma nova geração uniformizada hegemônica em cada geração etária, o que faz com que a juventude, hegemonicamente, realize a adesão às novas ideologias e formas de contestação, aderindo às “novidades” da época, geralmente comparadas com o que era hegemônico no regime de acumulação anterior[2]. Isso explica a tendência subjetivista hegemônica na juventude e nos movimentos sociais em geral. Assim, a renovação hegemônica que impõe o subjetivismo acaba atingindo a juventude e gerando uma geração uniformizada hegemônica marcada pelas ideologias, concepções, representações, subjetivistas. As questões juvenis do passado reaparecem sob interpretação subjetivista, tais como a sexualidade, as drogas, a música e a arte em geral, etc. O caso da sexualidade é exemplar para mostrar a hegemonia subjetivista, pois o que passa a valer é o “sujeito” e sua “subjetividade”, independente de quais sejam e como foram produzidas social e historicamente (o que é simplesmente apagado na maioria dos casos).

Novas questões juvenis aparecem, como derivadas das anteriores, mas adaptadas e reinterpretadas a partir da nova hegemonia. Por outro lado, emergem supostas questões novas, oriundas deste paradigma, tal como a questão da “identidade” ou então a do “empoderamento”. E o “sujeito”, mero produto social e histórico, se torna soberano, como se fosse autossuficiente ou então um indivíduo cindido em duas partes: uma autêntica e em contraposição à sociedade (como se essa parte também não fosse uma produção social) e uma inautêntica e social. A proliferação de opressões emerge daí, bem como o excesso de sensibilidade denunciado pelos conservadores. No plano dos movimentos juvenis e outros movimentos sociais, proliferam uma novílingua: “vivência”, “lugar de fala”, “identidade”, “empoderamento” etc. O foco em todos esses termos é o “sujeito”.

No interior dos movimentos juvenis, cabe destaque para o movimento estudantil. Este, no entanto, há muito perdeu sua radicalidade e fica dividido em lutas institucionais e lutas imediatistas. As lutas institucionais se manifestam no movimento estudantil oficial e sua burocracia informal, que usa elementos do discurso subjetivista, pois precisa de votos (para vencer as eleições estudantis ou para o seu partido vencer as eleições na democracia representativa) e por isso precisa ser populista e adepto dos modismos (além da força real da hegemonia que também atinge os estudantes em geral). A oposição reproduz a situação, pois também busca votos e cargos e está sob influência do subjetivismo hegemônico. As lutas imediatistas hoje são comandadas pelas redes sociais e por correntes de opinião, sem maior efetividade prática, a não ser em certos momentos de agitação estudantil. Em certos momentos, o movimento estudantil parece avançar, tal como nas ocupações estudantis em 2015 e 2016. As ocupações estudantis de 2016 aparentemente eram lutas autônomas, e foi assim “festejada” por alguns intérpretes (FERREIRA, 2017)[3], mas também estavam submetidas à hegemonia subjetivista, mas no fundo foram caracterizadas por focos de lutas autônomas convivendo com lutas estilistas, imediatistas e influência de partidos e outras instituições e setores da sociedade.
Nesse contexto, os “ventos de falsidade” (MARÍAS, 2003) acabam se espalhando e se tornam quase irresistíveis. O presentismo prende os indivíduos na contemporaneidade e isso pode ser visto nas tendências que se pretendem “revolucionárias”, pois, afinal, elas também reproduzem grande parte do que é hegemônico e não conseguem se desvencilhar dos “efeitos do contemporâneo” (VIANA, 2014). Os demais movimentos juvenis estão ainda mais submetidos ao presentismo, pois falta-lhe a articulação que a condição estudantil permite aos estudantes.



Em síntese, os movimentos juvenis não escapam da hegemonia burguesa e do presentismo. Os setores e tendências minoritários tentam resistir, mas o seu impacto é diminuto. A esperança é que o trabalho de “velha toupeira” dos setores minoritários, aliados com outros setores mais avançados da sociedade, com os processos de ascensão do movimento operário e/ou de crises no capitalismo, promova uma mutação nos movimentos juvenis. Assim, a luta dos jovens mais avançados atualmente tende a se encontrar com outras lutas e com uma mutação geral na juventude, abrindo espaço para o desenvolvimento do processo revolucionário. Nesse momento, a juventude poderá retomar sua radicalidade e seu significado utópico.

Referências

FERREIRA, Carolina. Formação a contrapelo: as ocupações estudantis e o Exercício da autonomia. Disponível em: http://anais.anped.org.br/sites/default/files/arquivos/trabalho_38anped_2017_GT14_1117.pdf acesso em: 01/05/2018.

MARÍAS, Julian. Tratado Sobre a Convivência. Concórdia sem Acordo. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

VIANA, Nildo. Juventude e Sociedade. Ensaios Sobre a Condição Juvenil. São Paulo: Giostri, 2015.

VIANA, Nildo. Os Efeitos do Contemporâneo. Revista Despierta. V. 1, n. 1, 2014.


[1] “Podemos, em linhas gerais, colocar que a contestação juvenil tende a se realizar na seguinte sequência: a) lutas imediatistas; b) lutas estilistas; c) lutas institucionais; d) lutas autônomas; e) lutas revolucionárias. (VIANA, 2015, p. 108).
[2] “Assim, a cada regime de acumulação há a tendência a existir uma geração uniformizada hegemônica nas quatro gerações etárias coexistentes (crianças, jovens, adultos, idosos). Obviamente que a existência de uma geração uniformizada hegemônica implica na de outras, não hegemônicas, com maior ou menor importância dependendo do regime de acumulação, das lutas sociais etc.” (VIANA, 2015, p. 47).
[3] Uma abordagem mais crítica pode ser vista em: http://redelp.net/revistas/index.php/rms/article/view/491/pdf